Problemas da existência atual: uma revolução cultural se faz necessária, parte 1, artigo de Américo Canhoto

[EcoDebate] Provavelmente todos concordam que estressados; cansados crônicos; depressivos; angustiados; em pânico; ou doentes do corpo; são pessoas que estão de mal consigo mesmas e com a vida.

As alegações são as mais variadas e até paranóicas: Falta de grana ou riqueza demais; obesidade ou magreza; beleza ou falta dela; saúde ou doença, conta bancária tão gorda que nos atordoa de tão grande ou cheque sem fundo; cartão de crédito estourado ou recusado; falta de saber ou excesso de pós-saber…

Humanas, contradições; nada, além disso…

Isso é real; na minha profissão, e nas lides da evolução própria; na qualidade de educador em saúde, canso de receber na tarefa diária, pessoas desesperadas, infelizes, a ponto de acabarem com a vida de forma ativa ou passiva; mas que, tem e detém tudo o que nós outros ainda sonhamos ter.

Qual a origem dessa maluca contradição?

Cada um de nós é uma construção na qual se usa o material desenvolvido no passado (tendências inatas) misturado ás influências do meio ambiente (positivas e negativas) em que nos desenvolvemos, sob a supervisão dos critérios da mente que, recebe ajuda das capacidades já desenvolvidas até o presente momento e a colaboração da nossa boa vontade.

A influência do meio sobre nós na existência é tão poderosa que, levou alguns pensadores ao equívoco de afirmar que cada um é produto apenas do meio em que foi criado – lógico que na construção dos efeitos do estresse crônico, a ação das influências externas sobre nós tem um peso considerável; principalmente no momento que vivemos.

Na origem desse distúrbio evolutivo alguns fatores são pessoais; outros são externos ao indivíduo.

Vejamos alguns:

É proibido aprender:
A educação baseia-se em falatório constante, raras vezes com conteúdo adequado; e na tentativa da criança de experimentar se o que é repassado é verdadeiro ou não, ela é impedida de vivenciar os efeitos de suas escolhas; isso nos leva a vivermos além da conta num mundo mágico e perigosamente irreal – mesmo que tenhamos consciência que: aprender as leis básicas da vida é como se fosse a alfabetização do espírito.

Ora, quando se impede a criança de aprender leis tão primárias quanto a de causa e efeito; justiça; trabalho; progresso; de que forma essa criatura vai poder fazer a leitura dos acontecimentos que experimenta; tanto das experiências mais íntimas quanto as de relações com o meio que a cerca?

Apenas para ilustrar, vamos comentar o estrago que o vício alimentar faz no desenvolvimento de vários aspectos da maturidade psicológica.

Desde o nascer somos induzidos a crer que, quanto mais se come mais feliz, realizado e saudável se é; essa foi uma grande e cruel arapuca social e cultural; preparada para aprisionar os incautos pela gula e pela dependência química que muitos alimentos criam; esse simples descuido gera complicações que parecem sem solução pela vida afora; e não apenas quanto a aspectos diretamente ligados aos problemas digestivos ou, quanto à saúde; também no que se relaciona a outros conteúdos pessoais e interativos. Pois, descuidados: Somos impedidos de ultrapassar a “fase oral do desenvolvimento”; tamanho o valor que se dá á comida; e depois, ao longo da existência em qualquer situação de conflito que percebemos ou não, temos o impulso de comer, mastigar ou mascar. O inventor do “chiclet” (mais uma droga alienígena) sem querer cometeu um desastre na evolução psicológica, pois o ato de mascar o tempo todo, nos retém na fase oral (até por volta dos dois anos de idade) durante a existência inteira, retardando as crises de crescimento psicológico; material de trabalho dos necessários “demos” (luz e escuridão).

A educação formal também reforça o egoísmo, o orgulho, o desamor, as vinganças e as retaliações; e torna o dia a dia um verdadeiro salve-se quem puder de desejos e interesses, cada dia mais cedo – isso ajuda a criar o perigo constante de não ter os interesses satisfeitos – e o desgaste de viver sob pressão dia após dia, não importa se, real ou imaginário gera um cansaço crônico dolorido que martiriza; a quem se submete a ele.

Claro, que o corpo sofre as conseqüências do medo e da ansiedade doentios, inexoravelmente.

A sensação de não agüento mais tem um lado psicológico e outro físico, sendo que um realimenta o outro, inseparáveis que são.

Ao tomar conhecimento das informações e interagir com as notícias do dia a dia; deste mundo cada vez mais globalizado; ao julgar o noticiário dos descalabros da impunidade na política; nós nos tornamos o policial que prende; o juiz que julga; e o executor.

É natural que no contexto atual haja perda da esperança: E tudo isso se mistura num coquetel explosivo: expectativas frustradas; educação que prioriza apenas a instrução; religião que não mais satisfaz as necessidades do coração e da mente; injustiças de todo tipo; pensamento mágico em fim de carreira; exploração de uns pelos outros; cultura; etc.

O estilo de vida atual quebra o sincronismo da lei de progresso sob a batuta das leis cósmicas; gerando a dúvida de quem somos e o que fazemos aqui, fonte de todos os nossos problemas.

Vivemos na Era do excesso de desejos:
Até pouco tempo, as expectativas e os sonhos das pessoas limitavam-se ao possível, no ambiente local em que foram criadas; a partir do advento da tecnologia de informação rápida e da sociedade de consumo, tudo mudou de forma drástica no campo dos sonhos e das ilusões dos que as recebem.

As possibilidades de cada um e dos grupos sociais tornaram-se cruéis algozes desses sonhos e de expectativas oferecidos pelo sistema – totalmente divergentes da realidade, o que colaborou para que muitos assumissem a “marginalidade” como forma de rebelar-se; contra as frustrações das expectativas impostas pela sociedade: pixando, roubando, corrompendo, traficando, matando, etc.

Vivemos num mar de ilusões:
Desde o nascimento estamos submetidos a viver fora da realidade, dessa forma, o que conduz nossas vidas com seus acontecimentos é a lei de causa e efeito; também chamado por alguns de destino. Somente quando estamos inseridos na realidade é que somos capazes de modificá-la ou transformar nosso destino futuro para melhor ou pior. Como exemplo: milhões de pessoas vão “levando a vida” ao depositarem suas esperanças em ganhos nas loterias de qualquer tipo; de forma infantil mantém acesa a chama da esperança numa ilusão, deixando de atuar positivamente em possibilidades concretas de mudança e reciclagem na forma de viver (Lei do trabalho e progresso).

A vida novelesca acentuou o problema das decepções sentimentais:
As relações amorosas estão excessivamente romantizadas e esteriotipadas pela mídia novelesca.
Manipulados: as crianças (pois a precocidade; é cada vez mais intensa) e os jovens idealizam criaturas que um dia as farão felizes; embora nada tenham a ver com elas nem com a sua realidade.

A decepção e a frustração seguida de mágoa ou ódio surgem cada dia mais cedo; pois o fluxo rápido e intenso dos fatos e acontecimentos transforma de forma acelerada príncipes encantados em sapos e fadas em bruxas; “gatos” logo viram “cachorros” e “gatas” rapidamente transformam-se em “antas”.
As relações amorosas perderam muito da afetividade para a simples sexualidade.

A perda do respeito e dos cuidados de um com o outro ocorre cada dia mais cedo, criando até o hábito de “ficar sem compromisso” ao invés de namorar; para não se frustrar nem se magoar com compromissos que nenhuma das partes pensa em cumprir com dignidade.

O medo da frustração sentimental leva as pessoas até a evitar o contato físico, e incrementou o namoro virtual pela Web, isso reforça mais ainda o isolamento e a sensação de abandono e de solidão; a dissociação entre mente e corpo acentua-se cada vez mais, criando uma legião de zumbis.

O sistema também nos leva á perda da referência pessoal:
Há um tremendo descompasso entre nossa capacidade de filtrar informações e a enxurrada delas, propiciada pela tecnologia e a mídia de consumo. Educados a viver segundo o que se passa no meio externo, perdemos de vez a referência pessoal do que é importante ou não para nós; isso, desagrega, mata e enlouquece.

QUEM SOU EU?
O QUE FAÇO AQUI?

Américo Canhoto: Clínico Geral, médico de famílias há 30 anos. Pesquisador de saúde holística. Uso a Homeopatia e os florais de Bach. Escritor de assuntos temáticos: saúde – educação – espiritualidade. Palestrante e condutor de workshops. Coordenador do grupo ecumênico “Mãos estendidas” de SBC. Projeto voltado para o atendimento de pessoas vítimas do estresse crônico portadoras de ansiedade e medo que conduz a: depressão, angústia crônica e pânico.

* Colaboração de Américo Canhoto para o EcoDebate, 01/03/2010

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