Enlouquecemos o clima e já enfrentamos as consequências

Da onda de calor assassina ao furacão catastrófico, os extremos climáticos deixaram de ser exceção e viraram rotina
Por Henrique Cortez*
Não sei se você tem tido essa sensação, mas falar sobre o clima deixou de ser conversa de elevador. Quando alguém diz “nossa, que calor” ou “essa chuva foi absurda”, já não soa como papo banal. Tem um peso diferente. Uma leve ansiedade por baixo. E não é exagero, é reconhecimento.
A ciência confirma o que o corpo já sente: não estamos só enfrentando verões mais quentes. Estamos diante de uma mudança profunda no comportamento do clima. Como se o sistema climático estivesse tendo crises cada vez mais frequentes, mais intensas e, o que é mais assustador, cada vez menos previsíveis.
O assassino silencioso que você não vê chegar
Sempre ouvimos falar de ondas de calor. Mas a escala mudou de patamar. O que antes era ocasional e durava até uma semana, hoje, pode se estender por 15 ou 20 dias seguidos. E esse é o problema, porque o calor não destrói casas com estrondo como um tornado. Ele age devagar. Exaure o corpo, colapsa redes elétricas, seca reservatórios. Por isso, pesquisadores o chamam de “assassino silencioso”.
Mas o que realmente me surpreendeu nas pesquisas foi o papel da umidade relativa do ar. Sabe aquele 35°C sufocante do Rio de Janeiro que parece muito pior do que os 40°C no interior do Nordeste? Não é apenas impressão.
Quando o ar está muito úmido, o suor não evapora e é a evaporação do suor que resfria o corpo. Sem esse mecanismo funcionando, a temperatura interna começa a subir. Isso se chama estresse térmico e, em casos graves, pode provocar confusão mental, convulsões, danos musculares e falência de órgãos. Em temperatura de bulbo úmido de 35°C, o corpo humano literalmente perde a capacidade de se resfriar. É o limite fisiológico da nossa biologia.
Quando os desastres vêm em série
Outro conceito que mudou a forma como olho para as notícias de desastre climático é o dos eventos compostos, quando diferentes crises se encadeiam numa sequência devastadora.
Imagine que uma onda de calor resseca a vegetação. Em seguida, incêndios florestais varrem a região. E, então, chega uma chuva torrencial sobre um solo ressecado e despido de árvores, desencadeando inundações e deslizamentos. Cada evento seria grave por si só. Juntos, são impossíveis de prever e gerenciar em tempo real. Defesa civil, saúde pública, infraestrutura, tudo é atingido ao mesmo tempo, por gatilhos diferentes.
É exatamente esse efeito cascata que transforma desastres regionais em crises humanitárias.
O Brasil não é mero espectador
A parte mais difícil de absorver é que o Brasil não está observando isso de longe. De acordo com o Relatório Bienal de Transparência à ONU, cada região do país já enfrenta riscos específicos e crescentes:
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Sul e Sudeste: chuvas extremas, enxurradas e deslizamentos, com potencial de repetir e agravar tragédias recentes como as do Rio Grande do Sul e Petrópolis.
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Norte e Centro-Oeste: ondas de calor intensas e risco permanente de incêndios florestais, com impacto direto sobre a Amazônia.
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Nordeste: a seca histórica pode se tornar ainda mais severa, comprometendo acesso à água potável e produção de alimentos para milhões de pessoas.
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Litoral: o avanço do mar e a acidificação dos oceanos ameaçam o turismo, a pesca artesanal e comunidades inteiras que vivem na orla.
Não existe região protegida. O risco muda de forma, mas está em todo lugar.
Quando o Furacão Helene devastou partes dos Estados Unidos ou quando o Super Tufão Yagi destruiu regiões da Ásia, não foram coincidências trágicas. Foram consequências previsíveis de oceanos mais quentes, servindo de combustível para tempestades cada vez mais poderosas.
O que acontece do outro lado do mundo hoje é um roteiro possível para o que pode acontecer aqui amanhã. E essa consciência, por mais desconfortável que seja, é necessária.
O futuro já chegou. E agora?
Os extremos climáticos deixaram de ser a exceção. Viraram a regra. E entender isso não é catastrofismo, é o primeiro passo para agir.
Entender os riscos nos dá poder para cobrar políticas públicas mais sérias, para apoiar comunidades vulneráveis, para pensar diferente sobre onde e como vivemos.
A adaptação climática não é mais um tema para conferências internacionais. É uma necessidade concreta, aqui, agora.
O clima mudou. E o que vamos mudar em resposta?
* Henrique Cortez, jornalista e ambientalista. Editor do EcoDebate.
Referências:
State of the Climate in 2024 https://www.ametsoc.org/ams/publications/bulletin-of-the-american-meteorological-society-bams/state-of-the-climate/
Primeiro Relatório Bienal de Transparência do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/sirene/publicacoes/relatorios-bienais-de-transparencia-btrs/Primeiro_Relatorio_Bienal_Transparencia_Brasil_BTR_2024_PORT.pdf
Derouin, S. (2025), Abrupt climate shifts likely as global temperatures keep rising, Eos, 106, https://doi.org/10.1029/2025EO250270
Martinez-Villalobos, C., Fu, D., Loikith, P.C. et al. Accelerating increase in the duration of heatwaves under global warming. Nat. Geosci. (2025). https://doi.org/10.1038/s41561-025-01737-w
Indicators of Global Climate Change 2024: annual update of key indicators of the state of the climate system and human influence. Forster et al., 2025, Earth System Science Data, Article, Volume 17, issue 6, ESSD, 17, 2641–2680, 2025, https://doi.org/10.5194/essd-17-2641-2025
Hultgren, A., Carleton, T., Delgado, M. et al. Impacts of climate change on global agriculture accounting for adaptation. Nature 642, 644–652 (2025). https://doi.org/10.1038/s41586-025-09085-w
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in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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