COP 15, Copenhague: Crescimento, ninguém quer desacelerar

Na realidade, os países ricos e os países em desenvolvimento temem a mesma coisa: frear o crescimento econômico. Os países industrializados (EUA e União Européia) temem se comprometer com metas fortes de redução das emissões de gases que provocam o aquecimento global, pois não querem ter perdas econômicas.

Já os países em desenvolvimento (particularmente o Brasil, a China e a Índia), mas também os africanos – com a África do Sul à frente –, argumentam que a responsabilidade histórica pela emissão de gases-estufa é dos países industrializados e que, assim como as nações do Norte, também têm o direito de se desenvolver. Os países em desenvolvimento não aceitam metas obrigatórias e querem que os industrializados concedam financiamentos para adaptação às mudanças climáticas.

O ambientalista Washington Novaes em entrevista à revista IHU On-Line dessa semana, que tem como tema de capa a Conferência de Copenhague, resume da seguinte forma o dissenso: “Os chamados países emergentes como Brasil, China, Índia, México e África do Sul alegam que essa responsabilidade [de drástica redução da emissão de gases estufa] deve caber aos países industrializados que emitem mais e há mais tempo, e que os emergentes não poderiam assumir compromissos de reduzir emissões porque isso poderia comprometer o seu desenvolvimento. Os países desenvolvidos, continua ele, em contrapartida, argumentam que se os emergentes não assumirem compromissos de redução, não se conseguirá nada porque, neste momento, o mundo em desenvolvimento já consome mais energia e emite mais que o primeiro mundo”.

O clima é de desconfiança. Os países ricos esperam os emergentes que, por sua vez, esperam os ricos. Stephen Byers, presidente da Organização Global de Legisladores para o Equilíbrio Ambiental (Globe), afirma que os países industrializados estão esperando até o final das negociações para que as economias emergentes assumam compromissos de redução de emissões, para só então revelar sua aposta. Segundo ele, “este é um jogo de apostadores, e isso é ruim”.

Na avaliação da secretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Suzana Kahn, há um “ceticismo mútuo” entre os negociadores de países ricos e de nações em desenvolvimento. “Por um lado, os países desenvolvidos argumentam que só o esforço deles não vai ser suficiente, de outro lado, os países em desenvolvimento se perguntam “se eles não conseguem reduzir nem o que prometeram em Kyoto, o que garante que vão se comprometer agora?”. É uma questão do tipo “ovo e galinha”: se uns não derem o primeiro passo, os outros também não darão”, compara.

As últimas reuniões em Bonn e em Bancoc manifestaram a dificuldade de um possível acordo e já há quem acredite que a negociação para acordo climático pode se arrastar e adentrar 2010.

Há aqueles que sequer acreditam num acordo em Copenhague. Entres eles está Roberto Smeraldi, diretor da entidade Amigos da Terra – secção brasileira, para quem em entrevista ao IHU On-Line, Copenhague não vai representar muita coisa: “Acho que não vamos ter muitos avanços em Copenhague porque acredito que não estamos prontos ainda para uma negociação. Esse encontro vai ser uma etapa intermediária, e espero que seja a preparação para um acordo seguinte. Eu não creio em acordos em Copenhague”.

“A importância que eu dou para Copenhague não é tão grande”, pensa também José Eli da Veiga. Segundo ele em entrevista ao IHU On-Line, “a transição ao baixo carbono está em curso faz tempo e independe de Copenhague. Os países que mais rapidamente perceberam que em vez de um problema, uma restrição, isso é uma grande oportunidade para uma nova etapa do capitalismo, já estão há muito tempo investindo em ciência, tecnologia e inovação”.

Yvo de Boer, secretário-executivo da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas [Conferência do Clima] que tem a função de costurar acordos já antecipou até onde provavelmente chegará Copenhague: “A conferência sobre mudanças climáticas em Copenhague não vai produzir um novo acordo internacional, e sim um marco político que servirá de base para o corte de emissões de gases-estufa”. Segundo ele, um novo e completo tratado internacional na Conferência a ser realizada na Dinamarca em dezembro não irá acontecer. “Se você olhar para o pouco tempo que ainda temos até o encontro em Copenhague, isso fica claro”, afirma De Boer que prevê que os governos venham apenas a concordar na estrutura de um acordo, sendo que os detalhes técnicos seriam deixados para depois.

O Brasil e Copenhague

Há uma grande expectativa acerca da posição brasileira na Conferência de Copenhague. Nos últimos anos o país vem desempenhado um protagonismo importante em negociações internacionais, representando inclusive os países pobres e em desenvolvimento. Espera-se que o país exerça um papel de liderança.

O Brasil foi um dos grandes articuladores da criação do G-20 em 2003 como forma de conter a pressão dos países ricos na OMC. Ao mesmo tempo, foi decisivo para a constituição do G-3, conhecido também como Ibas – Índia, Brasil e África do Sul. Regionalmente, colocou em marcha o fortalecimento do Mercosul e esteve à frente na implosão da ALCA comprando uma briga iniciada pelos movimentos sociais. Defendeu a legitimidade da decisão boliviana no processo de estatização dos hidrocarbonetos, criou as condições para um acordo com o Paraguai acerca da revisão do Tratado de Itaipu e, recentemente assumiu postura enérgica frente ao golpe em Honduras.

Na questão do clima, entretanto, o país tem sido conservador. Já é conhecida a reiterada afirmação de Lula de que os países ricos poluíram o planeta e agora não têm o direito de exigir que o Brasil restrinja o seu crescimento. O Brasil, porém, não tem como dar as costas para esse debate em função de que hoje já o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. O país é considerado um dos grandes emissores de carbono devido às queimadas das florestas.

Esse fato não é insignificante. Os desmatamentos de florestas tropicais, sobretudo pelas queimadas respondem hoje por aproximadamente de 10 a 15% das emissões globais. Trata-se de um valor significativo, praticamente o equivalente a toda a emissão do setor de transportes mundial, responsável por aproximadamente 14% das emissões.

Conjuntura da Semana. Uma leitura das ‘Notícias do Dia’ do IHU de 06 a 21 de outubro de 2009

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as ‘Notícias’ publicadas de 06 a 21 de outubro de 2009 e a revista IHU On-Line n. 311, 19-10-2009. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

(Ecodebate, 26/10/2009) publicado pelo IHU On-line [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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