Floresta tropical atingida pela fragmentação armazena a longo prazo menos biomassa e dióxido de carbono

Floresta tropical atingida pela fragmentação
Foto de Paulo Whitaker/Reuters

A preservação de áreas florestais contínuas é importante para a proteção climática

O desmatamento das florestas tropicais pode ter uma influência muito maior na mudança climática, do que aquela considerada até o momento. A biomassa total de áreas florestais pequenas até muito pequenas, resultantes de uma fragmentação da paisagem, quando comparada a uma floresta natural contínua de mesma área total, pode ser até 40 por cento menor. Os pesquisadores alemães e brasileiros chegaram à este resultado por meio de cálculos obtidos a partir de modelos utilizando dados da Mata Atlântica, no estado brasileiro de São Paulo, uma floresta tropical distribuída ao longo da costa leste do Brasil e que sofreu com o desmatamento de aproximadamente 88%. Os fragmentos restantes da floresta são pequenos e possuem assim uma relação desfavorável entre área e borda. A causa para a redução da biomassa seria a alta mortalidade das árvores situadas nas bordas dos fragmentos de florestas, e com isto, uma redução das árvores maiores e mais velhas, que proporcionalmente possuem maior biomassa, notam os pesquisadores do Centro Helmholtz para Pesquisa do Meio Ambiente (UFZ) e da Universidade de São Paulo na revista especializada Ecological Modelling.

Situações modificadas de ventos e a alteração do clima de radiação conduzem à uma modificação geral do microclima nas bordas da floresta. Estes são fatores que prejudicam especialmente as árvores maiores e velhas. Com a ajuda do Software desenvolvido no UFZ para simulação de florestas, FORMIND, os pesquisadores modelaram remanescentes de florestas de diferentes tamanhos, após sofrerem o processo de fragmentação da paisagem. Quanto menor uma parcela de floresta for, pior é sua relação entre borda e área. Além disto, constatou-se que uma floresta tropical natural intocada produz aproximadamente 250 toneladas de biomassa por hectare, um fragmento de floresta de 100 hectares produzia 228 toneladas de biomassa por hectare – um hectare de floresta tropical, no entanto, somente 140 toneladas de biomassa por hectare. Desta forma, a biomassa nas parcelas restantes de florestas caiu, neste estudo, em até 60 por cento. “Este fato é de elevada importância para a função das florestas tropicais como armazenadoras de biomassa. É importante entender que perdemos não somente as áreas desmatadas. Com isto a área restante da floresta também será degradada (de qualidade inferior). É um erro pensar na perda enquanto redução de área total apenas. Devemos começar também a considerar a configuração espacial das áreas florestais restantes”, esclarece Dr. Jürgen Groeneveld, do UFZ, bem como considerar o significado destas influências no momento de se pensar as ações de políticas climáticas. Além das consequências sobre o acúmulo da biomassa por hectare estes efeitos de borda, resultantes da fragmentação espacial, atuam também sobre o balanço climático e sobre a biodiversidade – ou seja, tem efeito sobre várias dimensões da sustentabilidade.

O estudo de simulação integrou resultados qualitativos de outros pesquisadores, que conduzem pesquisas e experimentos sobre o efeito a longo prazo da fragmentação da paisagem na Amazônia. No entanto, muitas questões ainda não foram respondidas: as bordas permanecem estáveis? A floresta consegue regenerar-se ou o processo degenerativo continua para o interior? Os pesquisadores vêem os números primeiramente como uma previsão cautelosa. “Assim que tivermos os resultados confirmados, teremos alcançado um grande avanço: fragmentos de florestas não podem apresentar o mesmo rendimento que florestas contínuas”, complementa o colega Dr. Sandro Pütz. Os pesquisadores querem então examinar nos próximos anos os efeitos a longo prazo, para descobrir como os remanescentes de florestas tropicais se desenvolvem. Os resultados deste estudo possuem também consequências fundamentais para a proteção de florestas, no mínimo relacionado ao balanço de carbono: “Em todo caso é melhor em relação a fixação de carbono, proteger 100 hectares contínuos que cem parcelas de um hectare”, diz Jürgen Groeneveld.

Os dados para o modelo são originários da floresta tropical distribuída na costa leste do estado brasileiro de São Paulo. A Mata Atlântica foi desmatada desde a segunda metade do século 19 em grandes áreas, para o fornecimento de madeira para construção, carvão vegetal, criação de área de pastagens e para a agricultura. Embora reste ainda somente um oitavo da área da floresta original, estes remanescentes de floresta são tidos ainda como um Hotspot da diversidade de espécies com importância global, porque eles ainda abrigam um número impressionante e ainda não descrito completamente de animais e plantas extremamente ameaçados. Devido a isto, pesquisadores alemães e brasileiros pesquisam desde 2003 as consequências a longo prazo da fragmentação da paisagem nos habitats da Mata Atlântica, que antes cobria toda a superfície da costa oriental brasileira e hoje é uma das florestas tropicais mais ameaçadas.

Os novos conhecimentos dos modeladores ecológicos, sob a direção de Andreas Huth e Klaus Henle, são ainda importantes nas negociações da conferência sobre o clima das NU, em Copenhagen. Lá será discutido, entre outros, sob o título REDD (“Reducing Emissions from Deforestation and Degradation”), um mecanismo que deverá incluir as florestas na proteção ao clima. Porque a floresta fixa o dióxido de carbono – seu desmatamento ou sua degradação conduzem assim à liberação adicional ou fixação futura reduzida de dióxido de carbono por unidade de área, intensificando desta maneira o efeito estufa. Vinte por cento do total das emissões globais de CO2 são originárias da destruição da floresta.

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Publicação:

J. Groeneveld, L.F. Alves, L.C. Bernacci, E.L.M. Catharino, C. Knogge, J.P. Metzger: S. Pütz, A. Huth (2009): The impact of fragmentation and density regulation on forest succession in the Atlantic rain forest. Ecol.Modell. 220 (19), 2450-2459
http://dx.doi.org/10.1016/j.ecolmodel.2009.06.015

M.C. Ribeiro, J.P. Metzger, A.C. Martensen, F.J. Ponzoni and M. M. Hirota (2009): The Brazilian Atlantic Forest: How much is left, and how is the remaining forest distributed? Implications for conservation. Biol. Conserv. 142, 1141-1153
http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2009.02.021

Outras informações especializadas

Dr. Jürgen Groeneveld/ Dr. Christoph Knogge/ Dr. Sandro Pütz / Dr. habil. Andreas Huth
Helmholtz centre for Environmental Research (UFZ)
Telephone: +49 341 235-3213, -1706, 1719
Dr. Jürgen Groeneveld
Dr. Christoph Knogge
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Dr. Jean Paul Walter Metzger
University of São Paulo, Instituto Biociencias, São Paulo, Brazil
Telephone: ++55 11 3818.7564
Jean Paul Walter Metzger
University of São Paulo, Instituto Biociencias, Docentes

Outros Links sobre o tema

Biodiversity: Biodiversity’s bright spot. Nature 462, 266-269 (2009)
www.nature.com/news/2009/091118/full/462266a.html

Research project Mata Atlantica:
www.mata-atlantica.ufz.de

FORMIND: an individual based forest model:
www.ufz.de/index.php?de=3994

Informe do Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ) , publicado pelo EcoDebate, 11/12/2009

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