Contragolpe no ecossistema, artigo de Thomas Lovejoy

"Para todo lado que se olhe, a natureza vem apresentando reações de ruptura jamais observadas pela ciência"

[O Estado de S.Paulo] Dirigentes nacionais e outros líderes reúnem-se em Copenhague para as negociações sobre mudanças climáticas, confrontando um quadro que parece uma nuvem mistificadora de siglas, números e dados. Mas, por importantes que estes possam ser para esboçar um plano de ação, obscurecem o fato de que o planeta funciona ao mesmo tempo como um sistema biológico e um sistema físico.

Esse sistema biofísico (a biosfera e a atmosfera juntas) é a chave para se compreender a urgência das mudanças climáticas e se delinear uma resposta realmente significativa.

Para todo lado que se olhe, no planeta, a natureza está em movimento de uma maneira jamais vista pelas ciências naturais. Espécies estão sofrendo mudanças no ritmo de seus ciclos vitais e algumas já se mudam dos lugares onde existiam. Estamos começando a ver um desacoplamento de vínculos rígidos na natureza em que um elemento é norteado pelo comprimento do dia e outro pela temperatura.

Com a chegada antecipada da primavera, por exemplo, as lebres de pata branca já não ficam camufladas por suas peles de inverno branco-brilhantes porque estão em paisagens sem neve, tornando-se totalmente visíveis para predadores.

Com consequências ainda maiores, começou a ocorrer o colapso de ecossistemas. Cinco por cento da humanidade depende de recifes de coral tropicais e vive a uma distância de cem metros deles. Um aumento da temperatura provoca a ruptura da parceria básica entre corais e algas no recife. Com as variações de temperatura, o coral ejeta a alga e o ecossistema sofre “branqueamento”. De vivamente colorido, o recife, com o colapso da diversidade e da produtividade de seus componentes, passa a branco e preto.

Uma quebra semelhante de ecossistema está ocorrendo nas florestas de coníferas da América do Norte, na medida em que invernos mais brandos e verões mais longos inclinam a balança a favor dos besouros de casca nativos. Nos Estados Unidos, as projeções indicam que aproximadamente 9 milhões de hectares serão afetados. Administrar florestas e incêndios torna-se um enorme problema. É difícil projetar qual será o futuro dessas florestas.

As implicações para ecossistemas agrícolas são igualmente preocupantes. A Austrália teve que abandonar o arroz como uma importante cultura de exportação por causa da seca persistente (uma primeira manifestação das mudanças climáticas). O encolhimento de geleiras e o derretimento glacial põem em risco a produtividade agrícola em muitas partes do mundo. Lester Brown, fundador do Earth Policy Institute, projeta uma dificuldade considerável para manter a prática e a produção agrícolas correntes em face da elevação das temperaturas globais.

Por vasta que possa ser, a Amazônia parece perigosamente perto de uma situação limite. Há algum tempo, um dieback (morte gradual de uma planta, de cima para baixo, provocada por doenças e condições climáticas) da floresta no sul e sudeste da Amazônia vem sendo projetado por um dos modelos climáticos – primeiro com um aumento da temperatura global de 2,5°C, mais recentemente, com 2°C. Estudos recentes que incluem os efeitos do desflorestamento e do fogo, bem como de mudanças climáticas, preveem que o início do dieback está perigosamente próximo – a alguns anos, apenas.

Se isso ocorrer, a perda de biodiversidade, o carbono acrescentado à atmosfera e o impacto sobre moradores da região seriam terríveis. A boa notícia é que um reflorestamento agressivo poderia aumentar a margem de segurança e reduzir a iminência da situação limite.

Os oceanos, tão importantes para nós pelos alimentos marinhos, ficaram 30% mais ácidos em razão das concentrações mais altas de CO2 na atmosfera. Isso acabará afetando todas as dezenas de milhares de espécies marinhas que formam seus esqueletos ou conchas de carbonato de cálcio. Os efeitos já estão sendo notados na base de algumas cadeias alimentares oceânicas.

O planeta vivo está sinalizando muito claramente que as concentrações atuais de gases estufa já estão altas demais.

Assim, o desafio passa a ser não só descobrir maneiras de reduzir emissões provenientes de desflorestamento e outras mudanças no uso da terra, mas também identificar modos de retirar CO2 da atmosfera.

Como as coisas vivas são formadas de carbono, restaurar ecossistemas numa escala planetária pode contribuir de maneira significativa. As ações que capturam carbono incluem o reflorestamento, a restauração de campos e pastagens degradados e o manejo da agricultura de forma a repor carbono nos solos.

Não há um número único confiável para o potencial de captura de carbono com a restauração de ecossistemas em escala global, mas um programa ambicioso poderia reduzir as concentrações de CO2 planetárias em até 40 partes por milhão. Essa é a diferença entre o nível atual (cerca de 390 ppm) e os 350 ppm que é o limite superior para uma interferência perigosa em ecossistemas.

Mas, por importante que seja tal redução, ela é insuficiente. O presidente do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), Rajendra Pachauri, propôs um esforço maior para retirar CO2 da atmosfera. Um grande esforço de pesquisa para examinar maneiras adicionais de retirar CO2 sem efeitos colaterais no meio ambiente deve ser uma prioridade global.

Isso é genericamente diferente da maioria dos esquemas de geoengenharia. A maioria desses só trata da temperatura (o sintoma) e não do CO 2 (a causa) e não é, portanto, uma solução real. Além disso, o risco de efeitos prejudiciais inesperados é inerentemente alto porque a maioria das propostas de geoengenharia tem uma escala planetária.

Está claro que as metas e cronogramas que a maioria das nações está trazendo para a mesa em Copenhague são insuficientes para salvaguardar o planeta vivo e os pilares biológicos da sustentabilidade.

Os Estados Unidos, entrando tarde no jogo, estão propondo uma meta apenas 5,5% abaixo dos níveis de 1990. O número equivalente para a China é um aumento de 253% e para a Índia, de 229%. As emissões do Brasil (sem uma mudança no uso da terra) aumentariam 15%.

Elas podem ser uma base para discussões significativas e para linhas de ação iniciais, mas somente num contexto que respeite este planeta pela biosfera que ele é.

Thomas Lovejoy ocupa a cadeira de Biodiversidade no Heinz Center e chefia o Painel de Consultoria Científica e Técnica da Global Environment Facility.

Artigo originalmente publicado no O Estado de S.Paulo.

EcoDebate, 15/12/2009

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