O desconforto da vida nas ilhas de calor das metrópoles

ilha de calor
Perfil de uma ilha de calor – 1=Área residencial suburbana, 2=Parque; 3=Área urbana residencial; 4=Centro; 5=Comercial; 6=Área suburbana residencial; 7=Rural. Fonte:EPA-US/Mod. E.Zimbres

Poluição faz as estufas urbanas ficarem cada vez mais quentes e secas. Periferias de cidades são vulneráveis

Cientistas estão convencidos que as mudanças associadas ao aquecimento global só fazem agravar as ilhas de calor, isto é, as áreas mais urbanizadas e quentes das metrópoles.

A geógrafa Magda Lombardo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a situação tem variado segundo condições atmosféricas e de relevo de cada região. Matéria de Soraya Aggege, no O Globo, 19/04/2009.

— As cidades brasileiras estão ficando mais doentes, principalmente nas periferias. As mudanças climáticas globais estão piorando o desconforto térmico nas ilhas de calor. Depois das 15h, é comum as pessoas se sentirem indispostas e isso tem a ver com o clima local — afirma Magda.

As ilhas registram ainda redução da umidade relativa do ar, uma maior concentração de chuvas e mudanças nos ventos.

— Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, têm metabolismos diferentes. Em São Paulo é pior, pois não há a brisa que o Rio recebe do mar. Mas não é simples assim. O relevo do Rio cria panelas de pressão, agravadas por poluição e desmatamento. Um inferno climático fica escondido atrás do Cristo Redentor — diz Magda.

No Rio, o inferno climático se situa na região atrás do Cristo, onde as temperaturas são até 7 graus Celsius superiores às medidas na Avenida Atlântica. Em São Paulo, a temperatura chega a variar 12 graus Celsius de um bairro para outro.

Em um mesmo momento, o paulistano encontra 20 graus Celsius na Serra da Cantareira e 32 graus Celsius na Rua 25 de Março, no Centro, segundo as medições locais da pesquisadora.

E as ilhas de calor estão por toda a cidade. No entanto, nas regiões nobres, com uma maior arborização, as temperaturas são mais amenas. Ainda assim, a variação dentro de bairros como o Morumbi chega a 3 graus Celsius, entre favelas e mansões.

Uma das pesquisas de Magda Lombardo, que comparou as cidades de São Paulo e Nova York entre os anos de 1900 e 2000, constatou que a temperatura média da capital paulista cresceu o dobro, principalmente nos últimos 30 anos: 1,6 grau a mais em São Paulo e 0,8 a mais em Nova York. As diferenças de temperatura em Nova York são de 6 graus, metade das paulistanas, que chegam a 12 graus Celsius.

Desertos artificiais que alimentam o aquecimento No Rio, onde as análises foram feitas a partir de dados coletados por satélites, as variações das áreas comerciais e residenciais são menores do que nas regiões industriais. A variação de temperatura entre a Avenida Atlântica e a Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, por exemplo, é de 3 graus.

Mesmo nas cidades consideradas modelos, como Curitiba, a situação se agrava nas periferias: — É como se tivéssemos as cidades formais e as informais para o clima. As ilhas de calor muitas vezes ficam sob o tapete, escondidas nas periferias de cimento. São desertos artificiais onde os efeitos para a saúde são mais severos. As pessoas vivem em casas menos confortáveis, mais sujeitas a enchentes e deslizamentos — afirma Magda.

Na avaliação da pesquisadora, os efeitos das ilhas de calor têm sido ampliados pelas mudanças climáticas globais. Por sua vez, essas ilhas também influenciam o clima global: — As ilhas de calor contribuem para o aquecimento global — diz.

O professor de Ciências Atmosféricas do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da USP Augusto Pereira Filho também acredita que o microclima de São Paulo tem sido agravado por mudanças climáticas globais.

— Desde a década de 70, São Paulo fica a cada ano mais quente e com menor umidade relativa do ar. Acontece um número maior de tempestades e as garoas não ocorrem mais em grande parte da cidade Aumento de tempestades e descargas elétricas Pereira Filho considera que a relação dos efeitos é clara: as mudanças globais afetam os microclimas, mas os microclimas também aumentam as mudanças globais: — As mudanças climáticas começam pelas cidades e se propagam pelo planeta.

Com dois graus Celsius a mais na temperatura média, São Paulo sofreu um aumento de 60% na quantidade de tempestades e de descargas elétricas nos últimos 50 anos, revelam as pesquisas do especialista Osmar Pinto Junior, do Inpe.

Para o cientista, como a metrópole já é uma ilha de calor principalmente por causa dos efeitos urbanos, ela é o melhor laboratório para se investigar os efeitos do aquecimento global.

A cidade tem dados de raios de 50 anos, enquanto no resto do país os registros começaram há cerca de 10 anos. O aumento das descargas elétricas é uma evidência importante do aquecimento global.

— O caso de São Paulo é uma forte indicação de que com o aquecimento, teremos mais raios. Na região amazônica os efeitos poderão ser ainda piores. Hoje há muitos incêndios na floresta, mas por causa da umidade, eles não são graves. Fazem parte de um equilíbrio que renova a floresta. Mas como o clima poderá ficar mais seco, como já ocorre na Austrália, começaria um ciclo vicioso pior, com mais raios e incêndios.

Por enquanto, os indícios do Inpe são de que a quantidade de tempestades tem aumentado no Brasil todo, e com elas as descargas elétricas. Os prejuízos com raios chegam a R$ 1 bilhão por ano.

Para o pesquisador José Marengo, do CPTEC/Inpe, os aumentos nos extremos de chuvas e secas nas regiões Sul e Sudeste do país estão evidentes.

Os veranicos também estão aumentando muito no Nordeste: — Os veranicos de cinco dias têm ocupado toda uma estação. As chuvas comuns em um mês, duram apenas dois dias. Algumas áreas de semiárido se transformam em áridas. E o pior é que processos como estes se acentuarão no futuro — afirma Marengo.

[EcoDebate, 22/04/2009]

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