Pernambuco: Alface tem elevado grau de contaminação por parasitas


O estudante de biologia Rafael Mendes, que desenvolveu o estudo para concluir a graduação na área, leva as amostras de alface para o Laboratório de Esquistossomose da Fiocruz Pernambuco

Folhagem usada freqüentemente no preparo de saladas e uma das hortaliças mais consumidas no Nordeste, a alface (Lactuca sativa) tem chegado às casas dos recifenses com elevado índice de contaminação por parasitas. Uma pesquisa feita na Fiocruz Pernambuco identificou a presença de parasitos em 96,6% das amostras coletadas em supermercados e feiras livres da cidade. A principal espécie parasita encontrada foi o Strongyloides spp., que se reproduz dentro do homem e pode até matar. Por Fabíola Talvares, da Agência Fiocruz de Notícias.

No estudo, foram utilizados “pés” de alface cultivados em três diferentes sistemas: o tradicional (plantio feito na terra, com uso de material orgânico e de agrotóxico), o orgânico (a planta cresce sem resíduos tóxicos) e o hidropônico (plantio sem uso de solo, no qual nutrientes necessários à planta são adicionados à água). Os dados revelam as péssimas condições higiênico-sanitárias do plantio das alfaces comercializadas no Recife.

Foram analisadas 66 alfaces “crespas”. Das 18 amostras coletadas em supermercados (6 convencionais, 6 hidropônicas e 6 orgânicas), 88,8% estavam contaminadas. Nas feiras livres (24 orgânicas e 24 convencionais) todas tinham parasitas. O Strongyloides spp. foi encontrado em 100% de todas as hortaliças e quatro (66,6%) das seis alfaces hidropônicas mostraram-se positivas para esse verme. Nas feiras não foram coletadas alfaces hidropônicas porque esse é um método de cultivo caro para os pequenos produtores.

A escolha dos estabelecimentos e das feiras se deu por sorteio, respeitando-se o critério de estarem ambos localizados num único bairro de cada uma das seis regiões político-administrativas do Recife (RPA). O supermercado precisava oferecer alface cultivada nos três sistemas. Todas as coletas se deram no período da manhã, em maio e junho de 2007. Nos supermercados as amostras foram recolhidas pelo estudante de biologia Rafael Mendes, que desenvolveu o estudo para concluir a graduação na área. Usando luvas, ele selecionava na prateleira, de forma aleatória, os “pés” de alface referentes aos três cultivos. As amostras eram acondicionadas de forma individual em sacos de primeiro uso. Nas feiras livres, os próprios feirantes ensacaram as hortaliças individualmente.

Devidamente identificadas, as amostras foram colocadas em caixas de isopor. No Laboratório de Esquistossomose da Fiocruz Pernambuco, as folhas de cada amostra foram lavadas individualmente – desprezando-se as folhas queimadas, deterioradas e o talo – em água destilada e deixadas em repouso. Do líquido obtido na lavagem foram retirados sedimentos para exame no microscópio.

Pesquisa também detectou presença de outros vermes

Outros organismos identificados na alface foram ovos de Ancylostoma spp. (8,3%) em cultivos tradicionais e orgânicos, e cistos de Entamoeba spp. (2,1%) nas hortaliças convencionais de feiras livres. Quando analisada a presença de um ou mais deles, constatou-se que, das hortaliças de supermercados 72,2% e 16,6% apresentavam mono e múltipla contaminação, respectivamente. Já nas feiras livres esses números ficaram em 79,1% e 20,9%.

De acordo com o pesquisador do Departamento de Parasitologia da Fiocruz Pernambuco Abraham Rocha, os vermes presentes na hortaliça comprometem a saúde. O Ancylostoma spp., por se alimentar de sangue, pode causar anemia, doença popularmente conhecida como amarelão ou doença de Jeca Tatu. A Entamoeba spp., num estágio avançado, provoca lesões que comprometem o funcionamento do fígado. Porém, é o Strongyloides spp. que pode causar enfermidade crônica. “Ele se reproduz dentro do ser humano, podendo formar uma superpopulação no intestino e nos pulmões, e depois se disseminar para outros órgãos, como o coração e o cérebro”, afirma Rocha. A disseminação com elevado grau de mortalidade pode ocorrer em pessoas com o sistema imunológico comprometido, como usuários de drogas, transplantados, diabéticos, alcoólatras, pacientes com câncer e positivos para HIV.

Além desses parasitos, também foram observados ácaros em seis alfaces. Quatro (três convencionais e uma hidropônica) eram provenientes dos supermercados e duas (uma orgânica e uma convencional) das feiras livres. Para o pesquisador, os resultados da pesquisa indicam a contaminação da hortaliça por fezes de origem humana ou animal, decorrente do manejo impróprio durante o cultivo e/ou da água utilizada para a irrigação. A hipótese de contaminação da água é reforçada pelo fato da hidroponia utilizar nutrientes dissolvidos em água, não sendo as hortaliças plantadas em terra, que é comprovadamente um veículo de vários parasitos.

“É preciso fortalecer o sistema de vigilância sanitária, de modo que haja uma maior fiscalização nos setores comercial e de consumo. Isso resultará na melhoria da qualidade higiênica dos produtos”, conclui Abraham Rocha. A Comissão Nacional de Normas e Padrões para Alimentos estabelece, em sua resolução nº 12 de 1978, a ausência de sujidades, parasitos e larvas nas hortaliças comercializadas em todo o território nacional. A pesquisa, orientada por Abraham Rocha e co-orientada por Constança Simões Barbosa, chefe do Laboratório de Esquistossomose, foi publicada, na forma de artigo, na edição de maio-agosto da Revista de Patologia Tropical.

Lavagem da alface

Para limpar a alface, deve-se lavar as folhas uma por uma em água corrente e, em seguida, deixá-las de molho em solução de água sanitária (uma colher de sopa de água sanitária para um litro de água filtrada) por 30 minutos. Depois as folhas devem ser enxaguadas com água filtrada.

Quando as folhas estiverem secas, a alface deve ser guardada em saco plástico ou em vasilha plástica fechada e levada ao refrigerador. A água sanitária ou vinagre não retiram os resíduos de agrotóxicos ou de pesticidas, mas eliminam microorganismos que podem estar nas folhas e causar doenças.

[EcoDebate, 12/09/2008]

Top