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Exames oftalmológicos podem detectar sinais precoces de Alzheimer e transformar a saúde pública, aponta estudo

 

Pesquisadores identificaram alterações nos vasos da retina associadas à mutação genética ligada à demência, abrindo caminho para diagnósticos mais rápidos e acessíveis.

 

Pesquisa publicada no Alzheimer’s & Dementia indica que alterações na retina, observadas em exames oftalmológicos de rotina, podem antecipar em até 20 anos sinais de Alzheimer.

Pesquisadores apontam que alterações nos vasos sanguíneos da retina, observáveis durante consultas oftalmológicas, podem indicar precocemente risco de demência, incluindo Alzheimer, até antes de surgirem sintomas cognitivos. Se confirmado em humanos e disponibilizado a baixo custo, o exame pode revolucionar a prevenção em saúde diante do envelhecimento populacional global.

Retina: janela para o cérebro

Um estudo do Jackson Laboratory, publicado no periódico Alzheimer’s & Dementia em 31 de julho de 2025, mostra que alterações microscópicas nos vasos da retina estão associadas a uma mutação genética ligada à doença de Alzheimer. Por ser parte do sistema nervoso central, a retina pode funcionar como um “espelho” do cérebro, revelando condições invisíveis em exames convencionais.

Mutação MTHFR 677C>T e alterações vasculares

Pesquisadores investigaram camundongos portadores da mutação Mthfr677C>T, presente em até 40% da população, e identificaram vasos retinianos tortuosos, artérias estreitadas e menor ramificação vascular já aos seis meses de idade. Essas alterações são semelhantes às encontradas no cérebro de pacientes com declínio cognitivo, sugerindo que o exame ocular poderia ser usado como biomarcador precoce de demência.

Impactos moleculares e diferenças por sexo

A equipe também observou falhas em proteínas ligadas à produção de energia celular e à manutenção dos vasos sanguíneos. Além disso, camundongas com a mutação apresentaram piora mais acentuada, reforçando o alerta da OMS de que mulheres são mais vulneráveis ao Alzheimer.

Próximos passos: validar em humanos

O próximo desafio dos cientistas é testar se essas alterações retinianas também aparecem em humanos. Para isso, o Jackson Laboratory firmou parceria com o Northern Light Acadia Hospital, nos Estados Unidos. A expectativa é que exames de retina de rotina possam indicar risco de Alzheimer até 20 anos antes dos primeiros sintomas.

O impacto na saúde pública global

Se essa hipótese for confirmada em humanos, o impacto sobre a saúde pública poderá ser transformador. O Alzheimer é uma das principais causas de incapacidade e dependência entre idosos, gerando custos sociais e econômicos elevados.

Com a possibilidade de um exame ocular simples, rápido e de baixo custo detectar risco de demência precocemente, sistemas de saúde em todo o mundo, inclusive no Brasil, teriam uma ferramenta poderosa para:

  • Diagnóstico precoce: permitir que pacientes adotem intervenções preventivas e recebam acompanhamento antes da perda cognitiva avançada.

  • Planejamento de políticas públicas: governos poderiam antecipar estratégias de cuidado, reduzir internações e adiar a institucionalização de idosos.

  • Redução de custos: a prevenção sempre é menos onerosa do que o tratamento de doenças em estágios avançados.

  • Integração entre áreas médicas: consultas oftalmológicas de rotina passariam a ter relevância também para neurologia e geriatria.

Envelhecimento populacional e desafio global

O mundo está envelhecendo rapidamente. Segundo a ONU, até 2050 uma em cada seis pessoas terá mais de 65 anos. No Brasil, a população idosa já supera 15% do total e deve dobrar em menos de três décadas.

Nesse cenário, doenças neurodegenerativas como o Alzheimer representam uma ameaça crescente à sustentabilidade dos sistemas de saúde. A disponibilidade de exames acessíveis para triagem precoce pode ser decisiva para enfrentar esse desafio.

O estudo reforça a importância de enxergar a saúde de forma integrada. Se os exames oftalmológicos realmente comprovarem a capacidade de prever o risco de Alzheimer, estaremos diante de uma revolução na prevenção de doenças neurodegenerativas. Mais do que uma descoberta científica, pode ser a chave para aliviar pressões econômicas, sociais e emocionais em uma sociedade que envelhece rapidamente.

As retinas Mthfr677C>T não mostram fenótipos significativos pelo exame de fundo ou pela intensidade de fluoresceína

As retinas Mthfr677C>T não mostram fenótipos significativos pelo exame de fundo ou pela intensidade de fluoresceína. (A) Imagens representativas de fundo (painel esquerdo) e angiografia fluorescente (painel direito) de camundongos de 6 meses de idade de cada genótipo. A mudança na intensidade do corante de fluoresceína foi medida ao longo de 6 min. Embora nenhuma comparação tenha alcançado significância, camundongos machos CC mostraram uma diminuição sutil na intensidade fluorescente com a idade, enquanto camundongos machos TT mostraram intensidade reduzida em 6 meses em comparação com controles da mesma idade ( B ). Camundongos fêmeas CC e TT mostraram intensidade fluorescente diminuída com a idade, com camundongos TT mostrando uma redução geral específica do genótipo ( C ); n  = 6/sexo/genótipo.

Referência:

Reagan AM, MacLean M, Cossette TL, Howell GR. Retinal vascular dysfunction in the Mthfr677C>T mouse model of cerebrovascular disease. Alzheimer’s Dement. 2025; 21:e70501. https://doi.org/10.1002/alz.70501

 

Citação
EcoDebate, . (2025). Exames oftalmológicos podem detectar sinais precoces de Alzheimer e transformar a saúde pública, aponta estudo. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2025/08/28/exames-oftalmologicos-podem-detectar-sinais-precoces-de-alzheimer-e-transformar-a-saude-publica-aponta-estudo/ (Acessado em agosto 29, 2025 at 06:32)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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