Psicopatologia do machismo

Artigo de Montserrat Martins
Não existe uma categoria psiquiátrica, ainda, que classifique o machismo como uma psicopatologia. Mas deveria haver, pela relação dessa cultura doentia com a violência contra as mulheres, que continua causando vítimas em proporções alarmantes, em pleno século 21. O que explica esse fenômeno chocante?
A Psiquiatria Forense, no estudo das personalidades propensas à violência, identifica diferentes graus de tendência a violência. No maior grau de risco estão as personalidades mais violentas, popularmente conhecidas como psicopatas, que sentem prazer com a violência e a praticam independente de motivação externa. Podem se incluir nesse grupo também alguns pacientes psicóticos, como portadores de Esquizofrenia Paranoide, caso não tratados. Mas esses exemplos extremos, embora os mais graves, estão longe de ser a maioria dos casos.
No grupo de médio risco estão pessoas com personalidade com tendência à violência, mas que estaria relacionada com alguns tipos de desencadeantes. Ou seja, cujo comportamento violento, geralmente de tipo impulsivo, explosivo, não planejado, não ocorreria de modo totalmente imotivado, mas sim de modo reativo a algumas situações específicas, que mobilizariam uma reação psicopatológica desses sujeitos. Esse grupo intermediário também não é o mais frequente, dentre os autores de violência contra a mulher.
No grupo teoricamente considerado de baixo risco é que estão os mais numerosos casos de feminicídio. O que distingue esse grupo dos demais é que a prática da violência depende de um estímulo social, ou seja, não cometeriam seus crimes sozinhos, sem alguma forma de aprovação de seu grupo social. É aí que se configura o impacto da cultura machista sobre a violência, na naturalização do modo de ver a mulher como uma propriedade do homem.
Até um século atrás, a sociedade brasileira legitimava o assassinato de mulheres através da chamada “Legítima Defesa da Honra”. Embora não estivesse escrito “pode matar” no código penal de 1890, a cultura patriarcal e a interpretação jurídica da época permitiam que advogados de defesa argumentassem que a traição sujava a “honra” do marido, e o assassinato era uma reação passional “justificável”.
No exame psiquiátrico desses réus, ao se depararem com a não cumplicidade do entrevistador, denotam profunda surpresa, como se não conhecessem outro homem que não pensasse igual, ou seja, denotam participar de grupos sociais profundamente arraigados em culturas machistas.
Pela relevância do impacto sobre o comportamento, esse fator cultural deve ser precisa estar no foco de nossos estudos e de nossas ações para a prevenção do feminicídio.
Montserrat Martins é Psiquiatra.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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