Pesquisa descobre que mandioca amarela produz mais vitamina A

mandioca
Foto: Embrapa

Variedade possui 50 vezes mais caroteno do que a planta comum. Projeto também disseminou técnica inédita de plantio

Pesquisa da Universidade de Brasília encontrou uma variedade de mandioca que possui 50 vezes mais caroteno do que a mandioca comum. O caroteno é a substância que, processada pelo fígado, gera a vitamina A, nutriente importante para o fortalecimento da retina.

A variedade – chamada de amarela 1 – foi encontrada em Minas Gerais e no Amapá e trazida para o Laboratório de Melhoramento Genético da Mandioca, na Estação Biológica da UnB. “Essa variedade é originária de culturas indígenas, que costumam ser negligenciadas pelos pesquisadores. Elas são ricas em nutrientes e podem ajudar as populações mais pobres”, afirma o professor Nagib Nassar, coordenador do Laboratório e responsável pelo estudo.

Nagib explica que a mandioca branca – variedade mais comum, encontrada nos supermercados e feiras – é pobre em caroteno. “Muitas crianças de famílias pobres passam a infância se alimentando dessa mandioca. Quando adultos, podem desenvolver problemas na visão”, alerta Nagib.

A pesquisa durou quase três anos e foi financiada com recursos do CNPq. A pesquisa foi citada em carta do editor da revista científica inglesa Science Development que mostrou os resultados do estudo no início deste mês (veja a versão do artigo em “Cultivares indígenas da mandioca remediam má nutrição no Brasil, artigo de Nagib Nassar“).

Depois de analisar as propriedades das mandiocas indígenas, o grupo do professor Nagib levou a descoberta para pequenos agricultores do Distrito Federal. A variedade amarela 1 foi levada a 11 produtores rurais por meio de um projeto de extensão da UnB, com apoio da Emater/DF.

Os estudantes fazem a distribuição das mudas duas vezes ao ano e visitas para acompanharem o desenvolvimento da plantação a cada três meses. Há também uma oficina anual, na qual os agricultores recebem orientações sobre a importância da conservação e do aproveitamento das variedades indígenas.

PIONEIRISMO – Nas visitas, os alunos da UnB apresentaram outra inovação do laboratório da mandioca: a introdução da técnica do enxerto da mandioca amarela na mandioca comum. Consiste basicamente em grudar a estaca de uma na outra. A variedade enxertada tem uma produtividade sete vezes maior.

Ângela Valentine Gorgen, 19 anos, do 5º semestre de Agronomia, é bolsista do projeto. “O cultivo da raiz é uma das principais atividades desses agricultores, especialmente para os que produzem farinha de mandioca. Eles ficam bem entusiasmados com a técnica”, comenta.

O agricultor Roque Pedro de Souza, 51 anos, não conhecia a mandioca amarela nem as técnicas de plantio ensinadas pela equipe da UnB. Ele tem uma propriedade de 3 hectares em Brazlândia. Ainda não comercializou a mandioca enxertada da variedade amarela, mas já reconhece a qualidade da planta. “É fácil de manipular na terra e tem um gosto muito bom. Se cozinhar muito, desmancha na panela”, garante.

SOLUÇÃO CASEIRA – Como fonte de caroteno, a mandioca amarela 1 possui vantagens econômicas em relação a outros produtos. A cenoura, por exemplo, é rica em vitamina A, mas precisa de condições muito boas no solo para crescer e produzir. “Não é uma planta que se adapta a condições severas do clima”, enfatiza o professor Nagib Nassar. Na Europa, o instituto suíço ETH e a Universidade de Friburgo, da Alemanha, desenvolveram um arroz transgênico com a finalidade de suprir a carência de vitamina A para populações com dieta baseada nesse cereal.

Segundo o professor Nagib, foram gastos US$ 200 milhões para a produção do chamado arroz dourado. Só que seria preciso consumir dois quilos do produto por dia para obter a quantidade mínima nutricional de caroteno (4 miligramas). Com apenas 100 gramas da mandioca amarela 1, o organismo humano absorve 6 miligramas.

Nagib Nassar é graduado pela Universidade do Cairo (1958) e PhD em Genética pela Alexandria University (1972). A convite do Ministério das Relações Exteriores, veio para o Brasil em 1974. Sua pesquisa se concentra no melhoramento da mandioca. Mantém o site www.geneconserve.pro.br.

Reportagem de Carolina Vicentin, da Secretaria de Comunicação da UnB, publicada pelo EcoDebate, 01/03/2010

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