Amazônia real atropela idéias de Mangabeira

Ele planejava um aqueduto a partir do Norte para abastecer o Nordeste e descobriu que só em Manaus há 700 mil pessoas sem água encanada. Por Gabriel Manzano Filho, do O Estado de S. Paulo, 18/01/2008

O secretário de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, ouviu ontem, numa mesa-redonda com especialistas, em Manaus, que pouco adianta ter idéias criativas e ousadas – como a de um aqueduto para levar água ao Nordeste -, se problemas básicos da região ainda não foram resolvidos. O governador Eduardo Braga (PMDB), por exemplo, pediu-lhe “pelo amor de Deus” que ajude a decidir uma polêmica que se arrasta há cinco anos, em Brasília, para fazer funcionar o Centro de Biotecnologia da Amazônia.

“Ao chegar a Brasília, pelo amor de Deus, ajude a acabar com essa pendência que já dura mais de cinco anos e deixa o CBA paralisado por falta de uma cara jurídica”, disse o governador. Criado no governo Fernando Henrique, o CBA é disputado pelos Ministérios de Indústria e Comércio e de Ciência e Tecnologia.

Sobre a construção de um aqueduto para o Nordeste, o secretário surpreendeu-se ao saber que só em Manaus há 700 mil pessoas sem água encanada. “É um paradoxo faltar água para os habitantes da Amazônia, com toda a abundância dos rios. Primeiro precisamos providenciar que os habitantes da região possam usar essa água”, admitiu o ministro.

Diante do ceticismo de alguns presentes – entre eles o senador Jefferson Péres (PDT-AM) -, o ministro tentou vender confiança. “O que queremos é um contato mais estreito. Vamos nos reunir de novo, muitas vezes. E quanto às sugestões, é melhor ser ousado do que ficar na mesmice”, afirmou o secretário – que antes de integrar o governo Lula o classificou de “o mais corrupto da história”.

Mangabeira mais ouviu do que falou. Uma das queixas dos amazonenses foi de que o governo federal entra com apenas 5% das verbas para ciência e tecnologia. “E há também um pedido para que, em vez de investir na BR-319, para ligar Manaus a Porto Velho, se construa uma ferrovia”, disse o secretário estadual de Meio Ambiente, Virgílio Viana. “Aquela área toda é de várzeas e a manutenção de uma estrada seria caríssima. A ferrovia faz mais sentido.”

‘INVIÁVEL’

A idéia de construir um aqueduto para levar água do Amazonas ao Nordeste foi duramente criticada por especialistas. Segundo o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Apolo Heringer Lisboa, que estuda a transposição do Rio São Francisco há oito anos, a proposta “é ambientalmente absurda, economicamente inviável e tecnicamente impossível”.

Lisboa afirmou ainda que não há “a mínima necessidade” de tal providência. “O semi-árido já tem água, o que falta é melhorar a distribuição”, explica. Até o momento, não há coordenação entre o Projeto Amazônia e o Ministério do Meio Ambiente. Luciano Zica, secretário de Recursos Hídricos do ministério, disse ter tomado conhecimento das propostas pela imprensa. “Nós não fomos ouvidos. Agora precisamos analisar o caso.”

FRASE
Mangabeira Unger, Secretário de Assuntos Estratégicos: “É um paradoxo faltar água para os habitantes da Amazônia, com toda a abundância dos rios. Primeiro precisamos providenciar que os habitantes da região possam usar essa água”

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