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Pesquisadora defende articulação entre ciência e conhecimentos tradicionais indígenas

A médica e antropóloga Luiza Garnelo defendeu ontem (13) a articulação entre a ciência e os saberes tradicionais, principalmente os relativos às práticas usadas para cuidados e cura de doenças entre índios da etnia Baniwa, que vivem no norte do Amazonas. Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Luiza disse que essa articulação poderá contribuir para avanços no sistema de saúde, de um modo geral. Ela fez palestra durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus.

“É possível fazer essa articulação e produzir múltiplas formas de conhecimento”, afirmou Luiza. Para ela, a melhor forma seria a interlocução com os índios para que eles determinem os termos em que querem fazer essa participação.”A decisão tem que ser deles também, considerando que são detentores de conhecimentos relacionados sobretudo ao uso de plantas e técnicas próprias da organização do conhecimento desses povos.”

Desde 1996, a pesquisadora estuda os costumes e o modo de vida dos Baniwa, que vivem na região do Alto Rio Negro, no Amazonas. Segundo Luiza, quase 100 comunidades Baniwa residem nessa área, no norte do estado, onde também se localiza São Gabriel da Cacheira, município que tem de 95% de indígenas em sua população. Para a pesquisadora, o que chama a atenção nas práticas de cuidado e cura de doenças entre os Baniwa é o respeito à vida: considerar o contexto de cada paciente é fundamental para o tratamento das enfermidades.

“As pessoas dessa etnia têm de fato a consciência clara de que eles matam animais para sobreviver e que isso exige um cuidado para evitar a depredação. Eles sabem que têm um preço a pagar como sociedade. Além disso, o itinerário terapêutico depende muito das conjunturas de cada sujeito, seja numa sociedade indígena, ou não”, ressaltou a pesquisadora.

Luiza Garnelo considera um desafio promissor para a ciência contemporânea estudar e conhecer mais sobre a Amazônia. “Como parte da sociedade que está na Amazônia e vive da Amazônia, temos que refletir mais sobre nosso papel nesse contexto. Isso é promissor. A sociedade amazônica, na minha opinião, precisa refletir mais do que tem feito e descobrir como valorar esses conhecimentos tradicionais e como lidar com isso de forma respeitável e harmônica”, afirmou.

De acordo com a pesquisadora, a insuficiência de reflexões sobre as prioridades da sociedade contemporânea tem contribuído para uma certa inversão de valores entre a ciência e a economia. Em entrevista à Agência Brasil, Luiza disse que a atual dimensão econômica da ciência está relacionada à busca de lucros e, por isso, existem dificuldades no diálogo com as pessoas.

Ela observou que, atualmente, quem manda na ciência não são as instituições que produzem o saber, e sim as indústrias que financiam e definem que tipo de remédio deve ser produzido. “Isso mostra a inversão de um processo que antigamente estava fundamentado na produção de conhecimento e depois no uso das respectivas patentes. Hoje, tem-se a patente antes de o conhecimento existir e antes de se saber sequer qual a sua utilidade real.” Na indústria de medicamentos, com a garantia do direito a patentes, descobre-se depois a qual a finalidade o remédio atende melhor e, obviamente, o que é mais rentável, acrescentou.

“A nossa condição de vida está ameaçada. Temos que pensar se o nosso bem-estar imediato vale mais que a nossa vida em escala planetária”, acrescentou a pesquisadora.

Edição: Nádia Franco

Reportagem de Amanda Mota, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 14/07/2009

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