As árvores nos ensinam a educarmos nossos filhos

Artigo de Rosângela Trajano
Educar um filho é um ato profundamente filosófico, ainda que realizado no cotidiano simples das manhãs apressadas, das conversas à mesa e dos silêncios que ensinam mais do que discursos. É um gesto que se assemelha ao cuidado paciente das árvores com seus frutos.
A árvore não promete felicidade imediata ao fruto, nem o protege de todo vento. Ela o sustenta com raízes profundas, oferece seiva constante e aceita a passagem das estações.
Nós, ao contrário, muitas vezes acreditamos que amar é livrar nossos filhos de qualquer frustração. Confundimos alegria com ausência de limites e, em nome de um sorriso momentâneo, deixamos de ensinar o peso das escolhas e a dignidade da responsabilidade.
Há pais que, temendo a dor dos filhos, passam a mão sobre erros graves, inclusive atos de violência, como se o afeto pudesse apagar as consequências do mundo. No entanto, nenhuma árvore ignora um galho doente. Ela poda, não por crueldade, mas por amor à vida que deseja preservar. A poda dói, é verdade, mas sem ela o fruto apodrece antes de amadurecer. Educar exige coragem para frustrar, para dizer não, para sustentar o choro que ensina e a espera que forma. Como dizia Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Educar é aceitar esse custo da alma, é suportar o desconforto de não ser sempre compreendido para que, no futuro, o fruto possa ser inteiro.
As árvores também nos ensinam sobre o lugar. Um fruto que cresce em solo errado perde o sabor, adoece, cai antes do tempo. Assim acontece quando acomodamos nossos filhos em espaços que não lhes pertencem: justificamos comportamentos injustificáveis, culpamos o mundo por tudo, retiramos deles a chance de aprender com o erro. A árvore não carrega o fruto para sempre nos galhos; ela o prepara para cair, para seguir seu caminho, para encontrar outro chão. Educar é preparar para o mundo, não para a estufa eterna do nosso medo. É compreender que proteger demais também é uma forma sutil de abandono, pois priva o outro da possibilidade de crescer.
Há uma beleza silenciosa na árvore que oferece frutos bons sem alarde. Ela não se vangloria do sabor, apenas cumpre seu papel com fidelidade ao tempo.
Pais e mães são chamados a essa mesma ética discreta: formar seres humanos belos por dentro, mesmo quando isso não rende aplausos imediatos. Um filho educado apenas para parecer bom é como um fruto encerado: brilha aos olhos, mas carece de nutrição. Um filho educado com valores, limites e afeto verdadeiro pode até ter marcas da poda, mas carrega doçura, firmeza e vida.
Sejamos, portanto, mais árvores do que vitrines. Mais raízes do que espelhos. Que nossos filhos sejam frutos que alimentem o mundo, que levem consigo justiça, empatia e humanidade. Porque, no fim, não seremos lembrados pelos pedidos que atendemos, mas pelo caráter que ajudamos a formar. E como toda árvore sábia, educar é confiar que, mesmo depois de cair do galho, o fruto continuará dizendo, em silêncio, de onde veio.
Rosângela Trajano, Colunista do EcoDebate, é poetisa, escritora, ilustradora, revisora, diagramadora, programadora de computadores e fotógrafa. Licenciada e bacharel em filosofia pela UFRN e mestra em literatura comparada também pela UFRN. É pesquisadora do CIMEEP – Centro Internacional e Multidisciplinar de Estudos Épicos. Com mais de 50 (cinquenta) livros publicados para crianças, ministra aulas de Filosofia para crianças na varanda da sua casa, de forma voluntária. Além disso, mora pertinho de um mangue aonde vai todas as manhãs receber inspiração para poetizar.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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