Agrotóxicos: Reformas de leis buscam ampliar presença ao invés de restringi-la. Entrevista com Graciela Gómez

veneno

Adital – O uso indiscriminado de agrotóxicos ainda é um desafio a ser enfrentado por muitos ambientalistas. Em Santa Fe, na Argentina, a situação não é diferente. Além do abuso de venenos, a população ainda tem que lidar com a indiferença das autoridades em relação ao tema.

Em entrevista à ADITAL, a advogada da ONG Ecos de Romang, Graciela Gómez, aponta os avanços e desafios ainda encontrados no combate à contaminação. Além disso, denuncia a falta de compromisso político com o assunto e o desinteresse de laboratórios em pesquisar os efeitos dos tóxicos manipulados frente aos incentivos para a mutação de sementes.

A advogada destaca ainda o papel de movimentos e organizações ambientais na informação e na luta pela proteção da natureza. Exemplo disso é o que ela mesma faz na internet: utiliza o espaço – denominado Ecos de Romang – para denunciar às pessoas os perigos do abuso e mal uso de agrotóxicos.

As informações e os estudos sobre tais produtos estão disponíveis em: http://ecos-deromang.blogspot.com.

Adital – Que balanço a senhora faz das políticas direcionadas ao uso indiscriminado de agrotóxicos em 2009? Houve avanços?

Graciela Gómez – O avanço é quantitativo em relação à denúncias de populações expostas. As esporádicas sentenças judiciais nas províncias onde impera a aplicação aérea e terrestre são superadas pelas ordenanças de cidades que proíbem às empresas de ferrovias a desmazelar as vias com herbicidas. Isto reflete a ineficácia de toda disposição sobre o manejo dessas substâncias. Os projetos de proibição nunca foram tratados.

As reformas a leis vigentes buscam ampliar ainda mais ao invés de restringir a desproteção existente com as fumigações. A indiferença dos órgãos responsáveis, que devem decidir sobre o tema e pôr um freio ao uso irracional destes venenos, demonstra a fragmentação de responsabilidades e a falta de estratégias para tratar a contaminação.

Adital – Quais são as expectativas com relação às ações para este ano de 2010?

Graciela Gómez – Não podemos falar a esta altura de que há desconhecimento. A saúde não pode esperar. Há energia para preparar campanhas eleitorais, mas não há vontade nem dinheiro para restaurar equipes deterioradas, por exemplo como as que realizam a análise residual de glifosato nas águas. Tem que realizar estudos epidemiológicos, mapas e estatísticas reais das crianças nascidas vivas com más formações. Aceitar que há diferentes formas de exposição em maior ou menor grau, mas que se relacionam com diferentes enfermidades.

Gastam-se fortunas em laboratórios somente para transformar sementes até o amorfo, mas não há conclusões eticamente sérias sobre o perigo dos tóxicos manipulados. Assim demonstrou um dos organismos que integra a Comissão de Pesquisa sobre a utilização de Agroquímicos. Esperamos decisões concretas levadas à prática não só a nível legal e científico, mas também político.

Adital – Todavia, a senhora crê que os movimentos, os ambientalistas tenham conseguido difundir mais as informações acerca dos organismos geneticamente modificados?

Graciela Gómez – Há um “Dever moral de informar ao mundo”, parafraseando um jornalista espanhol. Justamente porque não se pratica frequentemente, se desinforma. As tarefas estão invertidas: os movimentos e ambientalistas custodiam os recursos naturais, a saúde e o cumprimento das leis em um Estado ausente.

Advertem e resistem à “Destruição criadora” destas novas tecnologias que arrasam com as formas produtivas existentes, com culturas e costumes onde a Pachamama é sagrada. Difundem que é perigoso esquecer que o solo é um ser vivente biológico, não químico. Conquistamos por ele o título de “soldaditos” que levamos com orgulho de ser “verdes”. Algo que quem nos outorgou não obterá nunca, nem se pintando.

Entrevista originalmente publicada pela ADITAL, Agência de Informação Frei Tito para América Latina.

EcoDebate, 03/02/2010

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