Argentina: ‘Em pouco menos de quinze anos, o consumo de glifosato se multiplicou 180 vezes’. Entrevista com Graciela Cristina Gómez

glifosato

A advogada ambientalista e escritora argentina Graciela Cristina Gomez é uma das militantes mais credenciadas quando o assunto é o uso indiscriminado de agrotóxicos, principalmente no que se refere à utilização do glifosato. Em entrevista à Adital, ela fala sobre a situação na Argentina, país onde os movimentos ambientais patrocinam uma luta árdua contra os danos causados por substâncias nocivas à saúde do ser humano e do meio ambiente como um todo. Confira.

Adital – Quando o assunto é o uso indiscriminado de agrotóxicos, Argentina é um dos países que menos acata as considerações ambientais sobre os danos causados por essas substâncias. Ante esse panorama, imaginamos que a luta dos advogados ambientalistas e dos próprios movimentos ambientais vai de encontro aos interesses de empresas poderosas, como é o caso da Monsanto. Uma luta injusta. Nós gastaríamos que a senhora falasse um pouco sobre isso.

Graciela Cristina Gomez – Efetivamente, o colega Mariano Aguilar traduz isso como “David contra Golias”: estão muito confiantes de sua força, isso é um erro. Não usaremos uma atiradeira, mas a realidade empírica, o efeito cascata de milhares de denúncias e a negociação da evidência que já não se pode esconder da sociedade, farão que caia por seu próprio peso. Pretender tapar o sol com uma mão é o que demonstram organismos como Senasa, Aapresid ou Casafe.

Importam-nos muito pouco seus interesses, os interesses políticos, legisladores, ministros que deveriam renunciar ou secretários minimizados o tema, querendo nos “incluir”, o que, na realidade, é “excluir em saúde” neste tema de geleiras ou mineradoras a céu aberto. Atuam como mercenários e muitos deles fazem parte do monopólio dos meios, a serviço da multinacional. É uma vergonha que a Comissão de saúde de Deputados desconheça o que está acontecendo, pagamos a dieta desses ineptos, deveriam renunciar, porque, sendo médicos, muitos deles são cúmplices; de outra maneira, não se entende que não atuem.

Adital – Em que nível se dá a conivência desses projetos vinculados à soja transgênica com os órgãos do governo? Há muitas denúncias sobre a cumplicidade das autoridades argentinas?

Graciela Cristina Gomez – A todo nível. Há cientistas, médicos, universidades, políticos, jornalistas e parasitas enquistados no mesmo estado, atacando-nos e pressionando de uma ou de outra forma, para nos calar, minimizando ou tratando de casos isolados os milhares de meninos com malformação, câncer, doenças respiratórias, alergias e uma inumerável lista de doenças denunciadas pelo doutores Gomez Demaio, Paramo, Lucero, Gianfelici e médicos rurais de cada província.

Inclusive o Colégio de Engenheiros Agrônomos denunciou 100 casos de nascimentos com malformação por ano em Santiago do Estero, enquanto outros colegiados, aeronavegantes, produtores e organismos que vêm afetando seu status quo, mediante “apertos” e todo tipo de mensagens subliminares ou aplicando a censura pretendem cegar a informação que brindamos, amedrontando nosso acionar. Sem conseguir, obviamente.

É indignante ver funcionários e políticos viajando para congressos, aceitando da Acsoja um “all inclusive”, assistem a suas reuniões nas Bolsas de Comércio ou Sociedades Rurais, decidem com eles a legislação para se aplicar ou para se reformar pelas costas do povo, que nunca será o beneficiário dessas transações. Vivemos os piores casos em Santa Fé, é vexatório escutar como relativizam o tema, não querem escutar e nos atacam por informar. A imprensa, em sua cumplicidade, só publica o circo dos políticos brigando entre si e idolatra a soja de forma obscena.

Adital – Informações dão conta de que na próxima temporada se semearão cerca de 18 milhões de hectares com soja transgênica. Ou seja, mais glifosato. Como estão os processos para a proibição dessa substância no país?

Graciela Cristina Gomez – Em “stand by”, soa melhor que “engavetados”. Um secretário de ambiente, que já deveria ter renunciado, opina ante o projeto que, “se algo é proibido, deve ser com uma finalidade”, lhe contestamos que essa finalidade é a saúde do povo argentino, evitar um futuro de meninos idiotas, como denuncia o Dr Gomez Dimaio, mas sua única preocupação é “que não afete economicamente o país”, segundo expressou nos meios de comunicação.

Por outro lado, a minha província se horroriza com os dados que aportamos, aos meios quando governo, deputados e médicos não deveriam, a essa altura do tema, desconhecer os percentuais de doentes de Santa Fé. Estão mais preocupados em como se dividir os lucros da soja, enquanto a província se faz água por todos os lados, ainda sem uma nova inundação. Segundo dados de Walter Pengue, para 2015 a produção poderia chegar a um crescimento de mais de 60% com relação à média das três últimas campanhas. Quanto ao consumo de fertilizantes total de 6,3 milhões de toneladas para 2015, frente aos quase três milhões atuais. Em uma loucura, em pouco menos de quinze anos, o consumo de glifosato se multiplicou 180 vezes.

Adital – Recentemente se realizou a Jornada do Observatório do Glifosato. Que avanços concretos apresentou o evento?

Graciela Cristina Gomez – Há um antes e um depois dessa jornada, a convocatória da deputada Julia Perié foi de suma importância, levar o tema ao Congresso da Nação é uma oportunidade que ninguém nos brindou antes. O debate realizado e a informação apresentada foram de tal magnitude e tão abrumadora que muitos presentes expressaram sentir calafrios de ver as imagens e dados de bebês com malformação que cada expositor, das diferentes províncias, descreviam com detalhes. Não deixaram lugar a dúvidas, apenas certezas, de que estávamos todos ali buscando uma solução urgente do governo.

A gente pede informação da jornada porque a censura se encarregou de que não se publique nos meios, só o apoio das Missões e uns poucos meios independentes informaram a apresentação de cientistas, médicos e ONGs que ocorria no congresso.

Adital – Que avaliação você faz do envolvimento da sociedade de modo geral com esse tema? Existem campanhas que tratem do assunto e de seus danos para a população? Ou apenas a população das regiões afetadas conhece a dimensão do problema?

Graciela Cristina Gomez – Não há campanhas, damos palestras em escolas rurais, em lugares onde nos pedem que vamos com ONGs e o Dr. Paramo, mas por parte das autoridades, e dos povos fumigados custa tirar uma ordem, o pseudo-campo domina todas as esferas, minha província é um feudo em pleno século XXI. Buenos Aires recentemente ecoou o tema porque estavam fumigando com glifosato as vias do trem, em plena Capital Federal e até atrás da chácara presidencial, quando se inteiraram que o “matayuyos” é Round Up, aderiram a nossa luta. Isso se repete em todo o país, as municipalidades e comunidades o usam para praças, parques e margens das rotas. Isso é cumplicidade, não é ignorância.

Adital – Em alguns poucos países, tem sido proibido à Monsanto – como principal símbolo dessa cultura nociva – plantar soja transgênica, devido às incertezas que, todavia, rondam a questão dos alimentos geneticamente modificados. Pensa os verdadeiros efeitos ambientais, humanos e financeiros que essas indústrias geram?

Graciela Cristina Gomez – Efetivamente, mas há um motivo: a cumplicidade de cada país onde se pretende penetrar, violando a legislação e o princípio precatório. O genocídio massivo do Plano Colômbia, a cumplicidade de organismos internacionais, chama-se FDA e OMS, FAO ou quem corresponda regular e advertir sobre esses venenos e os cúmplices locais SENASA, CONABIA, CASAFE, dentre outros.

Todos olham para o outro lado, saem nos meios sem pudor, dizendo que o herbicida é melhor que o sal de cozinha. Lhes convido que tomem café com glifosato e seu coadjuvante, coquetel que usam para fumigar e, em alguns meses, falamos de novo… Sabemos o que produz, mas eles não podem demonstrar o contrário, ainda com fraudes nem pagando cientistas, Golias tem os pés de barro, os dias contados, como muitos desses funcionários.

* Entrevista originalmente publicada pela Adital, Agência de Informação Frei Tito para América Latina

EcoDebate, 26/08/2009

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