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Artigo

China versus EUA: decrescimento populacional e inovação tecnológica

 

Cabe perguntar se o declínio demográfico pode funcionar como um “choque de escassez” que acelera inovação e reorganiza a relação entre economia e ecologia

José Eustáquio Diniz Alves

Existe uma tradição na teoria econômica que sugere que populações maiores ou em crescimento geram mais ideias e mais inovações tecnológicas. Assim, populações em crescimento gerariam maior desenvolvimento econômico, maior produtividade e maior bem-estar social. A relação seria a seguinte:

  • mais pessoas e mais jovens → mais potenciais inventores

  • maior mercado → maior retorno esperado da inovação

  • mais interações → maior difusão de conhecimento

Porém, esta relação pode ser contestada com exemplos simples de países como Nigéria, Paquistão e Etiópia que possuem elevado crescimento populacional, contam com uma ampla população jovem, mas não apresentam inovações proporcionais à dinâmica demográfica. A Índia – nação mais populosa do mundo atualmente – também não apresenta inovações tecnológicas correspondentes à sua força demográfica.

Mas é interessante examinar o caso da China e dos Estados Unidos da América (EUA) que são as duas maiores potências econômicas do mundo no século XXI.

O gráfico abaixo mostra a taxa de variação anual da população da China e dos EUA entre 1950 e 2100, com dados da Divisão de População da ONU. Nota-se que a China tinha uma taxa de crescimento anual da população bem acima da taxa estadunidense na maior parte da segunda metade do século XX. Mas esta relação mudou no século XXI e a China já apresenta taxas de variação negativas a partir de 2022.

A China também já apresenta uma estrutura etária mais envelhecida em 2026, com idade mediana de 41 anos, contra 39 anos para os EUA. As projeções para 2100 indicam uma idade mediana de 45 anos nos EUA e 61 anos na China.

taxa de variação anual da população china e eua

Com este perfil demográfico e considerando que os EUA possuem uma renda per capita muito superior do que o poder de compra médio dos chineses, era de se esperar uma inovação tecnológica muito mais avançada no território norte-americano.

Contudo, a China superou os EUA em número de pedidos de patentes, segundo dados oficiais de organizações como a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO). Em 2024, a China recebeu cerca de 1,8 milhão de pedidos de patente, posição líder mundial, representando quase 50% de todos os pedidos no mundo. O número é mais de três vezes maior que os pedidos nos EUA. 

Os EUA estão em segundo lugar, conforme dados do USPTO (Escritório de Patentes e Marcas dos EUA), pois teve cerca de 603 mil pedidos de patente em 2024, bem abaixo da China. A China continuou aumentando o número de pedidos de patentes ano após ano (crescimento de cerca de 9% em 2024 sobre 2023), enquanto o crescimento nos EUA tem sido muito mais lento. 

As patentes concedidas também refletem liderança chinesa. Em 2024, a China concedeu mais de 1 milhão de patentes, enquanto os EUA concederam cerca de 320 mil. A China lidera claramente em quantidade de pedidos e patentes emitidas. Nos EUA, embora haja menos pedidos, muitos vêm de não residentes (acima de metade) — ou seja, empresas estrangeiras também depositam patentes lá, algo pode indicar maior integração global do sistema americano. 

A participação da China no total global cresceu de cerca de 34,6% em 2014 para quase 50% em 2024. Nos EUA, apesar de ainda ser o segundo maior solicitante, o crescimento tem sido modesto ou até estagnado em alguns anos. 

Patentes são um indicador de inovação e competitividade tecnológica. Grandes volumes podem indicar prioridades de política industrial e investimentos fortes em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). A China usa várias políticas (incluindo incentivos financeiros e metas nacionais de inovação) que encorajam altas taxas de pedidos de patentes.

Nos EUA, o foco costuma ser em qualidade, aplicação internacional e impacto tecnológico, mais do que apenas volume. O crescimento das patentes na China contribuiu para que, em 2025, o país entrasse no top 10 do Índice Global de Inovação, substituindo a Alemanha, graças a pesados investimentos em P&D e patentes internacionais. 

Desta forma, a China agora lidera o mundo em número de pedidos e patentes emitidas. Os EUA permanecem fortes, mas atrás em volume total e com crescimento mais lento. A China também avança na quantidade e na qualidade das melhores universidades do mundo. A diferença reflete diferentes estratégias nacionais de inovação.

Mas qual é a relação entre dinâmica demográfica e inovação tecnológica?

Evidentemente, o que importa para inovação não é apenas o tamanho ou o crescimento populacional, pois população não é igual a força de inovação. O caso recente China vs. EUA mostra que a relação não é mecânica nem automática.

O maior crescimento demográfico da China ocorreu na década de 1960 – durante a Revolução Cultural – época em que a economia chinesa retrocedeu em termos econômicos e regrediu em termos de inovação tecnológica. A partir da década de 1970 a população chinesa começou a reduzir as taxas de crescimento populacional e iniciou o decrescimento demográfico a partir de 2022. O processo de inovação científico-tecnológico da economia chinesa coincidiu com a redução ou a inversão do crescimento populacional.

A China, mesmo com população em declínio, tem: Investimento em P&D superior a 2,5% do PIB; Forte política estatal de inovação (Made in China 2025, IA, semicondutores); Grande massa de engenheiros e cientistas e Incentivos diretos para registro de patentes e a maior base de engenheiros do mundo.

A China está mostrando que é possível manter forte dinamismo tecnológico mesmo com início de declínio populacional. A relação entre população e inovação existe, mas é mediada por instituições, educação e estratégia tecnológica. População é condição potencial; política e capital humano são condições efetivas. As altas taxas de poupança e investimento da China são os principais motores da inovação e do aumento da produtividade.

Em 2022 escrevi o artigo “População e avanços científicos e tecnológicos”, aqui no Portal Ecodebate (Alves, 16/05/2022). De fato, houve uma coincidência entre o alto crescimento demográfico e as inovações tecnológicas após o início da Revolução Industrial e Energética.

Porém, o gráfico abaixo mostra que, se os avanços científicos e tecnológicos foram espetaculares enquanto crescia o ritmo de aumento demográfico até 1968 (auge das taxas de crescimento), as conquistas dos últimos 50 anos foram ainda maiores. Todas as inovações da Internet, Robótica e Inteligência Artificial ocorrem num quadro de diminuição das taxas de crescimento demográfico global.

Ou seja, se os dois fenômenos caminhavam juntos no passado, o futuro indica que os avanços científicos e tecnológicos devem continuar de forma acelerada, mesmo em um cenário de decrescimento demográfico: a Rússia, por exemplo, já tem uma população em declínio desde a década de 1990 e a China desde 2022, assim como Coreia do Sul, Taiwan, Japão e a maioria dos países europeus.

taxa anual de crescimento da população e avanços tecnológicos

Ou seja, a diminuição da população pode ser um incentivo inédito ao avanço científico e tecnológico, pois a humanidade vai ter que aumentar a produtividade do trabalho em decorrência da menor proporção de jovens e de pessoas em idade ativa. Os avanços da engenhosidade humana devem ocorrer num quadro de diminuição da presença humana e de aumento da regeneração ecológica.

No passado os inovadores da Primeira e Segunda Revolução Industrial eram jovens, porque a estrutura etária dos países era jovem e as inovações dependiam da iniciativa e do empreendedorismo individual. Mas na estrutura etária e produtiva atual as inovações são obra de equipes multidisciplinares e multigeracionais, além das altas taxas de investimento e de empresas altamente capitalizadas.

Por fim, cabe perguntar se o declínio demográfico pode funcionar como um “choque de escassez” que acelera inovação e reorganiza a relação entre economia e ecologia.

Há forte base histórica para a ideia de que escassez induz inovação por meio da restrição da oferta ilimitada de mão de obra (mecanização na Europa pós-Peste Negra): escassez de energia (transições energéticas para fontes renováveis) e escassez de terras (intensificação agrícola).

Num cenário de menos trabalhadores, o crescimento do PIB só pode vir da produtividade total dos fatores (PTF) deslocando o modelo de crescimento menos baseado em expansão quantitativa e mais baseado em sofisticação tecnológica.

A diminuição populacional pode ser um catalisador de inovação se as instituições forem capazes de transformar escassez em investimento produtivo inovador.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Superando Malthus: o bem-estar populacional, Ecodebate, 23/02/2010

https://www.ecodebate.com.br/2010/02/23/superando-malthus-o-bem-estar-populacional-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. População e avanços científicos e tecnológicos, Ecodebate, 16/05/2022

https://www.ecodebate.com.br/2022/05/16/populacao-e-avancos-cientificos-e-tecnologicos/

ALVES, JED. A China com menos gente e mais robôs e automação, Ecodebate, 23/02/2022

https://www.ecodebate.com.br/2022/02/23/a-china-com-menos-gente-e-mais-robos-e-automacao/

ALVES, JED. População, bem-estar e tecnologia: debate histórico e perspectivas, Multiciência, Unicamp, 2006 https://www.fef.unicamp.br/fef/sites/uploads/deafa/qvaf/a_02_6.pdf

 

Citação
EcoDebate, . (2026). China versus EUA: decrescimento populacional e inovação tecnológica. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/02/25/china-versus-eua-decrescimento-populacional-e-inovacao-tecnologica/ (Acessado em fevereiro 25, 2026 at 04:00)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
 

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