Preço é maior barreira para captura e armazenamento de carbono

Medida combate aquecimento global, mas custo de separar gás e enviá-lo para subsolo em larga escala ainda é elevado. Planeta precisa reverter aumento de emissões até o ano de 2020

Capturar, sequestrar, enterrar. São fortes os verbos que descrevem a ideia de tirar o CO2 das chaminés de usinas e de poços de petróleo e enviá-lo para reservatórios profundos, livrando a atmosfera de grandes quantidades do gás-estufa. Parece uma solução brilhante, mas está cada vez mais claro que o tempo para que a tecnologia seja viável em larga escala é grande demais para que ela seja protagonista na briga contra o aquecimento global.

Em artigo [Carbon Capture and Storage: How Green Can Black Be? Haszeldine, Science 25 September 2009: 1647-1652, DOI: 10.1126/science.1172246] publicado na última edição da revista “Science”, Stuart Haszeldine, geólogo da Universidade de Edimburgo, especula que a CCS (sigla em inglês para captura e armazenamento de carbono), nome dado a esse mecanismo, levaria ao menos dez ou 20 anos para se tornar praticável. Parece pouco, mas é muito. Reportagem de Ricardo Mioto, na Folha de S.Paulo, com informações complementares do EcoDebate.

Isso porque, segundo as projeções do IPCC (o painel do clima da ONU), a humanidade precisa parar de aumentar as suas emissões de CO2 até 2020 para evitar um desastre climático. Cedo demais para a CCS. A essa altura, a tecnologia estaria, com otimismo, apenas começando a se tornar relevante.

Como a maior parte da energia utilizada pelas indústrias do mundo não é limpa – 85% do que elas consomem está relacionado à queima de combustíveis fósseis, como o carvão mineral-, o cenário é turvo.

O problema é mais financeiro do que tecnológico. O CO2 já é injetado na terra há décadas. Inicialmente, isso era feito para ajudar a extrair petróleo. O CO2 entra no reservatório, aumenta a pressão e faz o óleo subir. Na semana passada, uma usina a carvão nos Estados Unidos começou a produzir energia elétrica “limpa” a partir do carvão utilizando CCS. Já se sabe como fazer.

Mas não se sabe como pagar. “O grande desafio é custo. Especialmente na primeira etapa, quando ocorre a separação do CO2 nas fontes. A concentração de nitrogênio [na mistura de gases emitidos pelas usinas] é muito alta. Só algo entre 4% e 15% é CO2, esse processo ainda é muito caro”, diz Rafael Bianchini, sócio da Climate Consulting.

“Por mais que exista CCS, em vista dos impactos [da mudança climática], a situação é de caos. Não dá para pensar que, por causa de CCS, posso ter luz incandescente em casa.”

“Hoje, [a CCS] está sendo utilizada como álibi para construir usinas a carvão em vez de investir em novas usinas renováveis”, diz o engenheiro Ricardo Baitelo, do Greenpeace.

Pré-sal

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmou em agosto que a extração do petróleo na camada pré-sal precisaria ter CCS, para evitar que as emissões brasileiras de CO2 explodissem com a exploração – além do carbono contido no próprio óleo, os poços do pré-sal contêm muito CO2, que seria lançado na atmosfera durante a exploração.

Mas o marco regulatório do pré-sal, divulgado semanas depois, não tratou do assunto, apesar de incluir a área ambiental na divisão do bolo a ser criado com a renda do petróleo.

O assunto continua em aberto. “Vamos ver qual vai ser a tecnologia, se será viável. Não dá para dizer [que a CCS não dará certo no pré-sal] e aí nem discutir, simplesmente enterrar o assunto”, diz Minc.

Por um lado, a Petrobras afirmou à Folha que considera “prematuro divulgar estimativa de custos para aplicação [de CCS] no (…) pré-sal”. Por outro, ela “se compromete a reinjetar 100% do CO2” produzido na exploração.

Novas empresas vão oferecer serviços de “gestão de carbono”

A pressa que o aquecimento global impõe problemas, mas traz oportunidades de inovação. O Brasil, por causa de trabalhos como os do Centro de Pesquisas da Petrobras e os de algumas universidades, destaca-se na pesquisa verde. Agora, os cientistas estão saindo da universidade e criando empresas para fazer “gestão de CO2” – conceito que, apostam, não soará estranho no futuro.

Um exemplo é a Climate Consulting, criada há um ano, no Rio de Janeiro. Os sócios ficaram muito tempo em institutos de pesquisa, mas apostam que existe um mercado de clientes dispostos a pagar para dar um destino (que não seja a atmosfera) para o CO2.

Já há alguns anos é moda, entre as empresas, o conceito de “carbono neutro”. Isso significa dar um jeito de compensar as emissões de CO2 de, por exemplo, um evento. Em geral, árvores são plantadas. Empresas de tecnologia poderão propor soluções mais eficientes.

“Esse CO2 pode ser utilizado para aumentar a própria produtividade [do cliente]”, diz Rafael Bianchini, engenheiro ambiental que já passou por Petrobras, universidades cariocas e gaúchas e agora é sócio da Climate Consulting. Entre os projetos da empresa está um sistema de aproveitamento do CO2 gerado na fermentação do etanol para aumentar a eficiência do próprio biorreator.

A ideia é que, com o tempo, os consumidores e governos fiquem cada vez mais exigentes ao demandar produtos e companhias “livres de emissões”.

A longo prazo, a própria captura e armazenamento de carbono pode ser uma opção para “esverdear” as empresas. “O Brasil vai ser tão bom nisso quanto em exploração de águas profundas”, diz Bianchini.

EcoDebate, 30/09/2009

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