Respondendo à queda das taxas globais de fecundidade e ao envelhecimento populacional
O debate sobre fecundidade, envelhecimento e decrescimento precisa ser resgatado do alarmismo ideológico e recolocado no terreno das evidências, dos direitos e da inovação social
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
A dinâmica populacional costuma despertar paixões e, historicamente, tem servido de justificativa para intervenções estatais profundas sobre as liberdades individuais, nas mais diversas formas. A China, por exemplo, instituiu em 1980 a política do filho único — talvez a política controlista mais draconiana já implementada para conter o crescimento populacional. Mas, nos anos 2020, passou a adotar políticas explicitamente pronatalistas, na tentativa de reverter o processo de decrescimento da população.
O gráfico abaixo mostra que a população mundial era de 600 milhões de habitantes em 1700, passou para 1 bilhão em 1805, para 2 bilhões em 1925, 3 bilhões em 1960 e 4 bilhões de habitantes em 1974. Neste período, a taxa de crescimento populacional anual passou de 0,5% entre 1700 e 1805, para 0,6% entre 1805 e 1925, para 1,2% entre 1925 e 1960 e 2,1% entre 1960 e 1974. Portanto, não só a população estava crescendo, mas o ritmo de crescimento estava se acelerando.
Contudo, o pico do ritmo de crescimento ocorreu na década de 1960, com mais de 2% ao ano. A partir da década de 1970 a população mundial continuou crescendo, mas em ritmo desacelerado. A taxa de crescimento populacional anual ficou em 1,7% entre 1974 e 1987, caiu para 1,5% entre 1987 e 1999, para 1,3% entre 1999 e 2011 e para 1,1% entre 2011 e 2023. Desde 2024 a taxa de crescimento está abaixo de 1% ao ano. O gráfico mostra que o pico populacional global ocorrerá em 2086, com 10,4 bilhões de habitantes. A partir daí, a taxa de crescimento ficará negativa e haverá decrescimento da população.

Em meados do século passado, quando as taxas de crescimento populacional estavam crescendo de forma acelerada (devido à transição da mortalidade) se tornou comum a difusão do medo da “explosão populacional”. Agora que as taxas de fecundidade estão abaixo do nível de reposição na maioria dos países do mundo se tornou comum a difusão do medo da “implosão populacional”. Mas como mostrei em artigo publicado na virada do milênio (Alves, 2000) estas ideias de explosão e implosão não passam de mitos que não se confirmam no longo prazo e servem apenas para interesses escusos de ideologias conservadoras e autoritárias.
Os gráficos abaixo são das projeções populacionais da Divisão de População da ONU (revisão 2024). A Taxa de Fecundidade Total (TFT) – gráfico da esquerda – estava em torno de 5 filhos por mulher em meados do século passado, deve cair para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) em meados do atual século e ficar abaixo de 2 filhos por mulher entre 2050 e 2100. Em decorrência da baixa TFT, a população mundial vai começar a decrescer a partir da década de 2080.
Em paralelo, haverá um rápido e profundo processo de mudança da estrutura etária, com o aumento da proporção de idosos, como mostra o gráfico abaixo (da direita). A proporção de idosos de 60 anos e mais estava em torno de 6% em meados do século passado e deve chegar a cerca de 30% em 2100. No final do atual século a população total vai diminuir, mas a população idosa continuará crescendo.

A queda das taxas de fecundidade, o envelhecimento populacional e o decrescimento demográfico se tornaram assuntos banais na mídia mundial e figuras da extrema direita como Viktor Orbán, Elon Musk, J. D. Vance e Donald Trump estão em constante campanha contra o chamado “inverno demográfico”. Eles atacam os direitos sexuais e reprodutivos das pessoas em nome de um suposto “colapso demográfico” e de uma inevitável “crise fiscal” que provocaria o fim da civilização humana.
Contra estas visões escatológicas sobre o envelhecimento populacional e o esvaziamento demográfico, a revista acadêmica The Lancet fez um editorial com o título: “Responding to declining global fertility rates” (2026), dizendo “A consequência extrema dessas tendências, segundo alguns, é o colapso populacional. Muitos etnonacionalistas acrescentam uma dimensão racial a esses temores. Mas existem preocupações mais compreensíveis sobre mudanças sociais, diminuição do número de pessoas empregadas, redução da arrecadação de impostos e aumento dos encargos previdenciários. Prevê-se que os custos com saúde e assistência social disparem com o crescente número de pessoas com deficiência cognitiva e outras doenças não transmissíveis”.
O editorial da The Lancet se contrapõe ao catastrofismo: “Grande parte da retórica em torno das mudanças demográficas é permeada por um sentimento antienvelhecimento implícito ou explícito. Os idosos não podem ser considerados simplesmente um fardo para a economia. Os governos precisam adotar uma mentalidade de envelhecimento saudável; idosos fisicamente mais aptos podem trabalhar por mais tempo e têm uma necessidade reduzida de serviços de saúde e assistência social. A medicina geriátrica e de reabilitação precisa de investimentos. O acesso aos serviços para idosos precisa ser melhorado, incluindo aqueles focados em prevenção e promoção da saúde. Os avanços tecnológicos e a inteligência artificial prometem melhorar as capacidades dos idosos e auxiliar a inovação e o desenvolvimento. A flexibilização das políticas migratórias restritivas também aumentaria o número de jovens adultos em países com uma força de trabalho em declínio”.
O fim do 1º bônus demográfico não é o fim do progresso, pois há ainda o 2º bônus demográfico (bônus da produtividade) e o 3º bônus demográfico (bônus da longevidade). Como mostrei no artigo “O envelhecimento populacional deve ser acolhido e não temido” (Alves, 01/10/2025):
“O envelhecimento populacional não é o prenúncio de um colapso, mas a expressão de uma vitória civilizatória. Viver mais é um privilégio que deve ser acompanhado por políticas públicas inovadoras, adaptações institucionais e uma mudança de mentalidade coletiva. Em vez de temer o “Apocalipse demográfico”, é hora de abraçar a construção de uma sociedade da longevidade, capaz de transformar anos extras em saúde, aprendizado, produtividade e bem-estar”.
Os ataques aos direitos reprodutivos estão se ampliando. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA divulgou recentemente novas diretrizes que delineiam uma grande reformulação dos programas federais de planejamento familiar — priorizando o parto em detrimento da contracepção e privilegiando o “planejamento familiar natural”, como aplicativos de monitoramento do ciclo menstrual, em detrimento de métodos muito mais eficazes, como a pílula anticoncepcional. O governo Trump também está prestes a estabelecer novas regulamentações que acabariam com o financiamento de unidades da Planned Parenthood, como mostra Mary Ziegler – professora de direito na UC Davis e autora do livro “Personhood: The New Civil War over Reproduction” (2024).
Em síntese, o debate sobre fecundidade, envelhecimento e decrescimento precisa ser resgatado do alarmismo ideológico e recolocado no terreno das evidências, dos direitos e da inovação social. Como aponta The Lancet, não se trata de negar os desafios fiscais e institucionais, mas de enfrentá-los sem estigmatizar a velhice nem restringir liberdades reprodutivas. O verdadeiro risco não está em viver mais ou ter menos filhos, mas em insistir em modelos econômicos, trabalhistas e de bem-estar desenhados para uma demografia que já não existe.
Ao investir no envelhecimento saudável, na produtividade ao longo do ciclo de vida, na tecnologia, na requalificação permanente e em políticas migratórias mais racionais, é possível converter a transição demográfica em vetor de desenvolvimento. O futuro não será determinado pelo número de nascimentos, mas pela capacidade das sociedades de transformar longevidade em prosperidade compartilhada, justiça social e sustentabilidade.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, J. E. D. Mitos e realidade da dinâmica populacional. In: Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 12, Caxambu, MG, 2000
https://pt.scribd.com/document/493115086/MITOS-E-REALIDADE-DA-DINAMICA-POPULACIONAL
ALVES, JED. O envelhecimento populacional deve ser acolhido e não temido, Portal do Envelhecimento, 01/10/2025 https://portaldoenvelhecimento.com.br/o-envelhecimento-populacional-deve-ser-acolhido-e-nao-temido/
ZIEGLER, M. Personhood: The New Civil War over Reproduction. New Haven: Yale University Press, 2024.
The Lancet. Responding to declining global fertility rates, Editorial Volume 407, Issue 10524, 1/01/2026
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736%2826%2900034-6/fulltext
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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