Entrevista com Washington Novaes: ‘Brasil pode viver com 30% a menos de energia’

Para o especialista, o País precisa investir na redução de perdas e numa política de eficiência energética

De uma lista quase interminável de críticas à Usina Hidrelétrica de Belo Monte, o jornalista Washington Novaes, também consultor ambiental, apega-se a uma delas: a de que o Brasil simplesmente não precisa dessa hidrelétrica. Segundo ele, a demanda por energia pode ser facilmente suprida com a redução de perdas na transmissão, campanhas contra o desperdício e repotenciação de geradores.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Para o sr., o que é mais grave no caso da Usina de Belo Monte?

O fato ignorado de que o Brasil pode viver tranquilamente com 30% a menos da energia que é consumida hoje. Se neste momento ainda temos uma sobra e podemos ganhar com medidas baseadas na eficiência energética e no controle de perdas, temos um tempo bom pela frente para planejar de acordo com a necessidade e fazer investimentos em áreas que estão muito carentes, como saneamento.

A que medidas o sr. se refere?

Defendo a implantação de programas de conservação e eficiência energética, como ocorreu no apagão de 2001, quando o consumo brasileiro de energia caiu em torno de 30%. Até hoje ninguém mostrou que houve prejuízo para a população, a não ser para as distribuidoras de energia que deixaram de faturar. Essa é uma das conclusões de um estudo realizado em 2007 por pesquisadores da Unicamp em parceria com a organização WWF. Esse mesmo estudo diz que podemos ganhar 10% da atual potência instalada com a repotenciação de geradores antigos, que já tenham rendimento muito baixo. No Brasil, também perdemos quase 15% da energia nas linhas de transmissão, enquanto fora daqui os valores são muitos menores: o Japão tem 1% de perda.

No setor energético existe o consenso de que essas medidas têm um custo alto para o sistema e nem sempre são eficientes.

Eles têm sempre essa posição, nunca defendem conservação nem eficiência. Os Estados Unidos, depois do segundo choque do petróleo, em 1973, colocaram em operação um plano de conservação e eficiência energética e durante 15 anos não aumentaram um só quilowatt no consumo de energia. Nesse período o PIB (Produto Interno Bruto) americano subiu 40%. É perfeitamente possível.

Os defensores da Usina de Belo Monte dizem que o Brasil precisa expandir o polo gerador anualmente na mesma proporção do crescimento do PIB.

Isso não faz sentido porque somos altamente desperdiçadores de energia. E o que é pior: estamos fazendo licenciamento privilegiando o funcionamento usinas termoelétricas, altamente poluidoras – um contrassenso para um país que acaba de fazer uma lei de Mudanças Climáticas. São todas decisões políticas.

O Ministério de Minas e Energia alega que é justamente o atraso de Belo Monte que obriga o governo a colocar em funcionamento as termoelétricas.

Repito: não precisamos de Belo Monte. Os impactos e o custo dessa usina também são enormes e não se justificam. As escavações serão equivalentes às que foram feitas para abrir o Canal do Panamá. Outra questão: a hidrelétrica vai causar uma explosão populacional na região, que não dispõe de infraestrutura. Além do impacto ambiental e social, há também o impacto econômico, porque essa energia não vai abastecer os povos da Amazônia, mas as indústrias de alumínio. Para os grandes consumidores, a energia é subsidiada e quem paga a conta é a população. Além de tudo isso, como se pode conceder o licenciamento ambiental de uma hidrelétrica sem saber quanto ela vai custar?

As 40 condicionantes definidas pelo IBAMA na licença prévia concedida há duas semanas não são suficientes?

Isso não quer dizer grande coisa. No caso da transposição do Rio São Francisco, foram definidas 31 condicionantes e nenhuma delas foi atendida. As obras estão aí. Em Belo Monte vai acontecer o mesmo, porque a estratégia do governo está baseada em grandes obras. Isso me faz lembrar o falecido secretário nacional do Meio Ambiente, José Lutzenberger. Ele dizia que não há nada melhor para o crescimento do PIB de um país do que um terremoto, porque depois de contabilizados os prejuízos chega o momento de contabilizar as obras de construção.

Entrevista publicada no O Estado de S.Paulo.

EcoDebate, 17/02/2010

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