O ‘jeitinho do bem’, artigo Montserrat Martins

burocracia
Foto: SXC.hu

"Eu não sou contra a burocracia. A burocracia é que é contra mim" (Giba Giba, cantor)

[EcoDebate] Numa das licenças-saúde do Paulo Sant’Ana, foi lá em 30 de julho de 2009, o Léo Gerchmann foi interino na coluna dele e lançou a tese “O jeitinho do bem”. A idéia do Léo é a seguinte: “O malfadado jeitinho brasileiro é resolver as coisas com criatividade, com malícia. Somos um povo afeito a maleabilidade quando a lei requer uma interpretação mais sensível. E isso é necessariamente ruim ?”. Cita como exemplo de burocratismo um “azulzinho” (fiscal de trânsito) que multou um motorista em frente ao colégio do filho, porque estava falando ao celular. Quando o motorista argumentou que o carro estava parado, o azulzinho disse que o multava porque estava “com o motor ligado” e arrematou: “É a letra fria da lei”.

Léo Gerchman sabe que hoje há um senso comum contra o jeitinho porque é dele que se valem os políticos corruptos, as CPIs que acabam em “pizza” e que os criminosos do “colarinho branco” nunca vão para a cadeia, só os “ladrões de galinha”, ou seja, estão culpando o “jeitinho” pela desigualdade e injustiças sociais. E a culpa seria mesmo do “jeitinho” ou, ao contrário, esse é uma cultura criada pelos mais humildes para sobreviverem ao poder, criando seus micropoderes paralelos ? Para Gerchmann, podemos dizer que há um “jeitinho do bem”, “quando se fala em sorrisos abertos, hospitalidade e solidariedade, são coisas brasileiras, do bem”. E cita que em O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro mostra que somos multifacetados, das mais diversas etnias, o que resultou numa cultura de flexibilidade e de convivência com as diferenças, de relativizar algumas delas para não vivermos em guerras permanentes por nossas diferentes culturas e valores, nesse “país-continente”. O oposto do jeitinho seriam a ética e a lei ig

Quando o governo lançou a campanha contra a fome, uma empresa de Caxias quis doar um caminhão para a campanha. Cerca de meio ano depois, ainda não havia conseguido doar o caminhão, porque os trâmites legais em Brasília ainda não haviam sido concluídos. Os órgãos do governo responsáveis por examinar a doação ainda não haviam determinado se o caminhão podia ser entregue, esse assunto virou matéria de jornal na época.

Uma história bem simples sobre burocratismo e jeitinho, que nos contaram, aconteceu no interior, onde dois fazendeiros que romperam sociedade disputavam na justiça a propriedade da terra. Quando, durante o processo judicial, um era considerado dono, nomeava um capataz para dirigir os peões ao seu modo. Quando havia uma decisão favorecendo o outro como sendo o dono, este mudava de capataz e dava ordens diferentes para este novo capataz transmtir aos peões. Como a batalha judicial demorou muitos anos, chegou a um ponto em que os dois capatazes – um da confiança de cada fazendeiro – resolveram se entender entre si e começaram a orientar os peões de acordo com o que era melhor para a lida do campo, sem considerar tanto as oscilações de humor e de troca de poder entre os proprietários em conflito de poder. E com esse “jeitinho do bem”, dizem que a fazenda ficou mais produtiva, sem que os donos tivessem ficado sabendo porque.

Montserrat Martins, Psiquiatra, é colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 22/01/2010

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