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Piauiense é mão-de-obra da escravidão moderna no Sudeste

O Piauí e o Maranhão são os estados brasileiros que mais exportam mão-de-obra escrava para as plantações de cana-de-açúcar na região Sudeste do País. Uma pesquisa realizada por professores das Universidades Federais do Piauí, Rio de Janeiro, Maranhão e de São Carlos (SP) relata a realidade de como vivem estes trabalhadores migrantes que todos os anos deixam seus estados em busca de sobrevivência. Por Daiane Rufino, Editora de Política, do Diário do Povo, PI, 09/06/2008.

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj), José Roberto Novaes, disse que a sina destes trabalhadores começa com o enfrentamento de uma temperatura de 5 graus, que faz em média no início da safra. Nos primeiros meses do ano, os trabalhadores saem em ônibus dos municípios piauienses em direção aos canaviais no estado de São Paulo, deixam mulheres e filhos, o relato de um eminente problema social que atinge o estado há décadas.

Os resultados da pesquisa, um livro e um documentário, foram apresentados no 6º Salão do Livro do Piauí (Salipi), que aconteceu na última semana. No evento, o professor Roberto Novaes, a professora da Ufpi, Dione Moraes e o repentista Pedro Brito apresentaram a pesquisa e o documentário.

Este estudo mostra uma realidade dura a que estão sujeitos nordestinos e especialmente piauienses e maranhenses que não têm oportunidade de estudo e sacrificam suas vidas no trabalho, chamado pelos pesquisadores de “escravidão moderna”. “A escravidão existe no Brasil de forma disfarçada”, resume Diones.

Trecho do repente, criado por Pedro Costa, com base nos dados da pesquisa diz que “Nossa civilização ainda é escravocrata/ só vale neste Brasil/ quem tem grana, ouro ou prata/ os ricos os ladrões seqüestram/ os pobres o sistema mata. Com a globalização/ o mundo rápido avançou/ trocam homem por máquina/ o emprego se acabou/ a escravidão no Brasil/ apenas modernizou”.

Quando saem do Piauí, com a promessa de ganhar muito dinheiro em São Paulo, os trabalhadores se endividam já com a passagem de ida. Quando chegam lá são obrigados a trabalharem para pagar aluguel e comida. Segundo descreve os pesquisadores no livro, o ambiente a que os nordestinos são submetidos a viver não oferecem condições mínimas de qualidade de vida. “Mais de 40 pessoas vivem em um único espaço e são obrigados a usar um único banheiro”, conta Diones.

Como o salário é pago com base na produção individual de cada cortador, os trabalhadores se esforçam até a exaustão para aumentar a renda. “A vida útil de um cortador de cana é menor do que a vida de um escravo. Cada um tem que cortar mínimo de 10 toneladas de cana por dia”, informou professor José Roberto Novaes.

O perfil destes trabalhadores são jovens na faixa etária de 18 a 26 anos, que estão no auge da força física. Para Roberto Novaes trabalhar no corte de cana significa “colocar o pé na cova todos os dias”.

“Nossos filhos andam pelo mundo”

A pesquisa relata ainda a situação em que ficam as famílias dos jovens que seguem para a vida no corte de cana. Segundo os professores, nenhum dos entrevistados disseram que migram porque querem, mas sim porque são obrigados. Um dos artigos do livro intitulado “Andando pelo mundo”, relata a dor e o sofrimento dos pais, esposas e filhos dos homens cortadores de cana. “Ouvimos muito os país falarem: nossos filhos andam pelo mundo”, conta a professora Diones.

As famílias, em geral não têm a propriedade da terra e as condições de vida se agravam na seca quando não se tem como plantar sequer para o consumo próprio.

Entre os entrevistados, os professores encontraram famílias de migrantes há três gerações. O filho seguia os mesmos caminhos do pai e do avô. A conclusão a que os pesquisadores chegaram é que quase nada mudou na realidade pobre destes piauienses durante os últimos 70 anos. “Eles não têm como sobreviver no Piauí”, disse José Roberto Novaes.

A pesquisa procurou ouvir os prefeitos das cidades onde há grande número de migrantes e as respostas mostraram que os gestores não têm consciência sobre o grave problema social e que não estão preocupados em resolvê-los. “Prefeitos chegaram a dizer que era preciso agradecer a São Paulo”, relembra Diones.

Os próximos passos desta pesquisa será o mapeamento em números sobre esta migração. Atualmente nem mesmo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tem dados sobre o problema, porque não considera este deslocamento de trabalhadores rurais como migração.

A PESQUISA – A pesquisa foi iniciada ainda no ano de 2005, o livro foi publicado em 2007 e a partir de outubro do ano passado vem sendo lançado em diversos eventos. “O livro contém artigos dos quatro pesquisadores e um vídeo, que tem uma linguagem apropriada para o público em geral, inclusive para os próprios trabalhadores envolvidos nesta situação”, explica Dione Moraes.

Inicialmente, os professores do Rio de Janeiro e de São Paulo começaram a pesquisa sobre as condições de vida dos trabalhadores rurais no corte de cana. Depois, a articulação com pesquisadores do Piauí e do Maranhão, possibilitou a investigação sobre os motivos que levavam estes jovens homens a deixarem seus estados. “Eles já tinham trabalho com trabalhadores canavieiros lá no destino e nos reunimos para fazer pesquisa que englobasse os trabalhadores no destino e na origem”, conta a professora.

No Piauí, a pesquisa foi feita na micro-região de Valença, nos municípios de Elesbão Veloso, Barra D´Alcântara, Francinópolis e Várzea Grande. Os professores fizeram 40 entrevistas com jovens cortadores de cana e com suas famílias.

Os pesquisadores lembram que nem toda migração é ruim, mas que o assunto retratado pela pesquisa mostra o problema desta migração específica. “Nem toda migração é ruim, mas estamos falando dos problemas. Que bom seria se estes jovens pudessem migrar sem ser por necessidade”, comentou o professor José Roberto Novaes.

Contribuíram para a pesquisa a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pastoral dos Migrantes, Delegacia Regional do Trabalho e Federação dos Trabalhadores em Agricultura (Fetag).