Lavradeiro, o cavalo selvagem brasileiro ameaçado de desaparecimento

Este artigo pretende chamar atenção para a necessidade de proteger os cavalos selvagens de Roraima como um patrimônio vivo do país, ligado à savana amazônica
Reinaldo Dias
Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais – UNICAMP
Especialista em Ciências Ambientais – USF
Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK
http://lattes.cnpq.br/5937396816014363
reinaldias@gmail.com
Observar cavalos correndo livres pelos campos conduz, quase inevitavelmente, à ideia de liberdade. Foi essa associação imediata que me ocorreu ao ter contato, anos atrás, com imagens dos cavalos de Roraima vivendo soltos no Lavrado. A partir dali, busquei informações sobre a situação desses animais, o que resultou em um texto publicado em 2017 sobre a especificidade dos cavalos conhecidos como lavradeiros. Desde então, continuei acompanhando o tema e, com preocupação, constatei o agravamento da situação dos exemplares que ainda permanecem em vida livre.
Este artigo retoma essa questão com um objetivo claro. Chamar atenção para a necessidade de proteger os cavalos selvagens de Roraima como um patrimônio vivo do país, ligado à savana amazônica em que se formaram ao longo de mais de dois séculos. Mais do que discutir sua caracterização genética ou seu eventual aproveitamento como raça doméstica, importa defender a permanência desses animais em liberdade e a criação de mecanismos efetivos de proteção nos diferentes níveis de governo. Trata-se de preservar uma população singular de cavalos e, com ela, uma expressão rara da história ecológica e territorial brasileira.
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O Lavrado de Roraima, savana amazônica de alta singularidade ecológica
O Lavrado ocupa o nordeste de Roraima e corresponde à porção brasileira da maior área contínua de savana do extremo norte da Amazônia. Sua extensão se articula a um sistema transfronteiriço que alcança Guiana e Venezuela, o que já indica que não se trata de uma formação residual ou secundária, mas de uma paisagem de grande expressão territorial. Estudos recentes o descrevem como um mosaico de ecossistemas, com áreas campestres, buritizais, ilhas de mata e diferentes combinações de solo, relevo e dinâmica hídrica.
No interior da Amazônia brasileira, o Lavrado representa uma singularidade. A imagem mais difundida do bioma amazônico costuma privilegiar a floresta densa, o que ajuda a explicar por que as vegetações não florestais permanecem menos conhecidas e, muitas vezes, menos valorizadas. O próprio Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) chamou atenção para esse ponto ao destacar que os lavrados roraimenses fazem parte das formações não florestais amazônicas e que, no estado, a formação campestre associada a esse sistema ocupa cerca de 4,3 milhões de hectares. O instituto também lembrou que essas áreas vêm recebendo menor prioridade nas políticas de preservação quando comparadas às formações florestais.
Em obra recente dedicada ao Lavrado, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) destacam que essa paisagem reúne diferentes formas de vegetação e ambientes associados a variações de altitude, solo e disponibilidade de água. Isso ajuda a compreender que o Lavrado não pode ser visto como uma área uniforme de campos abertos. Trata-se de um sistema ecológico diversificado, cuja complexidade ainda não foi plenamente incorporada ao debate ambiental brasileiro. Parte importante desse patrimônio natural permanece pouco estudada, o que dificulta tanto sua melhor compreensão quanto a formulação de políticas de proteção compatíveis com suas características.
Já em 2008, reportagem publicada no site jornalístico ambiental O Eco chamava atenção para a proposta de criação de um Parque Nacional do Lavrado e para a pressão exercida pelo agronegócio sobre a região. A matéria destacava que a presença de campos naturais tornava a área particularmente visada por atividades econômicas expansivas. Atualmente, a discussão sobre proteção institucional continua marcada por impasses, inclusive porque parte do Lavrado se encontra em territórios indígenas, o que assegura proteção indireta a parcelas importantes da paisagem, mas não resolve de forma abrangente a conservação do conjunto desse sistema ecológico.
O diagnóstico mais recente do IPAM sobre Roraima registra a presença do Lavrado na porção nordeste do estado e relembra a sucessão de grandes eventos críticos de incêndio desde 1998, inclusive em 2024. Isso não significa que todo fogo tenha a mesma origem nem produza os mesmos efeitos ecológicos, mas indica um ambiente sujeito a perturbações frequentes e em transformação. Quando esse quadro se combina com expansão agropecuária, alteração de paisagens abertas e redução de áreas tradicionalmente usadas de forma extensiva, o resultado é uma pressão acumulada sobre um ecossistema cuja singularidade ainda não se converteu em proteção equivalente.
Diante desse quadro, caracterizar adequadamente o Lavrado significa reconhecê-lo em sua especificidade ecológica e na natureza concreta das pressões que sofre. Trata-se de uma savana amazônica, e não de uma área marginal ou secundária no interior do bioma. Trata-se também de um ecossistema com identidade própria, cuja relevância territorial e ambiental continua insuficientemente incorporada às políticas de proteção. Por fim, trata-se de uma paisagem submetida a pressões concretas, sobretudo aquelas ligadas à expansão da pecuária, da agricultura mecanizada e à recorrência de incêndios. É nessa savana amazônica que vive o cavalo lavradeiro, animal selvagem que percorre livremente amplas áreas desse ecossistema, ao qual está historicamente ligado.
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O cavalo lavradeiro e sua adaptação à vida selvagem
A história do cavalo lavradeiro está ligada à ocupação pastoril dessa savana amazônica a partir do fim do século XVIII. A expansão da pecuária bovina trouxe consigo os equinos necessários ao manejo do gado, e o sistema extensivo então dominante favoreceu a multiplicação de grandes manadas vivendo livremente em áreas abertas. De acordo com a Embrapa, nesse processo, cavalos sem marca e sem dono passaram a ser chamados pelos fazendeiros de “selvagens”, embora fossem descendentes de animais domésticos que, ao longo de gerações, ficaram submetidos à seleção natural e às adversidades do Lavrado, adquirindo características próprias de tamanho, conformação corporal e resistência.
Segundo a reconstrução histórica reunida pela Embrapa, os animais introduzidos nas savanas de Roraima provavelmente descendiam de diferentes raças e tipos ibéricos que chegaram à Amazônia em momentos diversos. Mais tarde, a composição do lavradeiro teria recebido outras contribuições, entre elas a influência de cavalos Puro Sangue Inglês oriundos da Guiana, reconhecida tanto por criadores quanto por estudos genéticos mencionados no próprio documento técnico. O lavradeiro, portanto, não se formou a partir de uma única linhagem, mas de sucessivos cruzamentos e incorporações ao longo do tempo, seguidos por longa adaptação às condições ambientais do Lavrado.
Essa trajetória ajuda a explicar por que o lavradeiro não pode ser reduzido a um cavalo doméstico qualquer que voltou à vida livre. O aspecto decisivo não está apenas na origem remota dos animais, mas no processo histórico posterior. Ao longo de mais de dois séculos, esses cavalos permaneceram em um ecossistema específico, sob pastagem nativa de baixo valor nutritivo, forte sazonalidade climática, grandes distâncias e, em muitos casos, sem contato direto com humanos. A Embrapa relaciona justamente esse conjunto de condições à formação de um tipo adaptado às savanas roraimenses. É esse enraizamento ecológico e territorial que dá ao lavradeiro sua condição particular.
As características atribuídas ao lavradeiro decorrem dessa permanência prolongada no Lavrado. A literatura técnica destaca rusticidade, resistência e capacidade de sobrevivência em ambiente difícil, com alimentação baseada em pastagem nativa e forte exposição às variações sazonais. Ao mesmo tempo, materiais de divulgação mais recentes insistem em traços que ajudam a explicar o interesse público em torno desses animais, como agilidade, sobriedade corporal, adaptação ao campo aberto e forte associação com a paisagem roraimense. Embora essa última descrição seja menos técnica, ela ajuda a compreender a percepção regional de que se trata de um cavalo diferente, inseparável do ambiente em que se formou.
O documento da Embrapa de 2019 trabalhou com uma estimativa ampla para os equinos criados extensivamente na savana e admitiu que, tomando por base um levantamento anterior, cerca de 15 por cento dos animais atenderiam às características morfológicas então propostas como padrão racial. Nessa hipótese, existiriam 3.150 equinos tipo lavradeiro em 2016. Esse número, porém, não corresponde automaticamente aos exemplares livres e mais preservados. Reportagem publicada pelo Agro em Campo em março de 2026, com base em informações da própria Embrapa, informou que a população de exemplares puros estaria em torno de 200 animais, em redução por causa de queimadas, desmatamento e cruzamentos com outras raças. A diferença entre as duas escalas mostra que é necessário distinguir entre o universo mais amplo de animais do tipo lavradeiro e o grupo menor de cavalos livres considerados mais próximos da formação original, aos quais denominamos cavalos selvagens.
Essa distinção é central porque o problema não se limita à conservação de um tipo equino regional. O que está em risco é uma população livre cuja condição atual foi moldada pelo isolamento relativo, pela seleção natural e pelas condições ecológicas do Lavrado. Sua eventual perda não representaria apenas o desaparecimento de um grupamento de interesse agropecuário ou genético. Representaria o desaparecimento de uma forma rara de vida animal historicamente integrada a uma savana amazônica específica. É por isso que o lavradeiro precisa ser apresentado, desde já, não como curiosidade zootécnica, mas como população de equinos que vivem em liberdade plena no Lavrado, cuja proteção depende da permanência do próprio ambiente em que se constituiu.
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O trabalho técnico-científico da Embrapa e os limites desse enquadramento
O principal esforço sistemático de documentação sobre o cavalo lavradeiro foi realizado pela Embrapa Roraima no documento Cavalo Lavradeiro: aspectos históricos, situação atual, desafios e possíveis soluções para sua conservação, publicado em 2019. O trabalho teve como finalidade atualizar as informações históricas e a situação atual do lavradeiro, além de propor estratégias para sua conservação e utilização. Nesse trabalho, o animal é apresentado como importante recurso genético entre os domésticos adaptados às condições brasileiras, e o texto organiza um diagnóstico que combina história da formação do grupamento, descrição do ambiente savânico de Roraima, avaliação de fragilidades internas e identificação de oportunidades e ameaças externas.
Esse levantamento foi importante por duas razões. A primeira é ter reunido, em base institucional sólida, informações dispersas sobre a história do cavalo lavradeiro, sua distribuição, seu manejo e sua vulnerabilidade. A segunda é ter tratado a conservação não apenas como preservação abstrata, mas como problema concreto de infraestrutura, organização de criadores, padronização, estudos complementares e política pública. O diagnóstico registra, por exemplo, a venda de fazendas tradicionais em municípios como Alto Alegre, Amajari, Bonfim e Boa Vista para outras atividades, a precariedade do núcleo de conservação e a necessidade de mecanismos institucionais mais consistentes para sustentar a continuidade do trabalho.
O documento de 2019 propõe estratégias ligadas ao reconhecimento oficial da raça, à criação de associação de criadores, ao registro genealógico, à padronização e à valorização econômica do animal. Entre as oportunidades listadas, aparecem a realização de estudos, a divulgação por eventos, o interesse de fazendeiros em utilizar o cavalo nas propriedades e a possibilidade de incorporá-lo ao empreendedorismo e ao turismo rural. A atração exercida pelo lavradeiro sobre a pesquisa agropecuária não se deve apenas à sua rusticidade e adaptação ao Lavrado. Também pesa o fato de ser considerado tolerante à anemia infecciosa equina, condição que ajuda a explicar o interesse em sua caracterização genética e em sua futura valorização como grupamento doméstico. Entre as ameaças, figuram a falta de padronização da raça e a ausência de associação de criadores para viabilizar seu reconhecimento oficial. Em outras palavras, o horizonte institucional predominante é o de consolidação do lavradeiro como raça doméstica brasileira formalmente reconhecida. Esse enquadramento não deve ser descartado nem desqualificado, pois produziu resultados importantes.
Em estudo genômico divulgado pela Embrapa em 2025, o lavradeiro é tratado como grupamento genético ameaçado de extinção e como objeto de programas de conservação e manejo genético. O material reforça a consistência do trabalho técnico acumulado e mostra que não se trata de uma população equina comum, mas de um conjunto animal com características próprias e de importância para a conservação.
Há, no entanto, um limite claro nesse modo de abordagem. Quando o problema é conduzido prioritariamente para o reconhecimento racial, para a valoração zootécnica e para a futura inserção do lavradeiro no universo das raças domésticas brasileiras, a proteção dos cavalos em vida livre tende a perder centralidade. A questão principal deixa de ser a permanência de uma população selvagem ligada ao Lavrado e passa a ser a consolidação de um padrão racial, a organização de criadores e a viabilidade de usos econômicos futuros. Essa mudança de foco tem consequências importantes, porque desloca a atenção da preservação dos cavalos em liberdade plena no Lavrado para objetivos ligados à padronização racial, à organização de criadores e à valorização econômica futura do animal.
O ponto central aqui não está em negar o valor da pesquisa da Embrapa, mas em delimitar seu alcance. O trabalho técnico é indispensável para registrar ancestralidade, características, variabilidade genética, ameaças e possibilidades de manejo. Sem ele, a defesa do lavradeiro ficaria mais frágil. O problema é que esse esforço, por si só, não resolve a questão maior da proteção. O que está em risco não é apenas a continuidade de um grupamento equino com interesse científico ou agropecuário. Está em risco a permanência de cavalos livres cuja história recente foi moldada por longa permanência no Lavrado, por relativo isolamento e por adaptação a uma paisagem específica.
Por isso, o horizonte de proteção precisa ir além da caracterização racial ou do interesse agropecuário. A contribuição da Embrapa é decisiva, mas o desafio atual é mais amplo. Trata-se de reconhecer que os cavalos livres do Lavrado constituem um patrimônio biológico e cultural cuja proteção não pode depender apenas do sucesso de sua formalização como nova raça doméstica. A continuidade desses animais em vida livre exige outra escala de preocupação, mais próxima da conservação territorial, da proteção da paisagem e da manutenção das condições que permitiram sua formação histórica.
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O lavradeiro como cavalo selvagem brasileiro
A discussão sobre o lavradeiro exige enfrentar uma questão conceitual que costuma ser simplificada. Em termos gerais, são chamados de ferais os animais domésticos que, depois de escapar ou ser abandonados, passam a viver novamente sem controle humano direto. Essa categoria ajuda a compreender parte da trajetória histórica dos cavalos do Lavrado, já que sua origem remota está ligada a animais introduzidos para o trabalho pastoril. Mas ela se mostra insuficiente quando aplicada de forma mecânica ao caso roraimense. O lavradeiro não corresponde apenas a um cavalo doméstico que retornou à natureza. Ele resulta de um processo prolongado de permanência em liberdade, em um ecossistema específico, sob condições ambientais que moldaram seu tipo corporal, sua rusticidade e sua adaptação.
Essa diferença importa porque nem toda população livre de cavalos apresenta o mesmo grau de enraizamento territorial e histórico. No caso do Lavrado, a permanência desses animais em áreas abertas do nordeste de Roraima atravessa mais de dois séculos. Nesse período, eles viveram sob regime extensivo, em contato com pastagens nativas, ciclos sazonais marcados, longas distâncias, escassez alimentar em parte do ano e sem contato com população humana. A literatura técnica associa justamente esse conjunto de condições à formação do lavradeiro como tipo adaptado às savanas roraimenses. Não se trata, portanto, apenas de liberdade circunstancial. Trata-se de uma trajetória ecológica e histórica prolongada, vinculada a um ambiente determinado.
Esse ponto ajuda a distinguir o lavradeiro de outras populações de cavalos livres encontradas em diferentes partes do mundo. Há casos em que a condição feral descreve corretamente populações recentes, instáveis ou pouco diferenciadas. No Lavrado, porém, o isolamento relativo, a permanência continuada e a associação com uma paisagem singular produziram um quadro distinto. O estudo genômico mais recente da Embrapa reforça essa interpretação ao classificar o Lavradeiro entre os grupamentos genéticos ameaçados de extinção analisados e ao indicar sua relevância para conservação. A pesquisa não o define como animal silvestre em sentido legal, mas mostra que ele não pode ser tratado como uma população equina qualquer.
É nesse sentido que a expressão cavalo selvagem brasileiro se mostra adequada. Ela não pretende negar a origem histórica doméstica dos ancestrais do lavradeiro, nem ignorar o vocabulário técnico da zootecnia. Seu objetivo é outro. Busca descrever a condição atual de uma população livre, cuja existência foi moldada por longa permanência fora do manejo ordinário, por seleção natural e por ligação estreita com um ecossistema específico. O adjetivo “selvagem”, nesse caso, não funciona como licença poética. Ele procura nomear uma condição de vida livre territorialmente enraizada, que a noção corrente de animal doméstico já não explica de modo satisfatório.
Essa formulação ganha ainda mais força quando se observa que o problema central não é apenas a manutenção de exemplares geneticamente próximos de um padrão. O que está em questão é a continuidade de cavalos vivendo em liberdade no Lavrado. Se a captura, o confinamento, a dispersão territorial e o cruzamento com animais domésticos modernos avançarem, o que desaparecerá não será apenas uma linhagem equina rara. Desaparecerá também a forma livre de existência que tornou o lavradeiro um caso particular dentro do território brasileiro. Por isso, a defesa desses animais não pode ser reduzida à preservação de um estoque genético ou à consolidação de uma futura raça doméstica reconhecida. Ela envolve a manutenção de uma população que adquiriu características próprias em interação prolongada com a paisagem roraimense, vivendo em liberdade contínua há séculos.
Em diferentes países europeus, cavalos mantidos em regime livre ou semi-livre vêm sendo utilizados em projetos de restauração e manejo ecológico de áreas naturais, sobretudo por sua capacidade de influenciar a vegetação e manter paisagens abertas. Não se trata de transpor automaticamente essa experiência para Roraima, nem de afirmar sem pesquisa específica que o lavradeiro desempenha idêntica função ecológica no Lavrado. Mas essa comparação é útil porque mostra que grandes herbívoros livres podem ser vistos como parte do funcionamento de certos ambientes, e não apenas como presença acidental. No caso roraimense, a permanência secular dos lavradeiros em campos naturais sugere ao menos a necessidade de investigar com mais atenção sua interação com a dinâmica da paisagem.
Tomado em conjunto, esse quadro permite sustentar que o lavradeiro não deve ser compreendido apenas como cavalo de origem doméstica ou como caso genético de interesse agropecuário. Sua condição atual é a de uma população livre, historicamente constituída em um ambiente próprio, com diferenciação suficiente para justificar uma defesa mais forte de sua permanência em vida selvagem. Nesse sentido, proteger o lavradeiro significa também reconhecer que o Brasil pode perder não só um tipo equino raro, mas uma das expressões mais incomuns da relação entre história animal, adaptação ecológica e paisagem no extremo norte amazônico.
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A apropriação sociocultural do lavradeiro e a fragilidade de sua proteção
Ao longo do tempo, o cavalo lavradeiro deixou de ser apenas um animal associado à antiga pecuária extensiva dos campos de Roraima e passou a ocupar também um lugar simbólico na imagem regional. Ele aparece como parte da memória histórica do estado, ligado à paisagem aberta do Lavrado, ao deslocamento pelos campos e a uma ideia de liberdade que se tornou recorrente em representações culturais. Essa dimensão não é secundária. Ela mostra que o lavradeiro já foi incorporado ao imaginário roraimense como parte da identidade ligada à paisagem e à história de Roraima.
O cavalo lavradeiro aparece em textos de divulgação, reportagens, documentários e iniciativas ligadas à valorização da identidade regional. Em alguns casos, é apresentado como um dos símbolos de Roraima. Em outros, surge como elo entre natureza, história local e memória dos campos do Lavrado. Há um poema do poeta e escritor roraimense Eliakin Rufino sobre o cavalo selvagem de Roraima que talvez seja uma das expressões mais sintéticas dessa incorporação simbólica, ao apresentar o animal como figura livre, sem sela, sem cabresto, sem cerca e sem curral, em estreita correspondência com a paisagem aberta do Lavrado.
A imagem do cavalo lavradeiro passou a ser incorporada também por iniciativas de turismo, que utilizam sua observação e sua associação com a paisagem do Lavrado como atrativo. Esse movimento amplia a visibilidade do cavalo e pode contribuir para despertar interesse por sua conservação e pela proteção do ecossistema em que vive. Ao mesmo tempo, traz um problema que não pode ser ignorado. Em contextos de fragilidade populacional e de proteção insuficiente, a exploração turística sem critérios claros pode aumentar a pressão sobre os próprios cavalos livres, seja pela circulação desordenada em áreas sensíveis, seja pela transformação de sua presença em simples atração.
O lavradeiro vem sendo progressivamente incorporado como símbolo cultural e como imagem de valor turístico, mas isso não parece ter sido acompanhado por uma estrutura pública consistente de proteção. Nos três níveis de governo, a situação ainda se mostra frágil. No plano federal, a principal presença mais visível continua sendo a da pesquisa da Embrapa. No plano estadual, embora o animal apareça no imaginário de Roraima, não se consolidou de forma clara uma política robusta voltada à proteção dos bandos livres. No plano municipal, a mesma fragilidade parece se repetir. O resultado é uma situação em que o cavalo é valorizado como imagem, mas permanece insuficientemente protegido como realidade viva.
Esse descompasso entre apropriação simbólica e proteção efetiva enfraquece a possibilidade de conservação em vida livre. Um animal que já entrou na cultura regional, que inspira documentários, que alimenta roteiros de visitação e que aparece na poesia como emblema de liberdade, deveria estar no centro de uma política mais séria de preservação. Sem isso, a consagração simbólica pode conviver com a perda gradual daquilo que a tornou possível.
Nesse ponto, um trecho do poema de Eliakin Rufino adquire um sentido que vai além da homenagem literária.
“Eu sou cavalo selvagem
não sei o peso da sela
não tenho freio nos beiços
nem cabresto
nem marca de ferro quente
não tenho crina cortada
não sou bicho de curral
eu sou cavalo selvagem
meu pasto é o campo sem fim
para mim não existe cerca
sigo somente o capim”
Mais do que uma celebração poética, esses versos ajudam a compreender a contradição que cerca o cavalo lavradeiro em Roraima. O animal já ocupa lugar importante na memória cultural e na imagem simbólica do estado, sobretudo por encarnar a ideia de liberdade associada aos campos abertos do Lavrado. Essa valorização, no entanto, não foi acompanhada por mecanismos públicos de proteção capazes de assegurar sua permanência em vida livre. Proteger o lavradeiro, portanto, não significa apenas conservar uma linhagem rara. Significa assegurar a permanência, em liberdade, de um animal que se tornou um dos símbolos mais próprios do Lavrado.
Conclusão
A situação do cavalo lavradeiro não pode ser reduzida a uma discussão sobre caracterização racial, utilidade zootécnica ou preservação de material genético. Esses aspectos são importantes e o trabalho técnico acumulado até aqui tem valor inegável. Mas, diante do que ocorre no Lavrado, eles já não bastam para responder ao problema principal. O que está em risco é a continuidade de uma população livre de cavalos, historicamente ligada a uma savana amazônica específica, moldada por longo isolamento relativo, seleção natural e adaptação ecológica.
A perda desses animais em vida livre significaria mais do que o desaparecimento de um tipo equino raro. Significaria o enfraquecimento de uma relação histórica entre paisagem, cultura e vida animal no nordeste de Roraima. Também significaria a substituição gradual de uma população formada no interior do Lavrado por animais cruzados, capturados ou deslocados de seu contexto territorial. Por isso, a defesa do lavradeiro exige uma agenda mais ampla, voltada à manutenção dos bandos livres, à proteção das áreas em que ainda circulam, ao controle dos cruzamentos e à contenção de pressões ligadas à transformação acelerada do Lavrado.
O cavalo lavradeiro precisa ser reconhecido não apenas como objeto de estudo ou como possível nova raça doméstica brasileira, mas como cavalo selvagem do Lavrado, inseparável da paisagem que ajudou a moldá-lo. Sem esse deslocamento de enfoque, a tendência é que o país preserve descrições, registros e memórias, mas não consiga assegurar a permanência concreta dos animais livres que deram origem a tudo isso.
Fontes consultadas
BARBOSA, Reinaldo I. e colaboradores. Lavrado de Roraima: Caracterização, Biodiversidade, Populações Humanas e Conservação na Maior Savana do Norte da Amazônia Brasileira. 2025. Obra de referência para caracterização ecológica do Lavrado.
Embrapa Roraima. Cavalo Lavradeiro: aspectos históricos, situação atual, desafios e possíveis soluções para sua conservação. 2019.
Embrapa. Estudo da diversidade genética dos equinos Baixadeiro e Lavradeiro por ferramentas genômicas para conservação. 2025.
IPAM Amazônia. No Dia da Amazônia, conheça as vegetações não florestais do bioma. 2023. Fonte útil para a caracterização do Lavrado como vegetação não florestal amazônica e para dados de extensão e endemismo.
IPAM Amazônia. Roraima — Gestão do Fogo na Amazônia. 2025. Diagnóstico sobre fogo e vulnerabilidade ambiental em Roraima, com referência ao Lavrado.
DIAS, Reinaldo. Cavalo selvagem brasileiro em risco de extinção. Pensamento Verde, 2017.
O Eco. Um parque para o Lavrado de Roraima. 2008. Texto importante sobre a necessidade de proteção institucional do Lavrado.
Lavradeiro: conheça o cavalo selvagem do Brasil que pode desaparecer. Agro em Campo, 2026. Reportagem recente com dados atualizados de circulação pública sobre exemplares livres, ameaças e núcleo de conservação.
Cavalos lavradeiros correm risco de extinção em Roraima. Norte Extremo, 2023. Material jornalístico regional sobre a percepção local do risco de desaparecimento do lavradeiro.
Documentário conta a história dos cavalos lavradeiros em Roraima. Folha BV, 2018. Fonte para a circulação pública e audiovisual do tema em Roraima.
Domingo Espetacular. Domingo Espetacular revela imagens inéditas de cavalos selvagens ameaçados de extinção. Record TV, 2017. Material audiovisual relevante para a visibilidade pública do lavradeiro em vida livre.
Conheça o cavalo lavradeiro. Portal Amazônia, 2023. Texto de divulgação sobre o valor simbólico do animal e sobre o poema de Eliakin Rufino.
Cavalos Lavradeiros de Roraima. Del Bianco Travel Experience. Exemplo de apropriação turística contemporânea do lavradeiro em vida livre.
MUTILLOD, C. e colaboradores. Managed as wild, horses influence grassland vegetation differently than domestic herds. Biological Conservation, 2024. Referência comparativa para a discussão sobre grandes herbívoros livres e paisagens abertas.
UNEP. Lunar Year of the Horse: Four environmental lessons we can learn from equines. 2026. Fonte internacional de apoio para o debate sobre equinos livres e funções ecológicas em certos contextos.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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