São Vicente (SP): primeira cidade do Brasil
A cidade de São Vicente tem passado por um rápido processo de envelhecimento populacional. Essa configuração demográfica traz desafios, mas também oportunidades
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
São Vicente, no litoral paulista, é reconhecida como a primeira cidade do Brasil, fundada oficialmente em 22 de janeiro de 1532 por Martim Afonso de Sousa. Foi ali que se estabeleceu o primeiro núcleo urbano duradouro da colonização portuguesa, com a instalação da primeira Câmara Municipal das Américas, marco decisivo da organização política e administrativa no território colonial. São Vicente também foi palco de experiências pioneiras, como os primeiros engenhos de açúcar e a introdução de instituições jurídicas e religiosas que serviram de modelo para outras vilas e cidades que surgiriam ao longo da costa brasileira.
Ao longo dos séculos, São Vicente perdeu centralidade econômica e política para outras localidades, especialmente Santos e, mais tarde, a cidade de São Paulo, mas preservou um papel simbólico fundamental na história nacional. Hoje, a cidade combina esse legado histórico com os desafios contemporâneos típicos de áreas urbanas costeiras: adensamento populacional, desigualdades socioespaciais, envelhecimento da população e adaptação às mudanças climáticas. Assim, São Vicente não é apenas o berço urbano do Brasil, mas também um retrato vivo das continuidades e transformações da sociedade brasileira ao longo de quase cinco séculos.
O município de São Vicente tem uma área de somente 148 km2 e, em 2022, uma densidade demográfica de 2.227 habitantes por km2. A população de São Vicente era de apenas 1.591 habitantes em 1872 (primeiro censo demográfico brasileiro), passou para 4.004 habitantes em 1900, chegou a 31,7 mil habitantes em 1950, deu um salto para 303,6 mil no ano 2000, passou para 332,4 mil em 2010 e caiu para 330 mil em 2022. Mas o censo demográfico 2022 teve uma falha de cobertura e a estimativa populacional do próprio IBGE apontou uma população de 338.407 habitantes em 2024.

A redução do ritmo de crescimento populacional foi acompanhado de um envelhecimento da estrutura etária. O gráfico abaixo mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil, e o estado de São Paulo e ac cidade de São Vicente entre 1970 e 2022. Todas as áreas geográficas tinham uma estrutura etária jovem. Nota-se que em 1970 havia apenas 12,2 idosos de 60 anos e mais para cada 100 crianças e adolescentes de 0-14 anos no Brasil. No estado de São Paulo havia 16 idosos para cada 100 jovens e 15,3 idosos por 100 jovens em São Vicente. O IE cresceu e chegou a 80 idosos de 60+ para cada 100 jovens no Brasil, 96 no estado de São Paulo e 93 idosos por 100 jovens em São Vicente.

O gráfico abaixo mostra a pirâmide etária brasileira (colunas cinzas no fundo) e a pirâmide etária da cidade de São Vicente (parte colorida e sobreposta), em 2022. Nota-se que abaixo dos 50 anos existe maior proporção de jovens no Brasil, enquanto acima de 50 anos há mais idosos em São Vicente.

O gráfico abaixo mostra que o percentual da população de São Vicente de 0-14 anos já vem diminuindo desde 1991, caindo pela metade de 37,7% em 1970 para 18,3% em 2022. No último censo, o percentual de idosos quase empatou com o percentual de crianças e adolescentes. A população de 15-59 anos subiu de 56,4% em 1970 para 66,2% em 2010 e caiu para 64,7% em 2022. Portanto, a população considerada em idade ativa já vem diminuindo, enquanto a população idosa (60+) passou de 5,8% em 1970 para 17% em 2022.

Portanto, a cidade de São Vicente tem passado por um rápido processo de envelhecimento populacional. Essa configuração demográfica traz desafios, mas também oportunidades.
O principal desafio é o fim do 1º bônus demográfico, pois o número e a proporção de pessoas de 15 a 59 anos já está diminuindo em São Vicente e este fato pode se desdobrar em uma crise fiscal se a cidade tratar a relação entre as gerações de maneira fixa. O antigo roteiro de vida com jovens estudando, adultos trabalhando e idosos aposentados perde força diante de uma população que vive mais e deseja continuar ativa, produtiva, colaborativa e integrada.
Mas há também pelos menos duas janelas de oportunidade para a prosperidade e o bem-estar social. O 2º bônus demográfico – ou bônus da produtividade – não é um fenômeno temporário, mas sim um evento que é capaz de gerar frutos indefinidamente se houver investimentos na educação, na saúde, na infraestrutura que possibilite aos trabalhadores produzirem mais bens e serviços com menos insumos humanos e ambientais.
A outra janela de oportunidade se abre com o 3º bônus demográfico – ou bônus da longevidade – que se refere ao potencial econômico, social e institucional que emerge quando uma sociedade passa a ter maior proporção de pessoas idosas, sobretudo em contextos de maior expectativa de vida saudável. Diferentemente do primeiro bônus (expansão da população em idade ativa) e do segundo bônus (acumulação de poupança, capital, educação e produtividade), o bônus da longevidade depende menos da estrutura etária em si e mais de como a sociedade se organiza para envelhecer bem.
O que caracteriza o bônus da longevidade é uma vida mais longa e saudável com aumento dos anos vividos sem incapacidades severas. O aumento do capital humano acumulado permite que os idosos compartilhem experiência, conhecimento e laços sociais. Juntamente com a mudança nos perfis de consumo em decorrência da expansão da “economia prateada” (saúde, cuidados, lazer, educação ao longo da vida, tecnologia assistiva) há toda uma oportunidade na reorganização do ciclo de vida, com trabalho, estudo e aposentadoria deixando de ser fases rígidas e imutáveis.
O bônus da longevidade requer aprendizado permanente, requalificação para novas tecnologias, alfabetização digital de adultos e idosos e universidades e cursos voltados à população 50+. Requer também o combate ao etarismo, aposentadorias flexíveis e cumuláveis com trabalho e jornadas parciais, além de trabalho remoto e funções de mentoria. A intergeracionalidade é um fonte de prosperidade mútua.
Uma cidade envelhecida não está condenada ao declínio. O terceiro bônus demográfico mostra que, com políticas adequadas, a longevidade pode ampliar a produtividade (via experiência e capital humano), a inovação (novos mercados e tecnologias) e a coesão societária (mais tempo de contribuição cívica e cultural). Envelhecer melhor depende de uma combinação de atitude individual e suporte social.
O desafio central consiste em converter os anos adicionais de vida em tempo vivido com produtividade, saúde e plena integração social. Para isso, a sociedade precisa enfrentar e superar o etarismo, criando condições para que as potencialidades das gerações maduras sejam reconhecidas e valorizadas. Ao mesmo tempo, as pessoas idosas não devem se conformar com um papel secundário e coadjuvante, mas assumir o protagonismo de suas trajetórias. Onde essa transformação acontece, o envelhecimento deixa de ser um problema e passa a representar uma vantagem estratégica para o desenvolvimento humano e ambiental.
O município de São Vicente está próximo de completar 500 anos e tem todas as possibilidades de se renovar e reinventar. Com a sucessão de gerações, sempre existe a possibilidade de recomeço. O novo pode dialogar de forma virtuosa com o velho.
A economia prateada pode ser o caminho para construir uma cidade mais próspera, mais democrática, mais justa, mais feliz e ambientalmente mais sustentável.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. O envelhecimento populacional é uma conquista histórica, Ecodebate, 14/05/2025
https://www.ecodebate.com.br/2025/05/14/o-envelhecimento-populacional-e-uma-conquista-historica/
ALVES, JED. Diversidade etária e Economia Prateada, Ecodebate, 04/06/2025
https://www.ecodebate.com.br/2025/06/04/diversidade-etaria-e-economia-prateada/
ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022
https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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