Caos ou transição para uma nova ordem, artigo de Márcia Pimenta

crise ambiental
Imagem: IHU

[EcoDebate] Quantas vezes em uma situação caótica, onde tudo parece ter saído do seu lugar, percebemos que é preciso uma mudança de atitude, uma nova rota para alcançar uma antiga meta. É então que o caos se estabelece como um período de transição para uma nova ordem.

Se visto sob a perspectiva otimista, uma doença pode ser ouro em pó já que traz para o nível consciente um comportamento que pode estar trazendo dano para o organismo. Neste sentido, a crise ambiental que afeta o planeta sugere que as escolhas feitas até aqui culminaram na situação que ora enfrentamos e para reverter o resultado é preciso repensar nossas escolhas.

Vivemos em um sistema capitalista que, verdade seja dita, expandiu a possibilidade de crescimento material para a humanidade, mas trouxe em seu bojo, além da busca pelo progresso, uma busca incessante por lucro o que, na maioria das vezes, se traduz como acumulação, injustiça social e degradação ambiental, o que é uma contradição em relação à meta inicial. A mão-de-obra é subestimada, devido à mecanização trabalhadores vêm sendo excluídos do processo produtivo, numa ponta, e como consumidores, na outra e no que tange os recursos naturais a exploração acontece como se estes fossem infinitos e gratuitos.

Para haver produção é preciso: capital humano, capital financeiro, capital manufaturado (máquinas, infraestrutura) e capital natural. Utilizamos as três primeiras formas de capital para transformar o capital natural em bens de consumo. Aqui começa a insensatez, pois embora sejam imprescindíveis para a produção, os recursos naturais são avaliados pelo custo da extração e não pelo custo de reposição. Quanto custaria repor, por exemplo, 3.5 milhões de florestas tropicais brasileiras perdidas anualmente, no período de 2000 a 2005 (WWF), devido a incêndios e exploração madeireira ilegal e que são responsáveis por serviços como a purificação hídrica e regulação climática?

Além de não contabilizar o custo de reposição estimula-se o consumo em um planeta lotado (a população mundial atual totaliza 6,5 bilhões de pessoas) onde os recursos já são consumidos numa velocidade 30% maior do que a sua capacidade de reposição. 20% da população consome 80% de todos os recursos disponíveis inviabilizando a satisfação de necessidades básicas de grande parte da humanidade. A situação é tão grave que se persistirmos em nossos hábitos de consumo em meados de 2030, segundo o Relatório Planeta Vivo 2008, publicado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês) – serão necessários 2 planetas para satisfazer nosso estilo de vida.

A estratégia do mercado para estimular o consumismo se faz de diferentes formas, desde um apelo psicológico, incutindo a ideia de que ter é mais importante do que ser até a produção de bens descartáveis ou que tem seu ciclo de vida reduzido propositalmente, isto é, são produzidos para serem descartados e então produzidos novamente, o que nada soma à qualidade de vida das pessoas. Para piorar, o capitalismo liquida seu capital natural e chama a isso renda, pois o PIB – Produto Interno Bruto – não contabiliza a perda dos serviços ambientais degradados no processo de extração de recursos para abastecer o mercado e que são imprescindíveis para a sobrevivência da humanidade .

Parece óbvio ululante que esse sistema não tem futuro já que é impossível crescer indefinidamente sobre uma base finita que é o planeta Terra. Já exploramos tanto o planeta que hoje o progresso contínuo se vê ameaçado não pela falta de barcos de pesca, por exemplo, mas pela falta de peixes, há falta de água não por falta de bombas mais potentes, mas pela exaustão dos aquíferos. Ainda assim, com toda a degradação promovida em busca de um crescimento que seria repartido com todos, são muitos os que não têm o básico para tornar digna sua existência, como os cerca de 3 bilhões de pessoas, quase metade da população planetária, que vive com menos de 2 dólares por dia.

O capitalismo, como todo processo, tem começo, meio e fim, e evolui, como tudo o que vive.. A crise do modo de produção capitalista é uma realidade, pois será impossível perpetuar esse modelo em um planeta onde cresce a população, degradam-se os ecossistemas e impossibilita-se a absorção dos resíduos pela biosfera. O processo evolutivo virá da pressão dos consumidores conscientes do valor dos ecossistemas sadios, não só para a realização de seus projetos, mas também os das gerações futuras.

Uma sociedade conhecedora dos perigos e potencialidades no uso dos recursos naturais, estará preparada para construir uma nova sociedade planetária obrigando o atual sistema a evoluir. Nada mais eficiente do que usar o poder de consumidor revendo hábitos de consumo e questionar: Preciso mesmo disso para ser feliz?

Márcia Pimenta, jornalista com especialização em Gestão Ambiental, é colaboradora e articulista do EcoDebate.

[EcoDebate, 25/06/2009]

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Um comentário em “Caos ou transição para uma nova ordem, artigo de Márcia Pimenta

  1. Parabens Marcia Pimenta
    É “apimentado”seu comentario, mas de uma realidade impar.
    No final da decada de 70, quando de minha formação em analise de valores, ao difundir a metodologia , sempre fiz um comentario a parte: É um instrumento de produtividade e competitividade, porem, de produtividade porque estaremos cada vez mais imprimindo velocidade na confecção de bens de consumo e consequentemente, agredindo mais a natureza; por outro lado, não são e não serão marcianos, lunaticos, etc., com quem competiremos, e sim, com os seres humanos, nossos proprios semelhantes. É a tecnologia assumindo o papel de bomba atomica. É a guerra comercial ha muito, instalada.Como dissestes, “é o capiltalimo nos fins de seus dias”.

Comentários encerrados.

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