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Artigo

A China investe pesado na Iniciativa Cinturão e Rota

 

De modo geral, no plano internacional, a China está jogando o jogo do mercado e quem não consegue competir vai ter que partir para o protecionismo

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A China é o país que apresentou as maiores taxas de crescimento econômico da história, após as reformas de Deng Xiaopeng. O Gigante Asiático deixou de ser uma nação pobre, rural, agrária e isolada, para se tornar um país de renda média, urbano-industrial e altamente integrada no comércio internacional.

Em 1980, as exportações da China foram de somente US$ 18,1 bilhões, representando 0,9% das exportações globais, com saldo comercial negativo de – US$ 1,8 bilhão. Em 1984, o Brasil exportou mais que a China (US$ 27 bilhões) com saldo comercial de US$ 12 bilhões, enquanto os chineses exportaram US$ 26 bilhões, com déficit comercial de US$ 1,3 bilhão. Mas, em 1991, a China exportou US$ 72 bilhões, representando 2% das exportações globais (mais do dobro das exportações brasileiras que foram de US$ 31,6 bilhões).

No ano 2000, a China exportou US$ 250 bilhões (representando 4% do comércio internacional), com saldo de US$ 24 bilhões. Em 2005, as exportações da China chegaram a US$ 762 bilhões (7,3% do total global), com superávit de US$ 102 bilhões. Em 2015, as exportações chinesas deram um salto para US$ 2,3 trilhões (13,7% do total global), com saldo comercial de US$ 593 bilhões. Em 2025, as exportações da China atingiram US$ 3,75 trilhões, com saldo comercial de cerca de US$ 1,2 trilhão, representando 15% das exportações globais e cerca de 17 vezes o saldo comercial do Brasil. O crescimento foi impulsionado principalmente por setores de alto valor agregado, como veículos elétricos, tecnologia verde, semicondutores e construção naval.

Como a China tem altas taxas de poupança e investimento ela não precisa utilizar estes abundantes recursos do superávit fiscal e do superávit em transações correntes. Para evitar uma valorização cambial a China precisa reciclar os dólares obtidos, aplicando os recursos nos países deficitários (como os EUA) e no restante do mundo.

A Iniciativa Cinturão e Rota — Belt and Road Initiative (BRI) — não é apenas um megaprojeto de infraestrutura. Ela funciona, simultaneamente como mecanismo internacional de reciclagem dos superávits comerciais da China e como estratégia geoeconômica para criar uma cadeia global de produção centrada na China, como instrumento de projeção de poder e influência política, como forma de garantir segurança energética, logística e tecnológica para as próximas décadas.

Durante os anos 1980–2010, o país reciclou esses dólares principalmente comprando Treasuries (títulos do governo dos EUA) e ativos financeiros em países centrais. Mas isso tinha limites claros, como dependência excessiva dos EUA, baixo retorno financeiro, risco geopolítico (congelamento de ativos, como aconteceu com a Rússia), incapacidade de usar esses dólares para gerar influência direta.

A partir de 2013, com o lançamento da BRI, a China começou a reciclar seus dólares de uma forma mais estratégica:

  1. Financiando infraestrutura em dezenas de países usando bancos estatais como China Development Bank (CDB), Export-Import Bank of China (ExIm) e Silk Road Fund. A China empresta dólares para estes países construírem portos, ferrovias, rodovias, hidrelétricas, redes de telecom, cabos submarinos e zonas industriais, parques de exportação.

  2. Empresas chinesas fazem as obras e recebem dólares de volta – a China empresta dólares às nações parceiras, o país usa o dinheiro para contratar empresas chinesas e estas recebem de volta os dólares e a dívida externa fica com o país parceiro. É como “exportar capital” mas mantendo o ciclo dentro da órbita chinesa.

  3. Esses projetos aumentam demanda futura por produtos chineses – os investimentos em infraestrutura e produção da China nos diversos países do mundo cria dependência de equipamentos chineses, peças de reposição, tecnologia, empresas de engenharia e mão de obra especializada. Ou seja: cada dólar investido fora potencialmente aumenta as exportações futuras.

Desta forma, a BRI é uma estratégia para criar uma cadeia global de produção centrada na China, que evoluiu do modelo “oficina do mundo” para centro coordenador das cadeias globais. Uma das prioridades é o investimento em energia renovável e na descarbonização da cadeia produtiva. A BRI é o instrumento que torna essa coordenação estrutural. O mundo se torna multipolar na infraestrutura e comércio. E neste campo a China já é dominante.

A matéria do jornal britânico Financial Times (FT), “Beijing pours cash into Belt and Road financing in global resources grab” (White, 18/01/2026) mostra que a China investe pesado no financiamento da Iniciativa Cinturão e Rota em uma corrida global por recursos e pela construção de uma cadeia global de produção, especialmente na área de energia.

Segundo o jornal britânico, o programa de financiamento de infraestrutura internacional da China, a Iniciativa Cinturão e Rota, aumentou em três quartos, atingindo o recorde de US$ 213,5 bilhões em 2025. Pequim busca aproveitar a influência vacilante dos EUA no mundo, investindo fortemente em projetos de desenvolvimento. O aumento nos novos contratos de investimento e construção foi dominado por megaprojetos de gás e energia limpa, segundo pesquisa da Universidade Griffith, na Austrália, e do Centro de Finanças e Desenvolvimento Verde, em Xangai.

Pequim assinou 350 contratos no ano passado, contra 293, totalizando US$ 122,6 bilhões, em 2024. O boom de investimentos ocorre em um momento em que as tensões entre os EUA e a China sobre comércio e tecnologia interrompem as cadeias de suprimentos e as intervenções militares do presidente Donald Trump agitam os mercados globais de energia. Christoph Nedopil Wang, especialista em energia e finanças da China na Universidade Griffith e autor do estudo, previu que os gastos de Pequim com a BRI aumentarão ainda mais este ano, impulsionados por investimentos em energia, mineração e novas tecnologias.

A BRI, lançada meses após a ascensão de Xi Jinping, ao poder em 2012, é o programa de desenvolvimento externo emblemático do líder chinês, buscando aprofundar a influência econômica e os laços comerciais de Pequim com o mundo em desenvolvimento. A iniciativa tornou a China o maior credor bilateral do mundo, com 150 países como parceiros. Os números do ano passado elevaram o valor acumulado total dos contratos e investimentos da BRI desde o seu lançamento para US$ 1,4 trilhão, segundo o estudo.

O crescimento em 2025 foi impulsionado por megaprojetos multibilionários, incluindo um projeto de desenvolvimento de gás na República do Congo liderado pela Southernpec, o Parque Industrial da Revolução do Gás de Ogidigben, na Nigéria, liderado pela China National Chemical Engineering, e uma planta petroquímica em Kalimantan do Norte, Indonésia, liderada por uma joint venture chinesa entre o Grupo Tongkun e o Grupo Xinfengming.

O valor dos projetos relacionados à energia no ano passado foi de US$ 93,9 bilhões, o maior desde o início da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) e mais que o dobro do nível de 2024. Isso incluiu US$ 18 bilhões em projetos de energia eólica, solar e de conversão de resíduos em energia, ressaltando a liderança da China em tecnologia limpa. Os setores de metais e mineração também atingiram um recorde de US$ 32,6 bilhões, incluindo a maior parte dos gastos com processamento de minerais no exterior, destacando como Pequim tem usado a BRI para garantir o acesso a longo prazo aos recursos. Isso incluiu um aumento nos investimentos em cobre no segundo semestre do ano.

china valor dos projetos relacionados à energia

O engajamento da China no exterior está cada vez mais focado em setores estratégicos que apoiam a autossuficiência, a resiliência da cadeia de suprimentos e a integração tecnológica. Isto reforça a liderança da China no refino de “terras raras” e representa um trunfo na disputa comercial e na guerra tarifária implantada por Donald Trump. Agora em 2026, o governo chinês aprendeu a lição diante da ação dos EUA na Venezuela e das ameaças contra o Irã.

Desta forma, a estratégia chinesa de reciclar seu gigantesco superávit externo por meio da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) pode ser entendida como uma resposta sofisticada — e multifuncional — às tensões estruturais da economia política global. Ela articula, ao mesmo tempo, objetivos macroeconômicos, geopolíticos, industriais e monetários, funcionando como um mecanismo de gestão do excedente, de projeção de poder e de redução de vulnerabilidades externas.

Do ponto de vista macroeconômico e cambial, a reciclagem de dólares via investimentos externos ajuda a China a administrar o dilema clássico de grandes superavitários (“doença holandesa”): como evitar uma apreciação excessiva do câmbio que prejudique a competitividade industrial. Ao direcionar parte relevante do excedente para investimentos produtivos no exterior — em vez de apenas acumular Treasuries — Pequim reduz pressões sobre o renminbi, diversifica seus ativos externos e diminui sua dependência do sistema financeiro norte-americano, justamente em um contexto de sanções, tarifas e crescente “militarização” do dólar.

No plano geoeconômico, a BRI opera como uma estratégia de integração vertical e horizontal das cadeias globais de valor. Ao investir em infraestrutura logística, energética e digital — portos, ferrovias, corredores industriais, redes elétricas e cabos de dados — a China não apenas garante acesso a recursos naturais críticos (minérios, energia, alimentos), mas também molda os fluxos físicos e institucionais do comércio internacional. Trata-se menos de “controle direto” e mais de capacidade estrutural de influência, no sentido de definir padrões, reduzir custos de transação para parceiros e criar dependências assimétricas de longo prazo.

Do ponto de vista industrial e tecnológico, a BRI complementa a estratégia doméstica chinesa de avançar na escalada produtiva. Ela cria mercados externos para o excesso de capacidade de setores como aço, cimento, construção pesada e, mais recentemente, para empresas de energia renovável, veículos elétricos, telecomunicações e tecnologia digital. Ao mesmo tempo, permite à China contornar barreiras comerciais impostas pelos EUA e seus aliados, deslocando parte da produção e da montagem para países parceiros, o que enfraquece a eficácia das tarifas de Trump e da lógica de desacoplar.

A China está avançando profundamente pela Ásia Central, substituindo o poder e a influência tradicionais da Rússia. Durante grande parte do período pós-Guerra Fria, a Ásia Central funcionou como um “condomínio administrado” — um arranjo geopolítico em que a Rússia fornecia a segurança militar e a China atuava como o parceiro econômico dominante. A guerra na Ucrânia não rompeu essa parceria sino-russa, mas alterou fundamentalmente seu equilíbrio interno. O condomínio evoluiu para uma interdependência assimétrica, onde as redes econômicas da China ditam os termos da ordem regional e a capacidade da Rússia de exercer um veto regional diminuiu rapidamente.

Geopoliticamente, o avanço recorde da BRI em 2025 reforça a posição chinesa na guerra comercial ao oferecer uma alternativa sistêmica à ordem liderada pelos EUA. Não se trata apenas de volumes de investimento, mas da construção de um ecossistema institucional paralelo: bancos de desenvolvimento chineses, contratos em moedas locais, maior uso do renminbi em comércio e financiamento, e acordos bilaterais que reduzem a centralidade das instituições de Bretton Woods. Isso não significa a substituição imediata da ordem existente, mas sim um processo gradual de erosão da hegemonia ocidental e de transição para um sistema mais multipolar.

Os impactos globais dessa estratégia são ambíguos e profundamente desiguais. Para muitos países do Sul Global, a BRI oferece acesso a financiamento e infraestrutura que não encontravam em outras fontes, acelerando crescimento e integração regional. Ao mesmo tempo, surgem riscos claros: aumento do endividamento externo, dependência excessiva de um único parceiro, impactos ambientais e conflitos distributivos internos. Já para os EUA e a Europa, a estratégia chinesa representa um desafio direto não apenas comercial, mas estrutural, pois desloca o centro de gravidade da economia mundial para o Sul Global e limita a eficácia de instrumentos tradicionais de pressão econômica.

No início de março de 2026, o presidente chinês Xi Jinping, também secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central, enfatizou que, para cumprir as metas de desenvolvimento do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), a China precisa navegar em um ambiente mais complexo e resolver contradições mais profundas. A meta de crescimento quantitativo do PIB para o próximo período ficou entre 4,5% e 5%.

Falando sobre o desenvolvimento de novas forças produtivas de qualidade e o avanço do desenvolvimento de alta qualidade, Xi delineou as “quatro notícias”: alcançar novos avanços, explorar novos caminhos, abrir novas perspectivas e garantir novas conquistas. Desenvolver novas forças produtivas de qualidade não é apenas uma revolução tecnológica, mas também um profundo ajuste das relações de produção. A China compreende plenamente que, para liberar o enorme potencial de suas forças produtivas, precisa enfrentar os obstáculos arraigados à inovação e romper as barreiras que dificultam o fluxo de recursos e restringem a criatividade. Isso demonstra não apenas visão estratégica, mas também grande equilíbrio estratégico.

A China bateu todos os recordes comerciais em 2025. Mas a onda chinesa não arrefeceu e o superávit comercial aumentou 25% no bimestre janeiro-fevereiro de 2026, segundo dados divulgados no dia 10 de março de 2026 e apresentados no gráfico abaixo.

exportações importações e saldo comercial da china

Na verdade, a China tem altas taxas de poupança e investimento e isto turbina a economia chinesa que passa a ter oferta maior do que a demanda. Como tem uma economia produtiva, competitiva e que investiu em uma cadeia global de valor (Nova Rota da Seda) ela consegue desovar o excedente de produção para o resto do mundo. Para evitar que o excesso de dólares valorize a taxa de câmbio ela empresta estes dólares para quem compra seus produtos e contrata suas empresas de infraestrutura.

De modo geral, no plano internacional, a China está jogando o jogo do mercado e quem não consegue competir vai ter que partir para o protecionismo. Nos 250 anos do livro A Riqueza das Nações (lançado em 09 de março de 1776) a Europa e os EUA estão abandonando o liberalismo comercial de Adam Smith para criar uma barreira de comércio contra a força liberal da China comunista. O mundo deu voltas.

Em síntese, o menor crescimento do PIB e a reciclagem do superávit via BRI revela uma China que não está apenas reagindo à guerra comercial de Trump, mas reorganizando ativamente a globalização em torno de seus próprios interesses e capacidades. No longo prazo, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã deve beneficiar a China, pois enquanto Trump investe em um petroestado, Xi Jinping investe em um eletroestado. O aumento do preço dos combustíveis fósseis deve favorecer os investimentos na transição energética, onde a China tem grande vantagem competitiva.

O mundo caminha, assim, para um cenário em que o conflito central não é mais apenas entre livre-comércio e protecionismo, mas entre modelos distintos de integração global, com implicações duradouras para desenvolvimento, soberania e governança internacional.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A ascensão da China, a disputa pela Eurásia e a Armadilha de Tucídides. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves, IHU, 21/07/2018

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/580107-a-ascensao-da-china-a-disputa-pela-eurasia-e-a-armadilha-de-tucidides-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-diniz-alves

ALVES, JED. A China está vencendo a guerra comercial. Ecodebate, 05/02/2021

https://www.ecodebate.com.br/2021/02/05/a-china-esta-vencendo-a-guerra-comercial/

ALVES, JED. Transição demográfica e transição energética fez a China atingir o pico das emissões. Ecodebate, 12/02/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/02/12/transicao-demografica-e-transicao-energetica-fez-a-china-atingir-o-pico-das-emissoes/

ALVES, JED. A China está sorrindo da “curva do sorriso” . Ecodebate, 12/01/2026

https://www.ecodebate.com.br/2026/01/12/a-china-esta-sorrindo-da-curva-do-sorriso/

Edward White. Beijing pours cash into Belt and Road financing in global resources grab, FT, 18/01/2026

https://www.ft.com/content/ab8ef57c-66b6-456b-9c20-e5d8896fa759

 

Citação
EcoDebate, . (2026). A China investe pesado na Iniciativa Cinturão e Rota. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/03/18/a-china-investe-pesado-na-iniciativa-cinturao-e-rota/ (Acessado em março 18, 2026 at 09:25)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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