Sequestro de carbono como alternativa para o aquecimento global

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O aquecimento global, que passou, há pouco, do caderno de meio ambiente para a primeira capa dos jornais, virou o centro das atenções em meios políticos e econômicos no Brasil. “A concentração dos gases do efeito estufa na atmosfera terrestre está aumentando e é devido à ação do homem”, afirma Luiz Gylvan Meira Filho, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Para o pesquisador, o sequestro de carbono sozinho não vai resolver o problema, mas é impossível estabilizar as taxas de dióxido de carbono (CO2) sem usar o procedimento entre as várias medidas que deverão ser adotadas. “Essa é uma área fértil de pesquisa”, defende.

A concentração de CO2 na atmosfera, que era em torno de 280 partes por milhão (ppm), passou para 380 ppm após a revolução industrial (segunda metade do século XVIII). A inclinação da curva de projeção da concentração de dióxido de carbono na atmosfera ao longo do tempo diminui com as propostas apresentadas por acordos internacionais. “Mas isso não é suficiente”, enfatiza Gylvan.

Dentre as tecnologias utilizadas para retirar carbono da atmosfera, “a que se sabe fazer melhor no país é o plantio de árvores”, diz Gylvan. O Brasil se destaca no plantio de florestas comerciais, mas na prática de reflorestamento ainda há dificuldades. “Não é uma coisa simples coletar sementes, fazer mudas e etc. São poucos os lugares no Brasil que fazem isso”, comenta. A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) são apontados como instituições com experiência na técnica.

O plantio de árvores – que move o carbono da atmosfera (na forma de dióxido de carbono) para a biosfera (na forma de compostos orgânicos) – está previsto no Protocolo de Kyoto, mas não garante que o carbono estocado na floresta ficará lá para sempre. Uma tentativa em curso de mudar essa regra, segundo Luiz Gylvan, é aumentar o valor do crédito de carbono para esse tipo de projeto e transformar a área do projeto em reservas protegidas ou comerciais, o que determinaria uma maior ou menor permanência, respectivamente.

Outro procedimento com bastante potencial de desenvolvimento, segundo o pesquisador, é a fertilização oceânica com o ferro para estimular o crescimento de algas e fitoplâncton. Em regiões no mar onde as concentrações de sais de ferro são mais elevadas, a produtividade de algas é maior e, consequentemente, a captura de carbono da atmosfera também. O sucesso da técnica, que consiste em fornecer nutrientes para o oceano, depende do destino do carbono absorvido pelas algas. “Já foram feitos vários experimentos e a produtividade oceânica realmente cresce. Mas faltam verificar se o carbono afunda – o que é essencial”, pondera Gylvan. Caso o carbono decante no fundo do mar, mesmo na forma de dióxido de carbono, será possível retê-lo ali por séculos; na forma de carbonato o resultado seria até melhor, ou seja, o tempo de captura sobe para a casa dos milhões de anos.

Custo
O preço da captura de carbono ainda é quase o dobro do valor pago na compra de créditos de carbono, com custo em torno de R$140 por tonelada. “As emissões de carbono não são feitas por luxo ou capricho; elas são necessárias. Então não adianta encontrar alternativas com custos altos”, afirma Gylvan. De acordo com o pesquisador da USP, o custo de um procedimento, no entanto, depende das melhorias das tecnologias utilizadas e da escala de utilização. Um exemplo é o caso do etanol que, com a injeção de investimentos privados, teve seu custo consideravelmente abaixado.

Gylvan considera normal o alto custo das técnicas de sequestro de carbono, já que as tecnologias desenvolvidas na universidade ainda são novas. “Precisa de apoio do governo; alguém precisa pagar por isso”. Ele aponta os esforços conjuntos entre agências de fomento e empresas privadas como uma alternativa de financiamento para essa linha de pesquisa. “Os estudos sobre o processo de sequestro de carbono cabem aos cientistas. No entanto, as ações tomadas em relação a isso são da esfera política”, enfatiza.

Reportagem de Ana Paula Morales, Manaus, da ComCiência, Revista Brasileira de Jornalismo Científico, LABJOR/SBPC, publicada pelo EcoDebate, 20/07/2009

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