A crise global e a segurança energética no Brasil

O desafio brasileiro está em construir uma transição que fortaleça a autonomia do país sem reproduzir novas dependências, seja de tecnologia, financiamento, minerais estratégicos ou infraestrutura insuficiente
Reinaldo Dias
Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais -Unicamp
Especialista em Ciências Ambientais – USF
Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK
http://lattes.cnpq.br/5937396816014363
reinaldias@gmail.com
Num mundo atravessado por guerras, tensões geopolíticas e disputas por recursos estratégicos, a energia volta a se impor como uma das questões mais sensíveis da ordem internacional. Quando o conflito alcança rotas decisivas para o petróleo e o gás, seus efeitos não ficam restritos ao campo de batalha; espalham-se pelos preços, pelo transporte, pela inflação e pelas incertezas que atingem economias inteiras. O que parece, à primeira vista, um problema distante, logo se converte em pressão concreta sobre a vida cotidiana de sociedades que não dispararam um único míssil, mas que acabam arrastadas para dentro da crise.
No Brasil, esse quadro expõe uma contradição incômoda. O país reúne condições privilegiadas para avançar na transição energética, mas continua vulnerável a choques externos que afetam combustíveis, abastecimento e custo de vida. Por trás da discussão sobre segurança energética, portanto, não está apenas o tema da oferta de energia, mas algo mais amplo: a capacidade de reduzir dependências, proteger a população dos efeitos das crises internacionais e transformar a transição energética em parte de um projeto nacional menos frágil, menos subordinado e socialmente mais justo, capaz de reduzir a dependência de combustíveis fósseis que tornam o país mais exposto a crises externas
1. A guerra como fator de instabilidade energética global
Conflitos em regiões centrais para a circulação de petróleo e gás costumam produzir efeitos muito além dos países diretamente envolvidos. Quando a guerra atinge o entorno do Golfo e ameaça a navegação no Estreito de Ormuz, o problema deixa de ser apenas militar e passa a afetar o funcionamento da economia mundial. Isso ocorre porque essa passagem concentra uma parcela muito expressiva do comércio internacional de energia. Dados recentes da U.S. Energy Information Administration (EIA) mostram que, no primeiro semestre de 2025, cerca de 20,9 milhões de barris de petróleo por dia atravessaram o Estreito de Ormuz, volume equivalente a aproximadamente um quarto do petróleo comercializado por via marítima no mundo. A mesma fonte indica ainda que, no mesmo período, passaram por essa rota 11,4 bilhões de pés cúbicos por dia de gás natural liquefeito, o que corresponde a mais de 20% do comércio global desse produto.
Essa concentração ajuda a explicar por que uma crise na região produz efeitos quase imediatos sobre preços, abastecimento e expectativas. O problema não está apenas na destruição provocada pela guerra, mas na vulnerabilidade estrutural de um sistema energético excessivamente dependente de poucos pontos de passagem. Quando essas rotas entram em risco, cresce a instabilidade nos mercados, aumentam as incertezas sobre a oferta e se amplia a pressão sobre economias muito distantes do local do conflito.
Os impactos dessa vulnerabilidade não se limitam ao preço do barril de petróleo. Eles se espalham pelo transporte marítimo, pelo seguro das embarcações e pelo custo geral de circulação das mercadorias. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) observou, em documento publicado em março de 2026, que as perturbações em Ormuz evidenciam a fragilidade dos chamados estrangulamentos marítimos e sua capacidade de transmitir choques para cadeias produtivas, mercados de commodities e custos logísticos em escala global. Isso significa que a guerra encarece não apenas a energia em si, mas também a infraestrutura econômica que depende dela, com efeitos sobre comércio, alimentos e inflação.
Esse quadro ajuda a entender por que a guerra deve ser analisada também como uma crise econômica e social. Quando a energia encarece, sobem os custos do transporte, da produção industrial, da agricultura e do comércio internacional. O resultado tende a aparecer na inflação, na redução do poder de compra e no aumento das incertezas sobre crescimento econômico. Mais do que um episódio regional, portanto, a guerra expõe a fragilidade de uma ordem energética global ainda fortemente ancorada em combustíveis fósseis e em rotas concentradas, sujeitas a bloqueios, ameaças militares e instabilidade geopolítica. Nessa perspectiva, segurança energética não é apenas uma questão técnica de oferta de combustíveis, mas uma dimensão estratégica da estabilidade internacional.
2. O que a crise revela sobre a vulnerabilidade brasileira
À primeira vista, o Brasil parece ocupar uma posição mais confortável do que muitos outros países diante de uma crise energética internacional. O país produz petróleo em grande escala e tem uma matriz energética mais renovável do que a média mundial. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em seu Balanço Energético Nacional 2025, as fontes renováveis responderam por 50% da matriz energética brasileira em 2024, dado que confirma uma situação relativamente favorável quando comparada ao padrão internacional. Essa condição, porém, não elimina fragilidades importantes. Ela oferece proteção parcial, mas não coloca o país fora do alcance dos choques externos
A vulnerabilidade brasileira aparece com mais clareza quando se observa o diesel. É ele que sustenta grande parte do transporte rodoviário, da circulação de mercadorias e das operações do agronegócio. Por isso, uma crise internacional não precisa provocar desabastecimento generalizado para produzir efeitos relevantes: basta pressionar preços, dificultar a distribuição ou aumentar a incerteza sobre a oferta para atingir setores estratégicos da economia e, mais cedo ou mais tarde, pesar também sobre o custo de vida. Foi esse tipo de tensão que apareceu em março de 2026, quando a Petrobras realizou um leilão extraordinário de 20 milhões de litros de diesel no Rio Grande do Sul, em meio a receios de escassez regional e à alta dos preços.
Esse ponto é central porque o Brasil, embora seja grande produtor de petróleo, ainda não é plenamente autossuficiente em derivados essenciais. A própria EPE vem tratando essa questão como tema de planejamento. Em relatório recente sobre o setor de óleo e gás, a empresa observa que o aumento da mistura obrigatória de biocombustíveis aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 2025, também foi justificado como medida para reduzir a dependência brasileira de diesel e gasolina importados. Pela decisão, a mistura de etanol na gasolina passou de 27% para 30%, e a de biodiesel no diesel foi elevada de 14% para 15%. O governo federal apresentou a medida como avanço em direção a uma maior autossuficiência energética. Em outras palavras, a política pública recente já reconhece que a segurança energética do país não depende apenas de extrair petróleo, mas de reduzir a exposição externa justamente nos combustíveis mais sensíveis.
Ao mesmo tempo, o país já dispõe de instrumentos concretos para reduzir essa vulnerabilidade. O Atlas de Eficiência Energética 2025 da EPE registra que, em 2024, o consumo de etanol hidratado cresceu 30,1% e o de biodiesel 19,3% em relação a 2023, enquanto o consumo da gasolina vendida nos postos recuou 3,9% no mesmo período. Esses dados sugerem que o Brasil não parte de um cenário de ausência de alternativas. O problema está menos na falta de opções e mais na velocidade com que elas conseguem ganhar escala e se transformar em proteção real diante das oscilações do mercado internacional.
O que a crise internacional expõe, portanto, é uma contradição importante. O Brasil possui condições muito favoráveis para construir uma posição mais segura no campo energético, mas ainda conserva pontos de fragilidade justamente nos setores em que a economia depende com mais intensidade de derivados fósseis. Isso significa que segurança energética, no caso brasileiro, não pode ser entendida apenas como produção de petróleo ou capacidade de gerar eletricidade. Ela envolve também preços menos vulneráveis a choques externos, maior estabilidade no abastecimento e proteção mais efetiva da economia e da sociedade diante de crises internacionais.
3. Segurança energética além do petróleo
Uma das lições mais importantes das crises recentes é que segurança energética não pode mais ser entendida apenas como disponibilidade de petróleo. Durante muito tempo, esse foi o centro da questão. Hoje, porém, o problema é mais amplo. Ele envolve também gás, eletricidade, infraestrutura, redes de transmissão, capacidade de resposta a interrupções e até o acesso da população à energia em condições suportáveis. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas, eventos climáticos extremos e mudanças tecnológicas aceleradas, segurança energética passou a significar, cada vez mais, capacidade de manter o sistema funcionando com estabilidade, diversidade e menor exposição a choques externos.
No caso brasileiro, essa ampliação do conceito é especialmente importante. O país não enfrenta apenas o desafio de garantir combustíveis para transporte e produção; precisa também assegurar que o crescimento do consumo de eletricidade seja acompanhado por geração, transmissão e operação capazes de manter o fornecimento em condições seguras. Em 2025, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projetou crescimento de 14,1% da carga de energia até 2029, indicando que a segurança energética brasileira envolve não apenas combustíveis fósseis, mas também planejamento do sistema elétrico, integração de novas fontes e capacidade de resposta diante do aumento da demanda
Essa discussão se torna ainda mais relevante porque a transição energética muda o próprio sentido da segurança. À medida que crescem fontes como solar e eólica, e avança o uso da eletricidade em áreas como transporte, mobilidade e parte da atividade industrial, o desafio deixa de ser apenas obter combustível e passa também a envolver redes mais robustas, armazenamento, transmissão e coordenação do sistema. A transição, portanto, não elimina automaticamente o problema da segurança energética. Ela desloca esse problema para novas infraestruturas, novas exigências técnicas e novas formas de dependência.
No Brasil, esse processo precisa ser pensado em articulação com o planejamento de longo prazo. A EPE define o Plano Nacional de Energia como instrumento de suporte à estratégia energética do país sob uma perspectiva integrada dos recursos disponíveis, enquanto o planejamento estratégico da própria empresa associa explicitamente segurança energética, equidade e sustentabilidade. Isso é importante porque evita uma leitura estreita do problema. Segurança energética não é apenas ter energia suficiente; é ter energia com continuidade, com custo socialmente suportável e com capacidade de adaptação a crises externas e internas.
Há ainda uma dimensão muitas vezes deixada em segundo plano: a do acesso. Um sistema só pode ser considerado energeticamente seguro, em sentido mais amplo, se a energia também for acessível à população. Iniciativas recentes da EPE, do Ministério de Minas e Energia e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para construir indicadores de pobreza energética no Brasil mostram que o tema já começa a ser tratado não apenas como questão técnica de suprimento, mas também como problema social. Isso ajuda a compreender que segurança energética não diz respeito somente à estabilidade macroeconômica ou ao abastecimento empresarial; ela envolve também o cotidiano das famílias, a conta de luz, o preço do gás de cozinha e as condições materiais de acesso à vida moderna.
Vista dessa forma, a guerra ajuda a revelar um ponto decisivo: proteger-se de choques externos não significa apenas produzir mais petróleo ou ampliar estoques de combustíveis. Significa construir um sistema energético mais diversificado, mais robusto, mais eficiente e socialmente mais justo. É justamente por isso que segurança energética e transição não devem ser apresentadas como agendas concorrentes. No caso brasileiro, elas tendem a se reforçar mutuamente, desde que a transição seja conduzida com planejamento, infraestrutura adequada e atenção às vulnerabilidades econômicas e sociais do país.
4. A guerra como argumento para acelerar a transição energética
Se a guerra expõe a vulnerabilidade de um sistema internacional ainda fortemente dependente de petróleo, gás e rotas marítimas concentradas, ela também reforça a importância da transição energética como estratégia de proteção. No caso brasileiro, isso significa reconhecer que ampliar fontes renováveis, fortalecer os biocombustíveis e avançar na eletrificação de setores como transporte e mobilidade não responde apenas à agenda climática. Significa também reduzir, de forma progressiva, a dependência de combustíveis fósseis que deixam o país mais vulnerável a guerras, choques de preços e crises de abastecimento. Essa possibilidade é particularmente relevante porque o Brasil já parte de uma posição favorável no campo energético, com forte presença de fontes renováveis e condições concretas para avançar com mais rapidez do que muitos outros países.
Nesse contexto, a guerra funciona como um lembrete de que soberania energética, no século XXI, não se resume à produção de petróleo. Ela depende também da capacidade de substituir combustíveis sujeitos à volatilidade internacional por alternativas produzidas no próprio país. É nessa direção que pode ser lida a decisão do CNPE, em 2025, de ampliar a participação dos biocombustíveis nos combustíveis fósseis comercializados no Brasil. Em um cenário de instabilidade no mercado internacional, esse tipo de medida ganha importância adicional, porque reforça a busca por maior autonomia e reduz a exposição do país a crises externas.
A mesma lógica vale para a expansão da geração elétrica renovável. A transição energética não elimina automaticamente todos os riscos, mas tende a reduzir a parcela da economia mais diretamente subordinada às oscilações dos combustíveis fósseis. Em suas projeções mais recentes, a Agência Internacional de Energia (IEA) destaca que a expansão mundial das renováveis entre 2025 e 2030 deve ocorrer em ritmo mais acelerado do que no quinquênio anterior, ainda que acompanhada por novos desafios de financiamento, transmissão e integração ao sistema. Para o Brasil, isso é especialmente relevante, porque a ampliação de fontes como solar e eólica pode fortalecer a segurança energética ao diminuir, no longo prazo, a dependência de combustíveis mais vulneráveis às turbulências internacionais.
Do ponto de vista do planejamento nacional, essa aceleração não precisa ser tratada como reação improvisada a uma crise externa. O Plano Nacional de Expansão da Energia (PDE) 2034 da EPE já incorpora a transição energética como eixo explícito do planejamento brasileiro, articulando segurança do abastecimento, expansão da infraestrutura e sustentabilidade. Isso significa que a guerra não cria do nada uma nova agenda, mas torna mais visível a urgência de agendas que já estavam colocadas, como diversificação da matriz, reforço da transmissão, redução da dependência de derivados importados e maior integração entre política energética e política industrial.
Há ainda uma razão econômica importante para esse avanço. A transição não deve ser vista apenas como substituição de fontes, mas também como oportunidade de reorganizar investimentos e cadeias produtivas. Em análise publicada no fim de 2025, a IEA estimou que os investimentos globais em energia naquele ano chegariam a 3,3 trilhões de dólares, dos quais cerca de 2,2 trilhões seriam destinados a renováveis, redes, armazenamento, eficiência e eletrificação dos usos finais. Para um país como o Brasil, essa reorientação dos investimentos abre espaço para transformar vantagem natural em capacidade tecnológica, industrial e estratégica, desde que a transição seja tratada como projeto de longo prazo, e não apenas como resposta emergencial a uma conjuntura de guerra.
Em síntese, a guerra não garante por si só um avanço da transição energética, mas fortalece os argumentos a seu favor. Ela mostra, de forma difícil de ignorar, que a dependência de combustíveis fósseis continua sendo fonte de vulnerabilidade econômica e política. Para o Brasil, acelerar a transição não é apenas uma escolha ambientalmente desejável. É também uma forma de diminuir o peso estratégico dos combustíveis fósseis na economia nacional e de construir uma segurança energética menos vulnerável às turbulências do mercado internacional.
5. Limites, contradições e disputas em torno da transição
A guerra pode fortalecer o argumento em favor da transição energética, mas isso não significa que seus efeitos caminhem automaticamente nessa direção. Em momentos de crise, também cresce a pressão por respostas imediatas, centradas no aumento da oferta de combustíveis fósseis, no adiamento de metas ou na priorização exclusiva do abastecimento de curto prazo. A instabilidade internacional tanto pode acelerar mudanças estruturais quanto reforçar dependências já existentes. Por isso, segurança energética e transição precisam ser pensadas em conjunto, e não como caminhos opostos.
No caso brasileiro, uma das principais contradições está no fato de que o país reúne condições excepcionais para avançar em uma transição baseada em renováveis, mas ainda convive com gargalos importantes em combustíveis líquidos, infraestrutura e coordenação de políticas. O PDE 2034 reconhece a transição energética como eixo do planejamento nacional, ao mesmo tempo em que enfatiza a necessidade de garantir segurança de suprimento, expansão da infraestrutura e atendimento da demanda futura. Isso mostra que a transição, no Brasil, não pode ser tratada como simples substituição espontânea de fontes. Ela depende de investimento, regulação estável e capacidade de planejamento.
Há também disputas econômicas e políticas mais concretas. O debate sobre os biocombustíveis é um bom exemplo. Em 2025, o governo primeiro adiou a ampliação da mistura obrigatória, alegando preocupação com os preços dos alimentos, e meses depois aprovou seu aumento com o argumento de reduzir importações e reforçar a autossuficiência energética. Essa oscilação revela que a transição não avança em linha reta: ela atravessa disputas entre custo de vida, segurança alimentar, interesses setoriais, descarbonização e segurança energética.
Outro limite importante é que a diversificação da matriz, embora necessária, não resolve sozinha o problema da segurança energética. À medida que cresce a participação de fontes como solar e eólica, e avança o uso da eletricidade em áreas como transporte, mobilidade e parte da atividade industrial, aumentam também as exigências sobre redes, transmissão, armazenamento, integração regional e capacidade de operação do sistema. A IEA destaca que transições seguras exigem não apenas mais renováveis, mas também sistemas elétricos mais robustos, melhor governança e infraestrutura compatível com a nova configuração da demanda. Em outras palavras, a vulnerabilidade deixa de estar apenas no petróleo e passa a depender cada vez mais da qualidade do planejamento e da coordenação institucional.
Existe ainda uma contradição estratégica mais ampla. Choques geopolíticos como a guerra podem ser usados para defender uma transição mais rápida, mas também podem servir de justificativa para aprofundar a exploração de petróleo e gás sob o argumento da urgência, da arrecadação e da segurança nacional. Isso tende a produzir um discurso duplo: de um lado, fala-se em transição e liderança climática; de outro, preserva-se a centralidade dos combustíveis fósseis como resposta imediata à instabilidade internacional. O desafio brasileiro está justamente em evitar que a transição seja reduzida a discurso lateral, subordinado sempre às conveniências de curto prazo do mercado de petróleo e gás.
Por fim, há um limite social que não pode ser ignorado. Uma transição energética que não considere preços, acesso, emprego, desigualdades regionais e impacto sobre consumidores corre o risco de perder apoio social. O debate sobre segurança energética não pode se restringir ao abastecimento das empresas ou à estabilidade macroeconômica. Ele precisa incluir também o custo da energia para as famílias e a capacidade de o Estado proteger a população dos efeitos das crises internacionais. A oportunidade aberta pela guerra só se converterá em avanço real se a transição for pensada como política de longo prazo, tecnicamente consistente, economicamente viável e socialmente sustentada.
6. Soberania energética e projeto nacional
No caso brasileiro, a relação entre guerra, segurança energética e transição conduz a uma conclusão mais ampla: a energia precisa ser tratada como parte de um projeto nacional. Isso significa superar uma visão limitada, segundo a qual o debate energético se resumiria à oferta imediata de combustíveis ou à reação conjuntural aos preços internacionais. Em um cenário global marcado por guerras, tensões comerciais, instabilidade climática e disputa tecnológica, segurança energética passou a envolver, ao mesmo tempo, capacidade de abastecimento, estabilidade de preços, robustez da infraestrutura, autonomia decisória e inserção estratégica do país na nova economia da energia.
Para o Brasil, essa discussão é especialmente decisiva porque o país reúne condições raras para transformar vulnerabilidade em vantagem estratégica. A IEA vem apontando o Brasil como um dos casos mais promissores entre as grandes economias em razão da forte presença de renováveis, da relevância dos biocombustíveis e do potencial de liderança no diálogo internacional sobre energia e clima. Ao mesmo tempo, o governo federal tem buscado apresentar a transição energética como eixo de atração de investimentos, inovação e desenvolvimento sustentável. Isso mostra que a transição pode ser mais do que resposta defensiva a choques externos: ela pode ser tratada como plataforma de desenvolvimento, política industrial e reposicionamento internacional do país
Mas essa possibilidade só ganha consistência se a ideia de soberania energética for compreendida de forma mais complexa. Não basta produzir petróleo, ampliar exportações ou anunciar liderança climática. Soberania energética, em sentido forte, exige capacidade de reduzir dependências críticas, ampliar o conteúdo nacional das novas cadeias, planejar a expansão da infraestrutura, integrar geração, transmissão, armazenamento e eficiência, além de proteger a população contra os efeitos sociais das crises. O planejamento estratégico da EPE para 2025–2029 vai nessa direção ao associar explicitamente segurança energética, sustentabilidade, inovação e visão de longo prazo. Da mesma forma, o debate recente sobre transição energética justa no âmbito federal indica que a questão não pode ser tratada apenas em termos tecnológicos, mas também considerando desigualdades sociais e realidades regionais.
Essa perspectiva é importante porque ajuda a evitar dois reducionismos frequentes. O primeiro é imaginar que segurança energética se resolve apenas com mais oferta fóssil. O segundo é supor que a transição energética, por si só, resolve automaticamente os problemas de vulnerabilidade. Na prática, o desafio brasileiro está em construir uma transição que fortaleça a autonomia do país sem reproduzir novas dependências, seja de tecnologia, financiamento, minerais estratégicos ou infraestrutura insuficiente. O mundo da transição também traz novas disputas em torno de minerais críticos, redes elétricas, armazenamento e cadeias industriais, o que torna ainda mais necessário pensar a transição como estratégia de Estado, e não apenas como ajuste setorial.
É nesse sentido que a guerra, embora trágica em seus efeitos humanos e políticos, produz um ensinamento estratégico para o Brasil. Ela mostra que a forte dependência de combustíveis fósseis e de mercados externos instáveis continua sendo fonte de fragilidade econômica e política, inclusive para países que dispõem de recursos energéticos abundantes. Ao mesmo tempo, evidencia que a vantagem brasileira em renováveis, biocombustíveis e potencial industrial só se converterá em força real se for organizada por meio de planejamento público, coordenação institucional e visão de longo prazo. A segurança energética do futuro, portanto, não dependerá apenas de reagir bem às crises, mas de construir, antes delas, um sistema mais diversificado, menos vulnerável e socialmente orientado. É aí que a transição energética deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a se afirmar como parte de um projeto nacional de soberania, voltado a reduzir a dependência de combustíveis fósseis e a construir uma economia menos vulnerável a choques externos
Fontes consultadas
Agência Internacional de Energia (IEA). Relatórios e análises publicados entre 2025 e 2026 sobre segurança energética, transição energética, cenário global da energia, expansão das renováveis e perfil energético do Brasil.
Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e Governo Federal. Resoluções e comunicações oficiais de junho de 2025 sobre o aumento da mistura obrigatória de etanol e biodiesel.
Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Balanço Energético Nacional 2025, PDE 2034, boletins setoriais, Atlas de Eficiência Energética 2025 e Planejamento Estratégico 2025–2029.
Jornais da imprensa brasileira, com destaque para o Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, especialmente na primeira quinzena de março de 2026, sobre os efeitos imediatos da guerra no mercado de combustíveis e no abastecimento de diesel no Brasil.
Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Informações do Plano da Operação Energética 2025, sobre crescimento da carga de energia e exigências do sistema elétrico brasileiro.
U.S. Energy Information Administration (EIA). Dados de março de 2026, sobre corredores estratégicos de petróleo e gás, com destaque para o Estreito de Ormuz.
UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Documento de março de 2026 sobre os impactos das perturbações no Estreito de Ormuz.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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