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Artigo

Recife: a capital estadual mais antiga e a mais envelhecida do Nordeste

 

A “Veneza Brasileira” tem a oportunidade única de se tornar um laboratório vivo de soluções intergeracionais

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A cidade do Recife foi fundada em 12 de março de 1537, sendo a sede político-administrativa mais antiga entre as atuais capitais brasileiras. A capital de Pernambuco tem uma área 219 km2 e, em 2022, uma densidade demográfica de 6.804 habitantes por km2. Em 2026, a cidade ganhou destaque internacional com o filme “Agente Secreto”, que está indicado em quatro categorias no Oscar 2026. A produção de Kleber Mendonça concorre nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator (Wagner Moura). A cerimônia de entrega das estatuetas ocorre em 15 de março.

A formação da cidade do Recife está intimamente ligada à própria história da colonização portuguesa no Nordeste e ao papel estratégico de Pernambuco na economia colonial. Inicialmente, Recife surgiu no século XVI como um porto natural e um arraial de pescadores a serviço de Olinda, fundada em 1535 e primeira capital da Capitania de Pernambuco. Em 1537, com a instalação do porto do Recife, a localidade passou a ganhar importância como entreposto comercial, sobretudo para o escoamento do açúcar produzido nos engenhos da região. Sua posição geográfica privilegiada — protegida por arrecifes naturais que lhe deram o nome — favoreceu o crescimento das atividades mercantis, a presença de comerciantes, artesãos e trabalhadores livres, diferenciando desde cedo o Recife de outras cidades coloniais mais aristocráticas e rurais.

O grande ponto de inflexão na formação urbana do Recife ocorreu durante o período da ocupação holandesa (1630–1654). Sob o governo de Maurício de Nassau, a cidade foi profundamente transformada e planejada, recebendo pontes, canais, ruas pavimentadas, edifícios públicos, observatório astronômico e jardins. A chamada Mauritsstad marcou o Recife como uma das primeiras experiências de urbanismo moderno nas Américas, consolidando sua vocação urbana, comercial e cosmopolita. Após a expulsão dos holandeses, o Recife manteve seu dinamismo econômico e populacional, frequentemente em tensão com Olinda, até ser elevado à condição de vila em 1710.

Em 1827, já no período imperial, o Recife tornou-se oficialmente a capital da Província de Pernambuco, substituindo Olinda de forma definitiva. A partir daí, consolidou-se como centro político, administrativo, cultural e econômico da região, atraindo fluxos contínuos de população, investimentos e instituições.

A população do Recife era de 116,7 mil habitantes em 1872 (primeiro censo demográfico brasileiro). Estava atrás apenas do Rio de Janeiro (275 mil habitantes) e de Salvador (129 mil habitantes), mas estava muito à frente de São Paulo (31 mil habitantes). Belo Horizonte nem existia nesta época.

A população do Recife caiu para 113 mil habitantes em 1900, mas deu um salto para 524,7 mil habitantes em 1950. Avançou ainda mais na segunda metade do século passado e chegou a 1,42 milhão de habitantes no ano 2000. Em 2010 a população recifense passou para 1,54 milhão de habitantes, mas caiu para 1,49 milhão de habitantes em 2022. Mas o censo demográfico 2022 teve uma falha de cobertura e a estimativa populacional do próprio IBGE apontou uma população de 1,59 milhão de habitantes em 2024, conforme mostra o gráfico abaixo.

Na atual década, em termos populacionais, a capital de Pernambuco é a terceira maior cidade do Nordeste (atrás apenas de Fortaleza e Salvador) e a nona cidade do Brasil.

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A redução do ritmo de crescimento populacional nos anos 2000 foi acompanhada de um envelhecimento da estrutura etária. O gráfico abaixo mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil, e o estado de Pernambuco e a cidade do Recife entre 1970 e 2022. Todas as áreas geográficas tinham uma estrutura etária jovem em 1970, mas o IE aumentou acentuadamente. Em 2022, o IE chegou a 80 idosos de 60 anos e + para cada 100 jovens no Brasil. Ficou em 70 no estado de Pernambuco e ultrapassou 100 idosos por 100 jovens em Recife. Ou seja, a partir de 2022 Recife passou a ter mais idosos do que jovens (0-14 anos).

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O gráfico abaixo mostra a pirâmide etária brasileira (colunas cinzas no fundo) e a pirâmide etária da cidade do Recife (parte colorida e sobreposta), em 2022. Nota-se que abaixo dos 50 anos existe maior proporção de jovens no Brasil, enquanto acima de 50 anos há mais idosos em Recife.

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O gráfico abaixo mostra que o percentual da população do Recife de 0-14 anos já vem diminuindo desde 1970, caindo para menos da metade chegando a 17,7% em 2022. No último censo, o percentual de idosos (60+) empatou com o percentual de crianças e adolescentes. A população de 15-59 anos subiu de 55,1% em 1970 para 67,2% em 2010 e caiu para 64,6% em 2022. Portanto, a população considerada em idade ativa já vem diminuindo, a população idosa (60+) chegou a 17,7%, a população 50+ chegou a 30,8% e a população 70+ chegou a 8% em 2022.

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Portanto, a cidade do Recife atualmente já possui mais idosos (60+) do que jovens de 0-14 anos e a população considerada em idade ativa já está diminuindo em termos absoluto e relativo. Essa configuração demográfica traz desafios, mas também oportunidades.

Os desafios e oportunidades do envelhecimento populacional do Recife

O aumento da expectativa de vida ao nascer é uma vitória extraordinária sobre as altas taxas de mortalidade precoce. A queda nas taxas de fecundidade representa a maior mudança de comportamento de massa na história da humanidade. Desta forma, o envelhecimento populacional pode ser considerado uma conquista civilizacional. Contudo, há desafios e oportunidades.

O principal desafio do envelhecimento populacional é o fim do 1º bônus demográfico, pois o número e a proporção de pessoas de 15 a 59 anos já está diminuindo na capital pernambucana e este fato pode se desdobrar em uma crise fiscal se o país e as cidades continuarem a pensar a relação entre as gerações de maneira fixa. O antigo roteiro de vida com jovens estudando, adultos trabalhando e idosos aposentados perde força diante de uma população que vive mais e deseja continuar ativa, produtiva, colaborativa e integrada.

Indubitavelmente, há novas oportunidades de progresso. O 2º bônus demográfico – ou bônus da produtividade – é um evento capaz de gerar frutos indefinidamente se houver investimentos na educação, na saúde, na infraestrutura que possibilite aos trabalhadores produzirem mais bens e serviços com menos insumos humanos e ambientais. O 3º bônus demográfico – ou bônus da longevidade – que se refere ao potencial econômico, social e institucional que emerge quando uma sociedade passa a ter maior proporção de pessoas idosas, sobretudo em contextos de maior expectativa de vida saudável.

Uma sociedade envelhecida não está condenada ao declínio. O 2º e o 3º bônus demográficos mostram que, com políticas adequadas, a longevidade pode ampliar a produtividade (via experiência e capital humano), a inovação (novos mercados e tecnologias) e a coesão social (mais tempo de contribuição cívica e cultural). A Economia Prateada será a alternativa do futuro.

Aproveitar as oportunidades dessa nova conjuntura demográfica e ao mesmo tempo garantir dignidade, inclusão e autonomia aos idosos envolve uma abordagem multidimensional e uma atuação no âmbito local. Uma estratégia-chave para transformar o Recife em uma Cidade Amiga da Pessoa Idosa, alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), envolve:

  • Infraestrutura Urbana Inclusiva: a) Ampliar calçadas acessíveis, rampas, sinalização sonora, ônibus com piso baixo e prioridade real no transporte público. Integrar o sistema de transporte com pontos de descanso e banheiros públicos adaptados; b) Parques, praças e centros culturais devem ser projetados com bancos, sombra, iluminação adequada e pisos antiderrapantes e c) Incentivar a adaptação de moradias (ex.: eliminação de degraus, barras de apoio) e promover habitação intergeracional ou coletiva voltada para idosos.

  • Saúde e Cuidado Integral: a) Fortalecer a Atenção Primária à Saúde com equipes treinadas em geriatria e gerontologia; b) Expandir programas de prevenção de quedas, vacinação, saúde mental e cuidados paliativos e c) Criar redes de cuidado domiciliar e telemedicina para idosos com mobilidade reduzida.

  • Participação Social e Cidadania: a) Garantir representação de idosos em conselhos municipais e fóruns de planejamento urbano; b) Promover atividades culturais, esportivas e educacionais voltadas para todas as idades, evitando a segregação etária e c) Combater o etarismo por meio de campanhas educativas nas escolas e na mídia.

  • Governança e Políticas Públicas Integradas: a) Adotar o Plano Municipal do Idoso com metas claras e orçamento vinculado; b) Alinhar ações com a Rede de Cidades Amigas da OMS, buscando para o Recife o protagonismo que a capital merece no cenário regional; c) Usar dados georreferenciados para orientar investimentos em bairros com maior densidade de idosos (ex.: Casa Forte, Graças ou áreas periféricas com maior vulnerabilidade).

  • Oportunidades Únicas do Recife: a) Posicionar a cidade como destino turístico acessível, explorando o potencial do Recife Antigo e da Orla de Boa Viagem com rotas adaptadas; b) Revitalizar espaços como os Mercados Públicos e o Pátio de São Pedro com programações intergeracionais e festivais de cultura popular que unam jovens e veteranos; c) Utilizar o ecossistema do Porto Digital para o desenvolvimento de AgeTechs (tecnologias para o envelhecimento) voltadas à saúde e segurança.

  • Economia Prateada: a) Estimular o empreendedorismo sênior e negócios de impacto voltados à longevidade; b) Qualificar a mão de obra local para o mercado de cuidados e serviços especializados, transformando o setor de serviços do Recife em uma referência de atendimento humanizado.

Em suma, o envelhecimento populacional não deve ser lido como um fardo fiscal, mas como o amadurecimento social da capital pernambucana. Para que o Recife se consolide efetivamente como uma Cidade Amiga da Pessoa Idosa, é imperativo que a gestão pública e a sociedade civil transcendam a visão assistencialista e adotem uma postura estratégica.

Ao integrar infraestrutura urbana inclusiva, o potencial inovador do Porto Digital e o fomento à Economia Prateada, a “Veneza Brasileira” tem a oportunidade única de se tornar um laboratório vivo de soluções intergeracionais. O sucesso dessa transição dependerá da nossa capacidade de enxergar o cidadão longevo não como alguém que se retira da cena pública, mas como um agente vital para a produtividade e a coesão social.

Afinal, uma cidade que se prepara para envelhecer com dignidade é, em última análise, uma cidade melhor para todas as idades.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. O envelhecimento populacional é uma conquista histórica, Ecodebate, 14/05/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/05/14/o-envelhecimento-populacional-e-uma-conquista-historica/

ALVES, JED. Diversidade etária e Economia Prateada, Ecodebate, 04/06/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/06/04/diversidade-etaria-e-economia-prateada/

ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022

https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Recife: a capital estadual mais antiga e a mais envelhecida do Nordeste. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/03/11/recife-a-capital-estadual-mais-antiga-e-a-mais-envelhecida-do-nordeste/ (Acessado em março 11, 2026 at 12:49)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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