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Hidrelétrica de Belo Monte: a queda do mito da energia barata, artigo de Marcos Vinicius Miranda da Silva

Embora o valor do investimento total para a construção dessa usina apresentado pelas empresas ligadas ao governo federal tenha aumentado em torno de 22%, a iniciativa privada afirma que ele ainda está subestimado

A hidrelétrica de Belo Monte, planejada para ser construída no rio Xingu, estado do Pará, com potência instalada de 11.233,1 MW, é um empreendimento energético polêmico não apenas pelos impactos socioambientais que serão causados pela sua construção. A mais recente controvérsia sobre essa usina envolve o valor do investimento total do projeto e, consequentemente, o seu custo de geração.

Em 2002, a Eletronorte apresentou um estudo de viabilidade no qual a construção da hidrelétrica de Belo Monte exigiria um investimento total de R$ 7,51 bilhões, que corresponde atualmente a cerca de R$ 13,14 bilhões, com correção pelo IPCA-IBGE. Mais recentemente, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) anunciou que o investimento total para a construção dessa hidrelétrica ficará em R$ 16 bilhões.

Embora o valor do investimento total para a construção dessa usina apresentado pelas empresas ligadas ao governo federal tenha aumentado em torno de 22%, a iniciativa privada afirma que ele ainda está subestimado. Para o mercado, a construção dessa hidrelétrica exigirá um investimento total entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões.

A determinação do investimento total da hidrelétrica de Belo Monte é fundamental para o seu estudo de viabilidade econômica, porque ele é um dos elementos que compõem o cálculo do custo de geração. Com base nas informações fornecidas pela EPE, calcula-se que o custo de geração dessa hidrelétrica ficará em torno de R$ 66 (US$ 35) por MWh. Levando-se em conta os valores do investimento total especulados pelo mercado, esse custo ficará entre R$ 81 (US$ 43) e R$ 120 (US$ 64) por MWh.

Além da falta de consenso sobre o investimento total necessário para construir a hidrelétrica de Belo Monte, outro aspecto que chama a atenção é a queda do mito da energia barata, pois se for acrescentado o custo de transmissão, a energia de Belo Monte não chegará por menos de R$ 95 (US$ 50) por MWh na região Sudeste. Portanto, bem acima dos R$ 45 (US$ 24) por MWh apresentados pelo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) dessa hidrelétrica.

Deve-se ressaltar também que a inclusão de outros custos decorrentes, por exemplo, dos gastos para o pagamento da compensação financeira pelo uso dos recursos hídricos e para a mitigação e controle dos impactos socioambientais, elevará ainda mais o custo da energia fornecida por essa usina.

Os custos de geração calculados para a hidrelétrica de Belo Monte encontram-se abaixo do custo marginal de expansão de R$ 146 (US$ 77) por MWh, estabelecido pelo Plano Decenal de Expansão de Energia 2008/2017. Porém, esse não é um bom parâmetro para avaliar a viabilidade econômica dessa hidrelétrica, pois esse custo corresponde ao preço da alternativa mais cara que foi alcançado nos leilões realizados em 2008.

Em função da mudança no valor do investimento total da hidrelétrica de Belo Monte, o que realmente interessa para a sociedade brasileira é saber se essa usina é a melhor alternativa de oferta de energia para o país sob o ponto de vista econômico, social e ambiental global e local quando comparada não apenas com alternativas energéticas convencionais, mas também com térmicas operando em cogeração a partir do aproveitamento da biomassa (por exemplo, bagaço de cana), com a repotenciação de usinas antigas, ou com programas de eficiência e uso racional da energia.

Também interessa saber quais serão os custos energético e econômico da retirada mensal de mais de 9 mil MW médios do sistema elétrico entre os meses de agosto e novembro, devido ao período de estiagem no rio Xingu.

Refém do fantasma do “apagão”, das perspectivas eleitorais, da falta de autonomia da EPE, da tradição cultural e ideológica hídrica megalomaníaca imperante no sistema elétrico brasileiro, o planejamento energético dificilmente dará essas respostas à sociedade. Porém, é possível afirmar que no mundo real, onde não há espaço para distorções, o mito da energia barata da hidrelétrica de Belo Monte está definitivamente no chão.

Marcos Vinicius Miranda da Silva é analista de Sistemas Energéticos e bolsista pesquisador do CNPq, no projeto “Grandes Hidrelétricas e o Desenvolvimento do Estado do Pará: um Modelo de Diretrizes”. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”.

Artigo originalmente publicado no Jornal da Ciência, SBPC, JC e-mail 3950.

EcoDebate, 18/02/2010

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5 thoughts on “Hidrelétrica de Belo Monte: a queda do mito da energia barata, artigo de Marcos Vinicius Miranda da Silva

  • Ricardo Machado

    O projeto tem por finalidade exportar energia barata em forma de alumínio.O contribuinte brasileiro, é quem pagaria, através de financiamentos do BNDES e da participação de estatais,o povo brasileiro todo irá financiar o lucro imediato das empreiteiras e o lucro em longo prazo das empresas mineradoras, e quebra, o povo ainda arcará com os custos ambientais.

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