A necessária ligação entre economia e ecologia

No contexto da crise civilizacional que vivemos, a economia comparece como um dos seus principais agentes. Impulsionada pela ideia de progresso linear e quantitativo assentado sobre o crescimento econômico e recursos naturais ilimitados, a economia, na sociedade industrial, foi se desvencilhando gradativamente da filosofia e da ética para se aproximar da matemática. Dessa maneira passou a prevalecer uma visão quantitativa da economia. O índice que mede as riquezas dos países, o Produto Interno Bruto, é, sob este ponto de vista, o supra-sumo desta lógica. E que hoje está sob fogo-cruzado justamente por sua visão redutora.

A economia fez um movimento pelo qual deixou de ser a “serva” da sociedade para se tornar a sua “senhora”, para retomar conceitos da filosofia clássica. Ou, na perspectiva apontada por Karl Polanyi em A grande transformação, a economia, de periférica e subordinada que era nas sociedades não industriais, passou a ocupar o lugar de destaque nas economias de mercado. Tanto é assim que hoje com frequência se ouve dizer que a economia não está mais a serviço da humanidade, mas a humanidade a ser serviço.

Entretanto, além da relação entre economia e sociedade, também a ligação entre economia e ambiente foi se desfazendo. Também aqui passou a prevalecer a relação de dominação, de subjugação, lógica expressa na máxima de Descartes de que “somos senhores e dominadores da natureza”. Esta visão justificou (e ainda justifica!) a visão predatória dos recursos naturais, a extinção da biodiversidade, a poluição… E isso fundamentalmente porque a natureza foi considerada pela economia como uma externalidade, isto é, como algo que não entrava no cálculo econômico. Justificava-se a destruição da natureza em vista da criação de “riqueza”.

Assim, nos últimos anos, de maneira sempre mais clara, impôs-se a realidade da insuficiência planetária para dar conta do consumo atualmente existente. A chamada “pegada ecológica”, que mede o “peso” ambiental de nosso modo de vida, está acima da capacidade regenerativa da bioesfera.

Ainda que a consciência ambiental e ecológica tenha surgido já há algum tempo, demorou mais ainda para que a comunidade política e científica (os setores mais conservadores, evidentemente) se convencesse da responsabilidade humana na mudança climática em andamento e, segundo alguns, já no limite do ponto de não retorno, o que trará graves consequências ambientais, sociais e econômicas. Mas, se há hoje relativo consenso diante da gravidade do problema, as maneiras e a determinação de enfrentá-lo são os pontos de dissenso, como vimos acima.

A religação entre economia e ecologia foi ganhando força nos últimos anos, na medida em que também uma visão mais holística da realidade começou a aparecer. “Sem recuperar o meio ambiente, não se salva a economia; sem recuperar a economia, não se salva o meio ambiente”, defende o ecologista norte-americano Berry Commoner. E essa percepção vai ganhando força também entre os economistas.

Prêmio Nobel de Economia. Uma estocada nos economistas

Um sinal de que algo novo está no ar é a atribuição do Prêmio Nobel de Economia a duas pessoas cuja trajetória e produção intelectual foge do círculo mais estrito da economia. A bem da verdade, Elinor Ostrom nem economista não é, o que por si só é significativo, uma vez que ela é cientista política. E mulher. A primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel de Economia da história deste Prêmio.

Elinor Ostrom passou boa parte de sua vida estudando as relações entre populações, os ecossistemas e seu equilíbrio ecológico. Vale destacar que os seus estudos ajudam a desmistificar a ideia de que os indivíduos levam em conta apenas os seus interesses próprios sem se importarem com os efeitos sobre as outras pessoas, o meio ambiente e as próximas gerações, preconizada no conceito de “Tragédias dos Comuns”. Além disso, apontam para o reconhecimento de que a economia não é feita apenas das interações mercado-governo, mas que há outros agentes importantes no processo, como o próprio meio ambiente.

Oliver Eaton Williamson, o outro laureado deste ano, é economista, mas “sempre enfatizou a interdisciplinaridade de sua abordagem, colocando-a no cruzamento da economia com o direito e a administração”, escrevem dele os economistas Ramón García Fernández e Huáscar Pessali.

Se se considerar que a concessão do Prêmio Nobel nem sempre foi isenta de interesses, as escolhas deste ano estão carregadas de significado. A indicação de Ostrom e Williamson pode ser lida como “uma estocada nos economistas”, sobretudo os de corte neoliberal, e na visão estreita de economia, ao mesmo tempo em que a ligação entre economia e ecologia ganhou um inesperado apoio e legitimação.

“Eu acho que é uma mensagem de que o campo da economia está tentando deixar de ser puramente quantitativo para ser um campo multidisciplinar”, disse Kathleen Stephansen, economista-chefe da Aladdin Capital Holdings, de Stamford, Connecticut. Para Lynn Reaser, economista-chefe da Point Loma Nazarene University e presidente eleito da Nabe, “é importante para os economistas ter um olhar para além de apenas a inflação e o crescimento do PIB”, disse ele.

Não se pode separar economia e ecologia

O futuro da vida – e especialmente, da vida humana – na Terra dependerá do rumo que se der hoje à economia. Por essa razão, a discussão sobre os modos de produção e de consumo torna-se crucial no contexto de uma sociedade ecologicamente sustentável. Ao mesmo tempo se percebe como os dois pólos – produção e consumo – estão estreitamente relacionados.

No contexto da sustentabilidade, ganha corpo o discurso sobre a possibilidade das “empresas verdes”. “Empresa verde é uma empresa verdadeiramente ecológica e comprometida em tornar suas atividades compatíveis com a proteção do meio ambiente”, diz Elisabeth Laville, professora da Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris, em entrevista especial à IHU On-Line. Para Laville, só é realmente ecológica aquela empresa que se “comprometer em tornar ecologicamente sustentáveis 100% de seus produtos num futuro próximo”. Dessa maneira, a professora descarta como “verdadeiramente ecológica” aquelas empresas que investem apenas em “atividades corporativas filantrópicas de caráter ecológico” ou que tornam “suas atividades industriais e sistemas de gestão ecologicamente sustentáveis (por exemplo, comprometer-se com a certificação da ISSO 14001 para plantas industriais…)”.

Para Elisabeth Laville, as empresas devem adotar uma abordagem de “sustentabilidade 2.0”, o que significa não só assumir compromissos em relação a seus processos e sistemas internos, adotando uma abordagem de prevenção de riscos, mas ir além e tomar “a iniciativa de mudar seus produtos e serviços a fim de torná-los todos ecologicamente mais responsáveis”. Para isso, reitera, “teremos de nos concentrar em redesenhar os produtos, por exemplo, em fazer o ecodesign no upstream a fim de reduzir o impacto dos produtos ao longo de todo o seu ciclo de vida, mas também, em alguns casos, trabalhar na substituição do produto por um serviço que possa ser prestado sem consumir mais recursos naturais e gerar mais lixo”.

“A sustentabilidade tem a ver com a mudança radical de muitos mercados, e as empresas que forem incapazes de prever essas tendências talvez sofram muito nos anos vindouros”, diz Laville, que acredita que as empresas serão obrigadas a “integrar a sustentabilidade em seu modelo de negócios”. Laville também é otimista em relação às novas tendências de consumo. Há novas tendências no consumo que já incorporam a aquisição de produtos mais duráveis e ecológica e socialmente responsáveis.

O surgimento do industrialismo foi tributário de uma revolução tecnológica. Os desafios atuais serão enfrentados, segundo muitos pesquisadores, com uma nova revolução tecnológica. Para o economista José Eli da Veiga, sairão na frente os países que tiverem desenvolvido tecnologias adaptadas e apropriadas a esse novo momento.

“O que está ocorrendo é uma tremenda corrida pelas tecnologias, que poderão levar à superação da era fóssil. E outra vez serão os mesmos países que fizeram a revolução industrial que vão levar a melhor nessa. E os países emergentes agiram de uma forma totalmente errada até agora, perdendo a oportunidade de mudar esse jogo”, lamenta José Eli da Veiga. E especificamente em relação à posição, comenta: o Brasil “não está investindo em ciência e tecnologia com prioridade”, razão pela qual “não terá essas tecnologias e continuará tendo que discutir essa questão de como vão comprar tecnologia dos outros países através da tal transferência de tecnologia”. “Não há foco no Brasil em relação à ciência, à tecnologia e à inovação”, conclui Eli da Veiga.

A ênfase na inovação tecnológica deve ser compreendida corretamente. Como alerta Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, é preciso pensar na inovação tecnológica não como ‘engenhocas’. “Normalmente, quando se pensa em inovação tecnológica, limita-se a isso: a algo que gasta menos água. É preciso pensar numa dimensão estratégica que envolve toda a sociedade em cima de coisas de grande porte. É uma tecnologia que envolve cadeias, investimentos em cima de uma mudança de prioridades”, diz o autor do recém-lançado livro “O Novo Manual de Negócios Sustentáveis”.

Os investimentos em ciência, inovação, tecnologia, devem ser feitos com vistas a prioridades estratégicas. Devem estar subordinadas a um projeto político de sociedade e de economia em sintonia com a natureza. Isso explica a insatisfação também do ambientalista brasileiro Washington Novaes, que há anos vem chamando a atenção para o fato de que o Brasil deveria tirar proveito de forma inovadora das enormes potencialidades proporcionadas pelas riquezas naturais de que dispõem.

Mas o fundamental em toda essa discussão, como recorda José Eli da Veiga, é ter a consciência de que “não dá mais para separar economia e meio ambiente”, o que representa enormes desafios para a economia e o trabalho.

Conjuntura da Semana. Uma leitura das ‘Notícias do Dia’ do IHU de 06 a 21 de outubro de 2009

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as ‘Notícias’ publicadas de 06 a 21 de outubro de 2009 e a revista IHU On-Line n. 311, 19-10-2009. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

(Ecodebate, 27/10/2009) publicado pelo IHU On-line [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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