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Artigo

O alerta de Londres

 

O alerta de Londres, artigo de Bernardo Egas

Vamos experienciar eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, intensos e desastrosos. Se falharmos na ação climática, as consequências serão catastróficas

Na semana passada participei, junto com os meus colegas de turma e professores do Mestrado em Cidades, na London School of Economics and Political Science, da última mega aula presencial, antes da cerimônia de formatura. Tivemos um rico debate sobre nossa jornada acadêmica e, claro, sobre os fenômenos climáticos extremos vivenciados pelos britânicos naquela semana, com ondas de grande calor no Reino Unido e fogos intensos em Portugal, Espanha e França.

Pela primeira vez na história do Reino Unido, o serviço de meteorologia britânico emitiu um alerta vermelho, na segunda e terça-feira, 18 e 19 de julho, para calor extremo em partes do centro, norte, leste e sudeste da Inglaterra. Foram registrados 40,3 graus Celsius. A temperatura recorde no Reino Unido era de 38,7°C, atingida no Jardim Botânico de Cambridge a 25 de Julho de 2019. Os sete dias mais quentes do Reino Unido ocorreram a partir do ano 2000, parte de uma tendência climática alarmante. Petteri Taalas, Secretário-Geral da World Meteorological Organization (WMO), afirmou que ondas de calor vão acontecer com mais frequência devido às mudanças climáticas, que têm sido demonstradas nos relatórios do Intergovernmental Panel on Climete Change (IPCC).

No decorrer daquela semana, alguns serviços ferroviários foram cancelados enquanto outros correram a velocidades reduzidas por receio de que os trilhos pudessem ceder. O aeroporto de Luton e a base aérea de Brize Norton registraram danos no asfalto das pistas, forçando o encerramento das operações naquela segunda-feira. Em Londres, houve múltiplos incêndios em meio à onda extrema de calor. O caos foi tanto, que o Prefeito de Londres, Sadiq Khan, afirmou que a terça-feira foi o dia mais agitado para o Corpo de Bombeiros da cidade desde a Segunda Guerra Mundial. As correntes de ferro fundido e os pedestais da Ponte Hammersmith, sobre o rio Tâmisa, foram envoltos em papel de alumínio refletivo para protegê-los do sol. As ondas de calor anteriores haviam causado o alargamento de rachaduras no ferro, levantando o medo de que a majestosa, porém corroída, ponte do século XIX pudesse ruir.

Em Portugal e Espanha, as temperaturas atingiram picos máximos de cerca de 46 graus Celsius. A onda de calor matou mais de 1.700 pessoas em Portugal e Espanha. Em Portugal, os incêndios começaram em florestas de eucaliptos e pinheiros nas colinas e que, surpreendentemente, seguiram firmes para o litoral. Na região sul do país, no Algarve, destino muito procurado pelos portugueses e turistas, as autoridades tiveram de bloquear o acesso ao resort de luxo Quinta do Lago, à medida que espessas nuvens de fumaça chegavam à região. Em Leiria, ao norte de Lisboa, as autoridades bloquearam uma das principais rodovias porque as chamas e fumaça podiam ser vistas em ambos os lados da estrada, enquanto helicópteros e aeronaves jogavam água para conter o fogo. Na Espanha, foram mais de 30 focos de incêndios ativos, a maioria atingindo as províncias da Extremadura, Galícia e Astúrias. Só na Galícia, o fogo destruiu cerca de 4.500 hectares. Na França, os incêndios devastaram mais de 20.000 hectares de terra nas últimas semanas e, na região de Bordeaux, mais de 16 mil pessoas tiveram de sair de suas casas.

Estes fenômenos expõem a vulnerabilidade das infraestruturas urbanas a eventos extremos. Nossas cidades não estão preparadas para enfrentar tamanhas emergências climáticas. Regiões metropolitanas e grandes centros urbanos necessitam de ações estruturantes que fomentem a sua capacidade de adaptação, ou seja, a habilidade de se ajustarem a determinados danos ou a responder às suas consequências.

A agenda de mitigação é crucial. Reduzir a emissão de gases de efeito estufa, estimular a diversificação de sumidouros de carbono e desenvolver tecnologias de captura e sequestro de carbono são ações fundamentais para conter o aquecimento global desenfreado. Para além disto, governos ao redor do mundo devem priorizar ações de adaptação, que necessitarão de aportes volumosos de recursos financeiros. Não é apenas uma questão ambiental, é uma questão humanitária. Priorizações orçamentárias devem ser tomadas com vistas à redução das vulnerabilidades da infraestrutura urbana e das pessoas, principalmente os idosos, as crianças e as populações de baixa renda.

As consequências “futuras” das mudanças climáticas já são uma realidade do nosso dia a dia. Os especialistas já afirmaram: estes fenômenos climáticos extremos são consequência da emissão descontrolada de gases de efeito estufa na atmosfera. Não temos tempo a perder. Se tudo continuar como agora, vamos experienciar eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, intensos e desastrosos. Se falharmos na ação climática, as consequências serão catastróficas.

No campus da London School of Economics, um grande globo terrestre de cabeça para baixo chamava a atenção de todos que participaram da cerimônia de formatura da classe de 2022. Uma obra de arte provocativa, que em conjunto com uma semana absolutamente extrema, reforçou em todos nós a urgência da missão que temos, de entregar políticas públicas econômicas, sociais e ambientais eficazes na transformação do espaço urbano, segundo os preceitos da sustentabilidade e da resiliência climática.

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* Bernardo Egas é formado em Direito pela PUC e pós-graduado em Liderança e Gestão Pública pelo Centro de Liderança Pública de São Paulo. Na Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, foi subsecretário de Administração, Presidente do PREVI-RIO, Presidente da FOMENTA RIO e Secretário de Meio Ambiente. Atualmente trabalha na Câmara Municipal, como Coordenador de Sustentabilidade.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

 

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