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mudanças climáticas: Geografia da biomassa será redesenhada pelo novo clima

As mudanças climáticas previstas para este século, especificamente dentro das fronteiras do Brasil, vão redefinir a geografia da produção da biomassa. Este processo, portanto, terá um impacto significativo sobre a produção dos biocombustíveis, uma das grandes bandeiras do governo federal. Por Eduardo Geraque, da Folha de S.Paulo, na Folha Online, 02/06/2008 – 09h40.

“O mercado da produção de cana-de-açúcar [incluído também o que vai para os alimentos] deverá movimentar, em 2020, R$ 47,5 bilhões por ano”, afirma Hilton Pinto, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), à Folha. Isso significa, em relação aos números da produção de cana de 2007, um aumento de 95,5%.

O prejuízo, entretanto, deverá ser debitado diretamente na conta dos produtores de soja, o principal grão usado para a produção de biodiesel. “Aqui, pode haver uma perda, no mercado nacional, de até R$ 6 bilhões”. Em comparação com o mercado de 2007 deste grão, seria uma redução de 19,5%.

O cientista de Campinas é um dos autores de um estudo ainda inédito sobre o impacto das mudanças do clima sobre a agricultura. “Infelizmente, pelo resultado que nós temos, dá para perceber que o Nordeste do Brasil será a área mais afetada [pelo clima]”, afirma Pinto.

Segundo ele, os cálculos do mercado da cana e da soja para 2020 também vão constar desse novo trabalho. “Nós fizemos uma análise minuciosa para todos os 5.172 municípios brasileiros”, diz o agrônomo. Ao todo, dez culturas ainda estão sendo analisadas.

Enquanto a produção de cana ficará prejudicada em Estados como Pará, Piauí e Tocantins (em todos existem planos para a ampliação desta cultura), a soja deverá perder terreno, além do Nordeste (no oeste da Bahia já existem algumas plantações), também no Centro-Oeste, diz o estudo. “Mas, em compensação, ela deve ganhar mais áreas nos Estados da região Sul do país”, diz Pinto.

Mamona em falta

O drama nordestino, em termos de produção de biomassa, deve provocar outra conseqüência. Deve ser o fim de um dos programas sociais do governo federal na área da energia. Com um aumento de até 3C nos termômetros da região, segundo Pinto, a produção da mamona –feita pelo pequeno produtor com incentivos públicos– vai ficar totalmente inviável.

Apesar de as condições climáticas ficarem favoráveis para a cana-de-açúcar em quase todo o país, segundo tanto os dados paulistas quanto os da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que também fez as suas próprias estimativas, o problema disso, no caso específico do semi-árido, é aumentar a pressão sobre a biodiversidade da região.

Várias espécies que vivem no bioma caatinga, por exemplo, correm o risco de extinção. É exatamente sobre essa região brasileira, entre outras, que os estudos que projetam o crescimento de áreas de cana-de-açúcar mostram que essa cultura será muito bem-vinda. “É uma cultura que adora bastante o calor e o carbono”, diz o pesquisador da Unicamp.