Medicina: Ciência-Arte-Negócio? artigo de Américo Canhoto

[EcoDebate] “Estou desanimado! – Não sei o que fazer! – Eu já fui a muitos médicos e, cada um diz uma coisa a respeito do meu problema!”.

Volta e meia, sou questionado no consultório a respeito da “ineficácia” da atual medicina tecnológica e da falta de vocação para o “sacerdócio” da profissão.

Desde que me conheço por gente; durante o curso de formação médica; e hoje, mais ainda; eu sempre me questionei:

Porque os médicos têm interpretações tão diferentes frente a diagnósticos semelhantes?

Confesso que continuo com muitas dúvidas; e dentre elas: Será que a resposta é: Porque a formação acadêmica é cada vez mais voltada para a visão orgânica do ser, a tecnologia e o lucro? – Até onde a equação: ciência + arte + negócio = a resultado. Será que o resultado final depende muito mais da variável: a qualidade humana do profissional?

O que diferencia um profissional do outro? Sua formação acadêmica? Seu berço (educação)? Seu sistema de crenças? Sua visão de mundo? Seus interesses? – Provavelmente a soma de tudo isso.

No sistema de vida atual fomos induzidos a crer que a ciência é a chave capaz de abrir todas as portas da caixinha de surpresas que é a cura.

Nesse contexto; é inevitável que as pessoas comprem a idéia de que curas são vendidas como produto de consumo e de tecnologia; ela fixou-se e hoje é real; e para sentirem-se sofredores vitoriosos; todos querem a cura top line; a de marca; a da moda – Muitos consumidores da própria saúde adoecem de corpo e alma por sentirem-se excluídos do mercado de consumo da cura – pois, não conseguem pagar o melhor seguro saúde; o médico mais caro; e daí; o mais valorizado (ser curado pelo profissional da esquina é sinônimo de doente “furreba” – a doença não era tão séria) – a cura que se preze tem que ser bem custosa; confortável e de grife.

No sistema de viver atual a saúde virou um bem de consumo; daí, nossas vidas não têm valor (a dos outros menos ainda); nosso corpo tornou-se um objeto de consumo e de exibição de vencedor ou perdedor; segundo os padrões ditados pela moda da época; a saúde só é valorizada depois de perdida – impossível manter a visão de que o doente é uma vítima de falta de sorte e de oportunidades para manter-se saudável.

O raciocínio é simples: se você vai a uma loja popular não será atendido e paparicado como o consumidor de uma loja de grife.

No democrático mercado da saúde e da cura há espaço para todos os tipos de consumidores.

Claro que o mercado da cura alternativa está em franca expansão (tanto que o “seguro saúde” já está de olho nele; e captando para seu sistema os que estão em começo de carreira; pois, eles ainda aceitam receber baratinho pelos serviços prestados) – o melhor guru custa os olhos da cara; quanto mais esquisito seja o sistema mais aumenta a procura – neste mercado vende-se de tudo: cura através dos olhos para quem não quer enxergar os descaminhos de suas escolhas; cura através da orelha para quem não quer ouvir o próprio corpo; cura através dos pés; para quem não quer andar no próprio caminho…

Os consumidores mais “espertos” são os “carentes” atendidos pelo sistema de saúde espiritual – mamata maior não há: tudo de graça e com direito a paparicos e gentilezas mil; mesmo que forçadas; pois custam os olhos da cara do aprendizado da arte de desprendimento dos trabalhadores desse segmento – em franca expansão.

Não importa o rótulo nem o segmento de mercado: A realidade nesta era pós-moderna; é que ainda buscamos a cura como se procuram mercadorias num hipermercado; nós não queremos nos curar queremos ser curados não importa de que forma, e, a que preço; muito menos, nós medimos conseqüências. Tal e qual nós fazemos com as doenças que criamos no organismo de Gaia – inventamos mil conceitos e palavreados misturados entre diagnóstico e terapias; apenas para tapar o sol com a peneira: crescimento sustentável; biodegradáveis; biodiversidade, etc.

Neste estilo de vida; nós nos tornamos um ser insaciável (marca registrada do consumidor); acreditamos que a vida existe apenas para nos dar prazer e, na ânsia de aproveitá-la, corremos para os braços da morte e da destruição do planeta; que já está na UTI.

A educação criou e reforça a cada momento um apetite desgovernado por sensações e, a nossa capacidade de assimilá-las e integrá-las a um projeto de vida que faça sentido; ainda é diminuta. Daí, a necessidade e a importância da doença e dos desastres naturais (tão anunciados; quanto as doenças) que regulam a seletividade natural do uso do livre-arbítrio – mas, essa realidade nos causa desconforto; daí, a cura como necessidade de mudanças definitivas na forma de pensar, sentir e agir, de reformular hábitos e eliminar vícios prazerosos é evitada, pois, às vezes exige decisões contundentes na maneira de escolher, separar, avaliar – até mesmo na tomada de decisões que ameacem diminuir o lucro quanto ao uso do solo, da água, do ar, etc.

O resultado é que esse tipo de busca não representa uma decisão séria de cura da nossa parte; uma opção verdadeira entre diferentes meios de vida, pois enquanto alguém achar que pode comprar saúde pessoal, coletiva e ambiental outro pensará ser capaz de vender cura; Pior, outros mais espertos tentarão intermediá-la.

O que nos reserva o futuro?

Ao que tudo indica nossos problemas pessoais, coletivos e planetários não serão resolvidos apenas pela ciência e tecnologia.

Nada resolve tudo e, a medicina e o método científico não são exceções à regra. Quando totalmente atrelada à razão científica ela é neutra quanto a fins, e irremediavelmente, incapaz de responder à questão de como viver, para que viver; Ora, parece que viver, é apostar na liberdade de pensar e escolher.
A metodologia científica, não nos diz como usar essa liberdade e o que fazer de nossas vidas. Qualquer ato de escolha, por mais simples que seja, ultrapassa a esfera de competência da ciência. Então, a saúde ou a doença passa a ser principalmente questão de filosofia de vida; é uma escolha como outra qualquer, envolve todos os nossos sentidos e capacidades, nem sorte, nem azar, nem destino.

Opção feita: aguardem-se as conseqüências.

Algumas questões que nos conduziram a essa forma de abordagem desde a infância até a Faculdade, continuam perturbadoras:

Será que progresso científico, por si só é evolução?

Pois a ciência vista como tecnologia nunca alcançou tanta velocidade de aquisições; mas por outro lado, nunca antes, ao mesmo tempo, houve tantos angustiados quanto hoje; então, é possível concluir que: tecnologia e conforto não geram por si só qualidade de vida; e muito menos respondem á questão crucial quando se trata de compreender o possível sentido da nossa vida.

Para que tantos exames e procedimentos desnecessários e danosos á própria sanidade do paciente?

Qual a razão de nos defrontamos todos os dias com pessoas vivas e objetivadas; embora portadoras de doenças graves – convivendo lado a lado com depressivos ou angustiados devido a simples eczemas ou de pequenas frustrações?

Quem se habilita a responder?

O desenvolvimento da ciência e tecnologia neste laboratório do cosmos que é Gaia; são brincadeiras que o Criador do Universo nos proporciona na árdua e divertida tarefa da arte de viver; criar; recriar; transformar; aprender.

De volta aos questionamentos: Medicina: profissão, ciência, vocação ou sacerdócio?

Indiscutível no sistema atual que a medicina seja uma profissão tal e qual as outras (com carteira assinada ou não) – Indiscutível que esteja atrelada á ciência – Vocação? Nem tanto, neste mundo de informações desencontradas; muitos jovens são induzidos a tornarem-se reformadores do mundo – Sacerdócio? Aí o bicho pega; pois a medicina está se tornando rapidamente uma atividade de sacerdócio moderno e de consumo: tudo pelo dinheiro usando o nome do médico dos médicos: Jesus.

A dúvida de alguns profissionais da arte da cura: Como sobreviver neste mundo de consumo mantendo os ideais?

De que forma transmitir conceitos mais verdadeiros sobre o assunto a pessoas que ainda pensam serem capazes de comprar saúde?

A resistência é enorme; pois quando trombamos com verdades que nos obrigam a mudanças, costumamos nos esconder atrás de desculpas e de justificativas; e logo acionamos os mecanismos de defesa das nossas fixações mentais. Por exemplo: o glutão rejeita toda conceituação sobre o vício alimentar; o compulsivo praticante de sexo solitário repele toda concepção de mau uso da energia sexual; o preguiçoso não aceita que é vítima de si mesmo; o caluniador sente-se um justiceiro, o traidor do compromisso conjugal acha-se no direito de ser feliz quando tudo fez para ser infeliz, etc.

Não vale desanimar; pois, ainda há muito que fazer na tarefa de humanizar a medicina.

Solução emergencial?
Talvez aplicar a filosofia voltada para o estudo da saúde, das doenças e da cura segundo o Evangelho e afins; que se baseiam nas leis naturais. No momento atual, talvez não sejam necessárias descobertas revolucionárias nem roteiros de auto-ajuda; é possível que apenas seja necessário um simples convite à mudança de comportamento, e, um alerta para o uso sistemático da razão que duvida, investiga e que conduz cada um a ter as próprias convicções, com base no “conhece-te a ti mesmo” (Sócrates).

Medicina existencial?
A idéia que apregoamos de nossa medicina existencial (Day by Day), é que cada um crie uma forma própria de viver; que resultará no seu conceito de realidade, que é único. Elaborado segundo observações e comprovações baseadas em fatos cotidianos e experimentais – nada muito sofisticado; algo bem liberal e acessível a quem quiser praticar dentro de suas possibilidades do momento. Essa idéia simples e de baixo custo ( a moeda é a boa vontade) pode até salvar o planeta – ajudar Gaia a sair da UTI – Pois “somos todos um”; criaturas interdependentes, e, portanto; nossas visões do mundo devem harmonizar-se, integrar-se, mas não podem ser cópias umas da outras; embora alguns fatos sejam comuns: “aquilo que todo mundo sabe” ou “aquilo que não é preciso dizer” – Cada um de nós que se melhora ou cura contribui para a cura de todos.

O sistema que preconizamos, é também, um aviso para o perigo de crer sem questionar; pois em tempos de globalização há sobrecarga de informação. Hoje somos bombardeados de apelos, cercados de sons, rótulos, slogans e imagens por todos os lados, e assediados por apelos os mais desconexos em assuntos de saúde. Na atualidade, sempre há alguém querendo nos vender saúde, é preciso cuidado para não comprar doenças cada vez mais graves. Vale a pena aplicar o sábio conselho de Jesus “Devemos ser mansos como as pombas, mas prudentes como as serpentes”; crer por crer é perigoso e doentio; daí, um dos medicamentos definitivos para a cura é a reflexão constante.

Como tudo é cíclico, renovável e momentâneo convidamos o leitor a livrar-se das fixações mentais e dos velhos conceitos, em especial, quando se fala de doenças.

Quando nos guiamos pelos ensinamentos dos Mestres Cósmicos ou Avatares; fica claro que não existe moléstia incurável nem saúde e felicidade estática. Ninguém nasceu condenado a nada, sempre há muito a ser feito e quando se rotula alguém de incurável; cabe questionar: Por quem? Em que espaço de tempo? Sob que condições?

Na eterna evolução; nossas idéias são dinâmicas; e, algumas partes, nunca estarão concluídas, pois, embora as leis que regem a vida sejam imutáveis; é preciso reconsiderar a realidade a cada momento à luz de novos fatos e de novas interpretações; quando não o fazemos criamos fixações mentais que propiciam sofrer, doenças e morte; inclusive neste exato momento, alguém pode oferecer novas explicações ao que aqui está formulado; e capazes de influenciar esta visão de mundo, reorganizar este pensamento, demolindo velhos conceitos. Uma das bases de nossa teoria de saúde é: buscar e integrar novos conhecimentos ao cotidiano como uma prática saudável.

A verdadeira medicina não deve ficar apenas aquém do fenômeno da morte; nem lutar contra ele; ingloriamente; deve ir além.

Assunto interessante para outros bate papos: Não acredite em saúde espiritual no além; caso tenha saído desta dimensão como doente – Cuidado com os vendedores de planos de saúde para usufruir no outro lado da vida; no pós – morte.

Já pensou nisso?

O que seu plano de saúde astral cobre no além?

Viagens astrais á parte: Analise suas possibilidades; busque a melhor relação custo benefício nos tratamentos; deixe de lado os milagres:

EDUQUE-SE PARA A VIDA COMO UM SER PENSANTE.

O QUE E O QUANTO QUER PAGAR PELA SUA CURA?

Américo Canhoto: Clínico Geral, médico de famílias há 30 anos. Pesquisador de saúde holística. Uso a Homeopatia e os florais de Bach. Escritor de assuntos temáticos: saúde – educação – espiritualidade. Palestrante e condutor de workshops. Coordenador do grupo ecumênico “Mãos estendidas” de SBC. Projeto voltado para o atendimento de pessoas vítimas do estresse crônico portadoras de ansiedade e medo que conduz a: depressão, angústia crônica e pânico.

* Colaboração de Américo Canhoto para o EcoDebate, 23/02/2010

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