De Vale da Morte a referência ambiental, o que Cubatão ensina ao Brasil

Cubatão lembra que recuperação ambiental exige mais do que discursos. Exige presença do Estado, regulação, tempo e escolha política
Reinaldo Dias
Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais -UNICAMP
Especialista em Ciências Ambientais – USF
Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK
http://lattes.cnpq.br/5937396816014363
reinaldias@gmail.com
Em um país onde a implementação de políticas ambientais urbanas costuma esbarrar na força de interesses econômicos consolidados, casos de transformação real merecem atenção redobrada. Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata da poluição, um problema que frequentemente nasce de atividades altamente lucrativas, mas distribui seus danos sobre toda a sociedade, degradando o ar, a água, a paisagem e a saúde coletiva. Cubatão se tornou um dos exemplos mais extremos dessa lógica. Durante muito tempo, a cidade foi sinônimo de poluição intensa, destruição ambiental e sofrimento humano, resultado de uma industrialização concentrada e mal controlada, ligada ao refino de petróleo, à siderurgia, à petroquímica e à produção de fertilizantes. Não por acaso, seu nome ficou associado a expressões como “Vale da Morte” e “cidade mais poluída do mundo”. Justamente por isso, sua trajetória posterior merece atenção. Não porque autorize discursos fáceis de redenção, mas porque mostra, de forma rara e concreta, que até mesmo um quadro de devastação profunda pode começar a ser revertido quando há controle público, continuidade institucional e decisão política de enfrentar a degradação em vez de normalizá-la.
1. O tempo em que Cubatão se tornou sinônimo de devastação
A cidade, que concentrava um dos mais importantes polos industriais do país durante as décadas de 1970 e 1980, tornou-se também o retrato mais brutal de uma industrialização sem controle efetivo sobre seus impactos. O município reunia atividades de refino de petróleo, siderurgia, petroquímica, fertilizantes, cimento e química pesada, com destaque histórico para a Refinaria Presidente Bernardes, a Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e grandes unidades do setor químico e de fertilizantes. Esse parque industrial altamente concentrado operava, além disso, em uma área cercada pela Serra do Mar e sujeita a condições que dificultavam a dispersão dos poluentes, o que agravava ainda mais os efeitos da contaminação atmosférica sobre a cidade e seu entorno. Foi da combinação entre esse complexo industrial, o controle ambiental insuficiente e essas condições geográficas que emergiu o quadro extremo de poluição que marcaria Cubatão.
Não foi por acaso que se espalharam expressões como “Vale da Morte”, “cidade mais poluída do mundo” e outras formulações semelhantes que procuravam dar conta da gravidade do quadro. Décadas depois, essa memória continuaria tão forte que uma reportagem da BBC News Brasil, publicada em 2017, ainda retomaria esses epítetos para lembrar como Cubatão se tornou referência internacional de degradação ambiental antes de iniciar sua lenta recuperação. A própria memória oficial recente do município reconhece que Cubatão ficou conhecida como uma das regiões mais poluídas do planeta e que sua reversão começou apenas a partir de rigorosos programas de controle ambiental implantados nos anos 1980.
A situação era tão severa que o problema não podia ser reduzido a fumaça visível ou mau cheiro. Tratava-se de um sistema de contaminação disseminado, alimentado por emissões atmosféricas, despejos industriais e resíduos oriundos de um complexo produtivo altamente concentrado, que atingia o ar, os rios, a vegetação e a saúde humana ao mesmo tempo. Trabalhos acadêmicos sobre a degradação e a recuperação ambiental de Cubatão mostram que, até julho de 1984, o Rio Cubatão recebia cerca de 64 toneladas por dia de poluentes, o que ajuda a dimensionar a violência da degradação hídrica. Ao mesmo tempo, dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) registram que, nos anos mais críticos, as indústrias lançavam diariamente quase mil toneladas de poluentes na atmosfera, produzindo níveis considerados absolutamente críticos.
As características geográficas de Cubatão também contribuíam para agravar esse quadro. Cercada pela Serra do Mar e sujeita a condições desfavoráveis à dispersão dos poluentes, Cubatão funcionava, em larga medida, como uma espécie de armadilha atmosférica. O material tóxico permanecia concentrado sobre a cidade e suas áreas vizinhas, intensificando a exposição da população e multiplicando os danos ambientais. Não se tratava, portanto, apenas de uma cidade industrial com problemas ambientais relevantes, mas de um território em que a combinação entre concentração produtiva, localização geográfica e fragilidade do controle público produziu uma situação excepcionalmente destrutiva.
Os efeitos sobre a saúde pública foram decisivos para transformar o caso de Cubatão em escândalo nacional e internacional. Relatos e estudos da época associaram a poluição intensa ao aumento de internações e mortes por doenças respiratórias, a lesões dermatológicas ligadas à chuva ácida e a uma alta prevalência de câncer de pulmão. Mas foi sobretudo a repercussão dos casos de anencefalia e outras malformações congênitas que chocou a opinião pública. Um texto memorialístico de Paulo César Naoum, recuperando aquele contexto, recorda que a cidade passou a ser conhecida pela mídia nacional e internacional como “vale da morte” e menciona o episódio em que um coveiro, após sucessivos enterros de recém-nascidos com deformações, denunciou a situação, contribuindo para ampliar a visibilidade da tragédia ambiental. Mesmo levando em conta o estilo narrativo desse testemunho, ele ajuda a compreender o grau de comoção produzido pelo caso Cubatão.
Também a vegetação da Serra do Mar foi severamente atingida. Pesquisas e reconstituições históricas sobre Cubatão mostram que a poluição atmosférica contribuiu para a degradação de extensas áreas de cobertura vegetal, tornando visível, nas encostas, o impacto cumulativo das emissões industriais. O desastre ambiental de Cubatão não se expressava apenas em indicadores técnicos. Ele era perceptível na paisagem, na saúde da população, nos rios e no cotidiano da cidade. Seus efeitos atingiam simultaneamente os ecossistemas locais e as condições de vida da população.
Por isso, quando Cubatão recebeu aqueles epítetos tão duros, não se tratava apenas de sensacionalismo jornalístico. Havia exageros em algumas formulações, como costuma ocorrer em situações-limite, mas o núcleo do diagnóstico era verdadeiro. Cubatão havia se transformado em símbolo do que acontece quando crescimento econômico, concentração industrial e omissão regulatória avançam sem contenção. O município se tornou, naquele momento, a demonstração mais contundente de que o desenvolvimento pode produzir riqueza e, ao mesmo tempo, destruir as condições mínimas de vida de uma cidade inteira.
2. A recuperação não foi instantânea, foi construída
A reversão do quadro de Cubatão não ocorreu de forma súbita, nem pode ser atribuída a um gesto isolado de governo ou de empresa. Ela começou a ser construída quando a gravidade do problema deixou de poder ser ignorada e passou a exigir resposta institucional contínua. A partir dos anos 1980, a atuação da CETESB, a pressão pública, a maior visibilidade nacional e internacional do desastre e a necessidade de impor controles ao polo industrial abriram caminho para um processo longo de enfrentamento da poluição. O ponto central dessa mudança foi simples de enunciar, mas difícil de executar, reduzir emissões, controlar efluentes, monitorar fontes poluidoras e restaurar áreas degradadas. Isso significou impor mudanças reais ao funcionamento das grandes fontes emissoras do polo industrial, inclusive refinaria, siderúrgica e unidades químicas, rompendo com uma longa fase em que a atividade econômica operava com custos ambientais amplamente externalizados para o território e para a população.
Esse processo, porém, não foi obra exclusiva dos órgãos de controle e da burocracia ambiental. Estudos sobre a trajetória de Cubatão mostram que, ao lado da CETESB, a sociedade civil teve papel central na evolução do enfrentamento da poluição. A pressão de moradores, entidades locais e grupos organizados ajudou a impedir que o desastre fosse tratado como custo normal da industrialização. Entre essas organizações, merece destaque a Associação das Vítimas da Poluição e das Más Condições de Vida de Cubatão, cuja atuação deu visibilidade pública ao sofrimento social produzido pela degradação ambiental e contribuiu para sustentar a cobrança por mudanças concretas.
Os resultados começaram a aparecer de maneira gradual. Reconstituições históricas baseadas em dados da CETESB indicam que o programa de controle implantado em Cubatão levou, ao longo do tempo, a uma redução próxima de 98% das cargas poluidoras atmosféricas industriais monitoradas. No caso da água, também houve queda expressiva da carga orgânica lançada no Rio Cubatão em comparação com o período mais crítico. Esses números não significam que os problemas tenham desaparecido por completo, mas mostram que houve transformação concreta, mensurável e sustentada ao longo de décadas.
Essa mudança foi importante também porque alterou a relação entre indústria e território. Durante o período mais grave, o parque industrial funcionava como vetor de prosperidade econômica e, ao mesmo tempo, como fonte permanente de adoecimento e destruição ecológica. O processo de recuperação exigiu justamente quebrar essa lógica de impunidade ambiental. Essa mudança também foi favorecida pelo fato de que a degradação deixara de ser um problema silencioso e passara a gerar reação pública organizada, com participação de grupos da sociedade civil que denunciavam seus efeitos sobre a vida cotidiana da população. Não se tratava apenas de reconhecer danos, mas de obrigar empresas e poder público a assumir padrões mínimos de controle, tratamento e responsabilidade. Cubatão passou então a representar, ainda que de forma imperfeita, um caso em que a regulação ambiental deixou de ser obstáculo ao desenvolvimento e passou a ser condição para tornar a vida urbana minimamente compatível com a atividade econômica.
Outro aspecto importante é que a recuperação não pode ser lida apenas como uma história de engenharia ambiental ou de eficiência técnica. Ela foi também uma reconstrução lenta da capacidade de o território voltar a sustentar vida em melhores condições. A redução de emissões e de despejos poluentes abriu espaço para a regeneração parcial de áreas naturais, para a diminuição de alguns impactos mais agudos sobre a saúde e para a própria mudança da imagem pública da cidade. O que antes aparecia como exemplo extremo de degradação começou, pouco a pouco, a oferecer sinais de que a reversão não era impossível.
É justamente aí que reside uma das lições mais fortes do caso de Cubatão. A recuperação ambiental real não se confunde com melhora cosmética, propaganda institucional ou mudança de linguagem. Ela depende de tempo, investimento, fiscalização, produção de dados e continuidade administrativa. No caso cubatense, o que se consolidou foi um processo cumulativo, com avanços que só se tornaram mais visíveis porque houve persistência. É esse caráter construído, gradual e politicamente sustentado que torna a trajetória da cidade relevante para além de sua história local.
3. O retorno do guará e os sinais visíveis da recuperação
A recuperação ambiental de Cubatão começou a adquirir outro significado quando deixou de aparecer apenas em relatórios técnicos e passou a se tornar visível na própria paisagem. Nenhum sinal teve força simbólica maior do que o retorno do guará-vermelho (Eudocimus ruber) aos manguezais da região. Ausente por décadas, a ave passou a representar, para além da dimensão biológica, a possibilidade concreta de que um território historicamente associado à devastação voltasse a sustentar formas visíveis de vida silvestre. Em Cubatão, esse significado foi tão forte que o guará acabou incorporado à imagem pública do município, sendo tratado oficialmente como ave-símbolo da cidade e como emblema de sua recuperação ambiental.
Esse retorno não deve ser lido como detalhe ornamental nem como simples curiosidade da fauna. O guará-vermelho é uma espécie profundamente ligada à saúde dos ecossistemas de mangue e estuário, ambientes decisivos para a reprodução de espécies, para a dinâmica costeira e para o equilíbrio ecológico da Baixada Santista. Quando uma ave com esse perfil volta a ocupar um território de forma perceptível, ela sinaliza que processos ecológicos fundamentais voltaram a operar em algum grau. Isso não significa restauração plena nem equilíbrio definitivo, mas indica mudança real de trajetória. Em uma cidade marcada por décadas de poluição atmosférica, degradação hídrica e comprometimento dos manguezais, a presença do guará passou a funcionar como evidência concreta de que a vida começava a reencontrar espaço.
A força simbólica desse reaparecimento foi ampliada pelo modo como a cidade passou a incorporá-lo em sua identidade pública. O guará deixou de ser apenas um indicador ecológico e se converteu em linguagem urbana, marca cultural e referência visual da nova imagem de Cubatão. A prefeitura passou a tratá-lo como símbolo da identidade ecológica cubatense e da recuperação ambiental do município. Essa escolha aparece em diferentes iniciativas recentes, como selo comemorativo oficial com a ave estampada, projetos urbanos que destacam sua figura e até uma grande escultura do guará na entrada da cidade, reforçando sua presença na paisagem e no imaginário local. Em uma cidade por muito tempo associada à fumaça, ao adoecimento e à destruição, a adoção do guará como imagem pública da nova Cubatão tem um significado político e cultural que não deve ser subestimado.
Esse processo também ajuda a entender por que a recuperação ambiental de Cubatão passou a ser percebida de forma mais ampla pela população. Enquanto gráficos de emissão e índices de qualidade do ar falam sobretudo ao mundo técnico, o retorno do guará fala à cidade inteira. Ele torna visível uma mudança que antes parecia restrita a tabelas e laudos. Ao mesmo tempo, o caso mostra que a reconstrução ambiental não ocorre apenas quando os danos diminuem, mas também quando a sociedade passa a reconhecer sinais concretos de regeneração e a incorporá-los como parte de sua memória e de sua identidade. O guará-vermelho, nesse sentido, não é apenas consequência da recuperação. Ele se tornou também um dos meios pelos quais essa recuperação passou a ser compreendida publicamente.
Esse retorno, porém, não deve ser entendido de forma triunfalista. O retorno da ave não significa que os manguezais de Cubatão estejam livres de ameaças nem que a agenda ambiental do município esteja concluída. Pelo contrário, pesquisas e reportagens recentes mostram que o lixo acumulado, a contaminação e outros impactos ainda afetam o ecossistema e interferem no comportamento e na sobrevivência do guará-vermelho. A retomada de ações do Projeto Guará-Vermelho e os estudos sobre os efeitos dos resíduos nos manguezais mostram que a recuperação precisa ser continuamente protegida e aprofundada. Isso reforça a leitura mais séria do caso, o guará não é prova de perfeição ambiental, mas sinal poderoso de que a cidade mudou o rumo e de que essa mudança precisa ser defendida.
É justamente por isso que o guará-vermelho ocupa um lugar tão importante na trajetória recente de Cubatão. Durante décadas, a cidade foi conhecida sobretudo por aquilo que destruía. Agora, parte de sua imagem pública começa a ser reconstruída também por aquilo que voltou a abrigar. Em termos ambientais, esse é um dado expressivo. Em termos políticos e simbólicos, é ainda mais forte. Ele mostra que a recuperação deixa marcas na paisagem, na biodiversidade e no modo como uma cidade passa a contar a sua própria história.
4. Dos selos recentes à lição política que Cubatão oferece
Os reconhecimentos recebidos por Cubatão nos últimos anos ajudam a dar forma pública a uma transformação que vinha sendo construída há décadas. Em março de 2025, o município passou a integrar o programa internacional Tree Cities of the World, criado pela Arbor Day Foundation em parceria com a FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura. Em abril daquele ano, recebeu oficialmente o selo. Já em março de 2026, Cubatão voltou a ser reconhecida no mesmo programa, consolidando sua presença entre as cidades destacadas por políticas de arborização urbana e áreas verdes. A prefeitura também registra que a cidade conquistou, pela primeira vez, a certificação no Programa Município VerdeAzul, do governo paulista, alcançando 80 pontos no ciclo 2025 após ter registrado nota negativa em 2023.
Esses marcos recentes ajudam a dimensionar publicamente uma transformação construída ao longo de décadas. Quando uma cidade que durante tanto tempo figurou como emblema da devastação passa a ser mencionada em programas de referência ambiental, isso sinaliza que a recuperação deixou de ser apenas uma aspiração ou um discurso administrativo. Passou a ser algo reconhecível, medido e suficientemente consistente para alterar a imagem pública do município. Em Cubatão, o peso desses selos decorre justamente do contraste com o passado. Não se trata de um município que sempre preservou bem suas áreas verdes e agora recebe mais uma distinção. Trata-se de uma cidade que já foi apresentada como retrato extremo da degradação e que hoje consegue demonstrar avanços reais em gestão ambiental.
A trajetória recente de Cubatão também permite extrair uma lição política mais ampla. O caso mostra que degradação ambiental extrema não deve ser tratada como destino irreversível. Mostra também que a reversão não nasce de espontaneidade, marketing verde ou simples troca de narrativa. Ela depende de regulação, fiscalização, monitoramento, investimento, planejamento, restauração ecológica e continuidade institucional. Em outras palavras, a cidade não ensina que tudo se resolve facilmente; ensina que a recuperação ambiental exige persistência e presença do Estado. É justamente isso que dá força ao seu exemplo em um país que tantas vezes oscila entre o negacionismo dos danos e o improviso das respostas.
Há, portanto, uma diferença importante entre usar Cubatão como peça de propaganda e lê-la como experiência histórica. O caso cubatense não permite leituras simplistas. Ele não apaga o sofrimento ambiental acumulado, não elimina a necessidade de vigilância permanente e não permite supor que bastem alguns prêmios para considerar encerrada a agenda ecológica local. O que ele faz, e isso já é muito, é desmontar a ideia de impossibilidade. Em tempos de devastação naturalizada,
Cubatão lembra que até mesmo os cenários mais críticos podem ser alterados quando a sociedade e o poder público deixam de aceitar a destruição como custo inevitável do progresso.
Conclusão
Cubatão interessa hoje menos como exceção milagrosa e mais como demonstração histórica. Seu passado mostra até onde pode chegar a devastação quando industrialização, omissão regulatória e desprezo pelo território caminham juntos. Seu presente, por outro lado, mostra que a recuperação ambiental não é fantasia, desde que haja controle público, monitoramento, pressão social, investimento e continuidade institucional. Essa é talvez a lição mais importante do caso cubatense, a destruição pode ser extrema, mas não precisa ser aceita como destino.
Ao mesmo tempo, a trajetória de Cubatão também adverte contra leituras simplificadoras. Os prêmios recentes, o retorno do guará-vermelho e a melhora de indicadores ambientais não permitem tratar essa trajetória como processo concluído. Essa cautela é importante porque, mesmo após a recuperação expressiva iniciada nos anos 1980, reportagens posteriores ainda registraram momentos de preocupação com a qualidade do ar e com a necessidade de vigilância contínua, lembrando que a trajetória de Cubatão é notável, mas não deve ser tratada como história definitivamente encerrada. O que eles mostram é que uma cidade marcada por um dos mais graves desastres ambientais urbanos do país conseguiu alterar sua trajetória de forma concreta, sem apagar a memória do que ocorreu nem dispensar vigilância permanente. O valor público desse caso está justamente aí, Cubatão oferece uma lição de persistência política e de reconstrução ecológica lenta, difícil e documentada.
Num país que ainda convive com a naturalização de rios degradados, ar poluído, áreas verdes destruídas e cidades tratadas como espaços sacrificáveis, Cubatão lembra que recuperação ambiental exige mais do que discursos. Exige presença do Estado, regulação, tempo e escolha política. Talvez seja por isso que sua história continue tão atual. Ela não prova que tudo pode ser resolvido com facilidade. Prova algo mais importante, que mesmo os cenários mais sombrios podem começar a mudar quando a devastação deixa de ser tratada como preço inevitável do progresso.
Fontes consultadas
A Tribuna. Projeto Guará-Vermelho retoma ações ambientais em Cubatão após renovação de parceria. dez. 2025.
BBC News Brasil. Mais de 3 décadas após “Vale da Morte”, Cubatão volta a lutar contra alta na poluição. 2017.
CETESB. Materiais técnicos e institucionais sobre emissões atmosféricas de fontes fixas e controle da poluição industrial em Cubatão.
Ferreira, Liliane Garcia. A gestão ambiental do pólo industrial de Cubatão a partir do Programa de Controle da Poluição iniciado em 1983: atores, instrumentos e indicadores. Dissertação de mestrado, Faculdade de Saúde Pública da USP, 2007.
Furlan, Claudis Maria. Efeitos da poluição aérea de Cubatão sobre a vegetação da Serra do Mar. Dissertação, Universidade de São Paulo, 1998.
Garcez, Gabriela Soldano. Cubatão: degradação e recuperação ambiental de uma cidade industrial. Dissertação, Universidade Católica de Santos, 2013.
Jornalismo Colaborativo. Cubatão: o que mudou depois do Vale da Morte. fev. 2026.
Naoum, Paulo César. Texto memorialístico reproduzido em coletânea disponível em Ciência News.
Prefeitura de Cubatão (2025-2026). Diversas matérias sobre o reconhecimento do município como cidade verde e sustentável.
R7 / Balanço Geral Litoral. Pesquisa inédita investiga como o lixo afeta a vida e o comportamento do guará-vermelho. jan. 2026.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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