O destino da América agora se joga em Honduras, artigo de Bruno Lima Rocha

Manifestante protesta contra fechamento de rádio e televisão por parte do governo hondurenho. Foto de Wilson Pedrosa/AE
Manifestante protesta contra fechamento de rádio e televisão por parte do governo hondurenho. Foto de Wilson Pedrosa/AE

[EcoDebate] Nas seguintes linhas, aponto algumas reflexões iniciadas no calor das horas seguintes ao retorno de Zelaya ao solo hondurenho. Segui observando e tomando notas nos dias seguintes, quando a embaixada do Brasil tornou-se o epicentro do terremoto político centro-americano. Abordo o tema a partir de um ângulo distinto da visão majoritária. Busco, através do presidente deposto, localizar os protagonistas organizados nas entidades de base e organizados na Frente Nacional de Resistência.

Três golpes em sete anos: o Império perdeu dois e periga perder mais um

Nos últimos sete anos, três intentos de golpe de Estado foram praticados por oligarquias latino-americanas coordenadas, de forma oficial ou oficiosa, pelos Estados Unidos (EUA), através do Departamento de Estado, o Comando Sul e agências como CIA e DEA. O primeiro foi na Venezuela, em abril de 2002, cercando o cholo Hugo Chávez no Palácio Miraflores e resultando em uma pueblada, com Caracas em pé de guerra e as forças armadas divididas. Chávez voltou ao poder, derrotou os escuálidos e aprofundou o estilo de governo. Sem dúvida alguma, após a vitória contra os golpistas e a derrota sobre a direita após o locaute petroleiro, o povo dos bairros e morros passou a ofensiva, forçando o governo a aprofundar o processo de divisão de ingressos e rendas.

Outro intento ocorreu na Bolívia, em setembro de 2008, através de oligarquias da chamada Meia Lua. Nesta ocasião, o véu caíra e um dos líderes públicos da oligarquia cruceña veio a público. Trata-se do notório traficante de drogas e latifundiário de soja, Branko Gora Marinkovitch Jovicevic; nascido na Bolívia, filho de croatas pró-nazis e formado na Universidade do Texas. O então presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, fomentara uma rebelião de direita, movida a chicha e cerveja de litro, pregando a secessão do país “produtivo” contra os “lerdos” do altiplano. A aventura terminara no Massacre de Pando e no cerco estratégico de colunas populares a algumas capitais separatistas. O governo do aymará Evo Morales foi obrigado a se mexer, uma vez que duas colunas de camponeses e mineiros cercaram a capital da secessão camba, Santa Cruz de la Sierra. A terra de Túpac Katari e Inti Peredo quase viu a derradeira guerra de libertação anti-colonial. Não foi daquela vez e a legalidade republicana vêm sobrevivendo desde então.

Na terceira tentativa, os poderes hondurenhos, através das forças armadas treinadas sob influência da Escola das Américas, derrubaram o presidente eleito. Não é um golpe como os do período da Guerra Fria e sequer se aparece com o autogolpe do nipo-peruano Alberto Fujimori, em abril de 1992. José Manuel Zelaya Rosales foi derrubado por um golpe cívico-militar em 28 de junho deste ano. Justo no domingo de manhã, dia em que se convocava uma consulta a respeito da necessidade ou não de uma Assembléia Nacional Constituinte, o presidente eleito pelo Partido Liberal de Honduras (PLH), foi cercado em sua residência e levado preso para a Costa Rica. A partir deste dia até o retorno na última segunda- feira (22/09) ao país, Zelaya praticou uma intensa atividade diplomática, recheada de alianças pontuais e duplo discurso. A motivação fática dos oligarcas bananeros de sempre nas Honduras é a legalidade constitucional.

Parece que se inspiram na possibilidade de repetirem o ano de 1955 na Argentina. Uma vez derrubado Juan Domingo Perón através do golpe mais à direita (gorilas, liberais, socialistas e comunistas pró-Moscou) iniciado em 16 de setembro, o peronismo/justicialismo ficou proibido de participar – ao menos em sua integralidade – das eleições subseqüentes. Se Zelaya não voltasse, essa seria a linha adotada pelo presidente golpista Roberto Micheletti, pelo general torturador Romeo Vásquez (o ex-chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas hondurenhas, destituído dias antes do golpe) e o governo exterior em paralelo comandado pelos ultra-conservadores yankees encastelados no Departamento de Estado e no Comando Sul do Império.

Em Honduras, há uma bomba de tempo acionada

Há momentos na trajetória de um país que a tomada de decisão é fundamental. No caso de Honduras, apesar e além de todas as alianças e manobras diplomáticas realizadas pelo presidente deposto José Manuel Zelaya Rosales, havia um fator estratégico. Esse fator tem um nome e se chama correr riscos. Se a liderança do presidente constitucional queria manter-se legítima, o latifundiário convertido em líder popular teria que lutar, pôr na reta e arriscar a vida. O país sofreu um golpe, através de um exército fiel e leal a Escola das Américas que o treinou, e subordinado aos poderes instituídos sob controle da oligarquia local. Esse é o tipo de tropa que não brinca e não se arrepende. Todo golpe de Estado é sinônimo de violência e perigo. Para recuperar partes de este poder, havia que jogar com todas as possibilidades, inclusive de vida. E, Zelaya, quando cruzou a fronteira e refugiou-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa, chamou para si esta carga.

Muitos analistas duvidavam da capacidade do político de carreira do Partido Liberal de Honduras (PLH) em aceitar o desafio que lhe fora imposto. Os dois primeiros blefes de que retornaria ao país sem sequer passar da fronteira com a Nicarágua reforçaram este ponto de vista. Confesso que estava cético também, e errei. Detalhe, isso não converte José Manuel em José Martí ou José Gervasio e nem nada parecido. Ele é a última esperança de um processo de divisão de um pouco de renda e riqueza e de um desenvolvimento capitalista parcialmente autônomo. À esquerda dele, no miolo e no seio da Frente Nacional de Resistência, tem gente muito séria, peleando duro e mirando longe, indo além dos horizontes da democracia liberal-burguesa, apontando objetivos finalistas de democracia de tipo direta e insubordinação do país ao negócio de plataforma de exportação primária para o Império. Foi essa a parcela de hondurenhos que obriga Zelaya a mover-se. E, para surpresa de muitos, incluindo este que escreve, ele o fez.

Em situações limite, a qualidade da liderança política também implica em sua pré-disposição pessoal para jogar duro e transitar nas parcelas cinzentas das estruturas e alianças internacionais e continentais. Não tenhamos ilusões, ninguém faz política no exílio sem infra-estrutura, recursos e segurança individual. Dada a procedência dos militares hondurenhos, a possibilidade de ser assassinado era e é uma constante. Se o magnicídio é falado aberta e publicamente nos meios de comunicação oligárquicos da Venezuela, o que dirá nas sombras de janelas de fundos de quartos de hotel e casas de apoiadores nas zonas de fronteira. O ex-presidente tem estafe de confiança, e com certeza bons contatos entre oficiais militares de seu país. Ainda assim, para cruzar a fronteira de um pequeno país extremamente vigiado, houve defecção e acerto entre setores castrenses.

Durante os oitenta e seis dias que peregrinou pela América Central e indo aos foros diplomáticos adequados, Zelaya contou com logística e um aparato de inteligência operando para ele. Caso contrário, nem vivo estaria. Mesmo um ex-presidente deposto passa dificuldades e todo aparelho político – ainda mais no exílio – custa caro. Sem infra e recursos, nada mais se faz do que testemunhar a decadência de um projeto político. Não foi esta a alternativa de Zelaya, dada a velocidade com que se movia. Os países do Continente estão jogando com a possibilidade de frear a tentativa de contra-ofensiva do Império. E o epicentro agora está em Honduras. Essa constatação reforça a tese do apoio direto ou indireto de governos e administrações latino-americanas. Certamente para isso, contou com aliados diversos e muitas vezes disputando liderança na mesma região. Tal é o caso entre Brasil (finalmente!) e a Venezuela, que já vinha dando sustentação ao seu governo a partir das negociações lícitas do preço do barril de petróleo e em operações de tipo corações e mentes, como a Operación Milagro, onde idosos eram operados gratuitamente (como deve ser) de cataratas e outras enfermidades curáveis nos olhos.

Mas, nesse breve exílio, o presidente deposto teve de ter habilidade nas regras da política tradicional. Oscilando entre grupos, Zelaya joga um pouco como franco-atirador na política, embora pareça mais fanfarrão do que é. Primeiro sinalizou estar favorável ao Acordo de San José, coordenado pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias. Neste texto, constava a anistia para os golpistas e o abandono da convocatória de uma Assembléia Constituinte. Se esta vergonha vingasse, estava aberta a porteira para uma série de golpes institucionais ou então possibilidades jurídicas como “destituintes” dos governos eleitos. Por sorte, logo após o anúncio por Mr. Arias, vociferou estar contra o texto e o “consenso” – cujo preço era tentar “pacificar” a resistência – para o retorno.

O que há de inusitado é a reação do presidente destituído. Na maioria das vezes, líderes de tradição oligárquica, mesmo com apoio popular, não arriscam a desintegração da ordem social para recuperar uma parcela do poder político. Tal foi o caso do ex-presidente brasileiro deposto João Goulart, por exemplo. Diante da possibilidade de divisão das forças armadas e guerra civil na defesa de seu governo e do processo democrático-liberal, Jango roncou baixo e não acionou a cadeia de comando entre militares ainda leais a ele. Não tivemos “guerra civil” no Brasil, mas pagou-se o preço de mais de quarenta mil torturados, presos políticos, desaparecidos e vinte e um anos de ditadura. O preço foi alto demais para manter a ordem social em detrimento da ordem política. Fiquemos atentos, porque esse tipo de manobra ainda pode ocorrer com Zelaya. Se bem que, sejamos justos, a cada dia que passa as margens para tomar esse tipo de decisão se reduzem.

Quem luta em Honduras e como se informar desta epopéia cívico-popular

Não me surpreende as multidões nas ruas de Tegucigalpa e de outras cidades hondurenhas. Desde o dia 28 de junho leio diariamente a mídia alternativa hondurenha, Apesar da desinformação pela qual passamos, é possível furar o bloqueio midiático. Por um lado, acompanhava a Frente Nacional de Resistência através de meios hondurenhos alternativos, como o excelente projeto Habla Honduras, ou nas transmissões de rádio web da Rádio Feminista ou da Rádio Liberada. As fotos, vídeos e transmissões radiofônicas não deixam dúvidas. Estamos diante de uma peleia popular e com dimensão gigantesca para as proporções do país.

A pauta central das entidades e organizações que compõem a Frente Nacional de Resistência Contra o Golpe é a nova constituição e a pulverização do poder. Este se concentra tanto na oligarquia hondurenha como nas suas sócias majoritárias, transnacionais de mineração ou bananeiras como a estadunidense Chiquita, ex- United Fruit (leia aqui as denúncias em castelano). Chávez, Lula e até Obama sabem que Manuel Zelaya sabe que está sentado sobre uma bomba relógio. Por um milagre de São Óscar Romero, dessa vez o Brasil e sua diplomacia se comportaram a altura de quem quer ser líder na região. Este país, que se arvora de neutro nos conflitos, foi o mesmo que ajudou a exportar a Doutrina das Fronteiras Ideológicas, enviando torturadores aos quatro cantos do Continente, além de haver participado ativamente na Operação Condor. Espera-se que a medida de receber o presidente deposto na embaixada de Tegucigalpa comece a mudar as práticas do Itamarati.

Concluindo a análise

Honduras está próximo de um conflito em larga escala, podendo resultar numa rebelião popular sem precedentes. Espera-se que o povo Hondurenho em geral, e a Frente Nacional de Resistência em particular, estejam preparados para uma luta de longo prazo. No curto prazo, derrotar os golpistas tem um significado estratégico para toda América Latina.

Leia Mais: Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.

* Colaboração de Bruno Lima Rocha, cientista político com doutorado e mestrado pela UFRGS, jornalista formado na UFRJ; docente de comunicação e pesquisador 1 da Unisinos; membro do Grupo Cepos e editor do portar Estratégia & Análise.

EcoDebate, 03/10/2009

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