Pesquisadores da Farmanguinhos/Fiocruz apostam em fármacos baseados em produtos naturais contra a tuberculose

Tísica, vampirismo, doença-ruim, moléstia-magra, mal-do-peito, capitã de todas as mortes: estes são alguns dos nomes que foram dados à tuberculose, doença que assombrou o mundo entre os séculos 18 e 19, quando matou cerca de um bilhão de pessoas. Nas últimas décadas, com o avanço da Aids e o surgimento de cepas de bactérias resistentes a antibióticos, a tuberculose voltou a chamar atenção como problema de saúde pública mundial. Para fazer frente à doença, o pesquisador Marcus Vinícius Nora de Souza, do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), aposta no desenvolvimento de novos fármacos, baseados em produtos naturais.

Após a descoberta do medicamento estreptomicina, na década 1940, pensou-se que o fantasma da tuberculose estava superado. Ainda hoje, no entanto, a doença mata quase 1,7 milhão de pessoas por ano em todo o mundo. O número aumenta silenciosamente à medida que surgem cepas multirresistentes e extremamente resistentes do Mycobacterium tuberculosis, agente causador da enfermidade. Em artigo publicado na revista Fitoterapia, Souza conta que os fármacos baseados em produtos naturais – oito deles já em fase de testes clínicos, conduzidos por agências e laboratórios internacionais – renovam as esperanças para a evolução do tratamento da tuberculose. Afinal, há mais de 40 anos não são desenvolvidos novos medicamentos para a doença.

Farmanguinhos também faz sua parte na luta pelo fim desse longo jejum. Neste momento, o Instituto trabalha com princípios ativos extraídos de dois produtos naturais – uma planta da Amazônia e outra da Mata Atlântica – no combate à tuberculose. Nos testes preliminares, as substâncias apresentaram atuação semelhante à de dois antibióticos já utilizados no tratamento contra a doença, rifampicina e isoniazida. Os estudos, conduzidos pela pesquisadora Maria das Graças Henriques, estão na etapa de testes in vivo, ou seja, com animais. Se as propriedades terapêuticas forem confirmadas, o próximo passo é buscar uma parceria com uma empresa ou entidade capacitada a avaliar a ação das substâncias em seres humanos.

Além dos estudos com fármacos baseados em produtos naturais, outra novidade são os testes clínicos para avaliar o efeito da combinação entre antibióticos já utilizados para outras doenças e medicamentos já existentes para a tuberculose, como a isoniazida. Os resultados desses testes, também comandados por grandes conglomerados internacionais, mostram que o tratamento tradicional da tuberculose, que dura de seis a nove meses, pode cair para dois meses. “Isso diminuiria um dos principais problemas que enfrentamos, que é o abandono do tratamento por parte dos doentes”, lembra Souza.

De acordo com o pesquisador, o surgimento das chamadas superbactérias foi decisivo para acelerar as pesquisas. “Antes, registrávamos a existência de bactérias resistentes, ou seja, que resistem aos fármacos de primeira linha, utilizados normalmente no combate à doença”, explica. “No início deste século, bactérias extremamente resistentes começaram a ser identificadas e elas são difíceis de tratar até com medicamentos de segunda linha, que já são mais caros, apresentam mais efeitos colaterais e exigem uma maior duração no tratamento”, acrescenta.

Aids e tuberculose

Atualmente, a tuberculose é responsável direta pela morte de um em cada três pacientes com HIV. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 12 milhões de pessoas em todo o mundo estão coinfectadas por essas duas doenças, sendo que 90% dos casos se encontram nos países em desenvolvimento. “Estima-se que cerca de 32% da população mundial têm tuberculose latente no organismo. Este número cresce 2% a cada ano. Quando você tem uma baixa no sistema imunológico, como no caso da Aids, por exemplo, a doença aparece”, explica Souza. Além da associação com o HIV, fatores como o uso excessivo de antibióticos e a pobreza ocasionaram o aumento do número de casos de tuberculose e o surgimento de bactérias resistentes.

Bactérias resistentes no Brasil

De acordo com a OMS, ocorrem entre 300 mil e 450 mil novos casos de tuberculose resistentes por ano, dos quais em torno de 80% não são tratáveis com pelo menos três dos fármacos comumente utilizados contra a doença. “As variantes estão espalhadas por praticamente todas as partes do mundo, inclusive no Brasil, e o número de casos tende a aumentar cada vez mais. O problema é que, com superbactérias como essas, o tratamento pode não fazer mais efeito”, afirma Souza. “Farmanguinhos, além de produzir medicamentos e pesquisar novos tratamentos para a tuberculose, também busca sensibilizar as pessoas para a importância da prevenção e do tratamento adequado. Além disso, é importante angariar mais pesquisadores para estudar a doença, especialmente aqui no Brasil”, destaca o pesquisador.

Reportagem de Simone Evangelista, da Agência Fiocruz de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 23/02/2010

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