Neste ano, o El Niño deve ser terrível

O El Niño de 2026 chega quando já estão ocorrendo secas generalizadas, cadeias de suprimento fragilizadas e recordes sucessivos de aquecimento dos oceanos
Vivaldo José Breternitz (*)
Como se não bastassem a escassez de petróleo, as guerras intermináveis e a insegurança gerada pelo crescimento da inteligência artificial, há um novo fator de tensão no horizonte: o El Niño, que deverá ser um dos mais severos em mais de um século.
O próximo El Niño, fenômeno caracterizado por temperaturas anormalmente elevadas nos oceanos e que ocorre a cada 2 a 7 anos, com duração média de 12 a 18 meses, pode, de acordo com diversos modelos climáticos, se tornar o mais intenso da era moderna
Segundo o Wall Street Journal, o aquecimento pode elevar a temperatura das águas em até 3°C, provocando secas devastadoras em algumas regiões, enchentes em outras e, talvez o mais assustador, um colapso nas cadeias globais de abastecimento de alimentos.
Para encontrar algo semelhante ao que se acredita deve ocorrer neste ano, cientistas voltaram a 1877, quando um El Niño implacável desencadeou uma catástrofe sem precedentes. A seca prolongada culminou em uma fome global que matou ao menos 50 milhões de pessoas; algumas estimativas falam em até 60 milhões, cerca de 3% da população mundial da época. Pesquisadores classificaram o episódio como o pior desastre ambiental já enfrentado pela humanidade e uma das maiores calamidades dos últimos 150 anos, comparável às Guerras Mundiais e à epidemia de gripe de 1918/19.
Especialistas veem eventos como o de 1877 como verdadeiros testes de estresse para a civilização, revelando fragilidades políticas e econômicas. No século XIX, a pobreza generalizada e a exploração colonial agravaram os efeitos da fome e a humanidade falhou nesse teste.
Hoje, apesar dos avanços tecnológicos e científicos, os desafios persistem. O El Niño de 2026 chega quando já estão ocorrendo secas generalizadas, cadeias de suprimento fragilizadas e recordes sucessivos de aquecimento dos oceanos.
No Brasil, os maiores riscos são de enchentes no Sul e secas no Norte e Nordeste; pessoal ligado ao agronegócio já vem se movimentando tentando limitar os danos, que também deverão ocorrer por aqui.
Se este ano entrará para a história com mais um episódio de desastre evitável dependerá de como a sociedade utilizará os recursos, o conhecimento e a tecnologia disponíveis.
(*) Vivaldo José Breternitz, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – vjnitz@gmail.com.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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