Os evangélicos possuem as maiores taxas de fecundidade e os espíritas as menores
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e a heterogeneidade social perpassa todas as áreas. As taxas de fecundidade, por exemplo, variam por região, nível de escolaridade, por classificação de raça/cor, nível de renda, etc. O mesmo acontece com a religião.
No Brasil, existe uma relação observada entre as taxas de fecundidade (número médio de filhos por mulher) e a religião, sendo que diferentes grupos religiosos apresentam médias distintas de filhos por mulher.
Esses dados não mostram que a religião por si só causa essas diferenças, mas sim que há diferenças estatísticas entre grupos, que podem estar ligadas a fatores culturais, sociais e econômicos associados às filiações religiosas.
Quando se considera os grupos religiosos das mulheres segundo o censo demográfico 2022, as taxas de fecundidade total mostram algumas diferenças. A menor TFT foi a das mulheres que se declararam Espíritas (1,01) e a segunda menor taxa foi a das mulheres da Umbanda e Candomblé (1,25). Os grupos de Outras religiosidades (1,39), Sem Religião (1,47) e Católica Apostólica Romana (1,49) tiveram taxas semelhantes e ainda abaixo da média do país (1,55). O único grupo religioso com TFT acima da média foi o das mulheres Evangélicas (1,74), embora abaixo do nível de reposição.
A análise por grupos de idade também mostrou diferenças, conforme apresenta o gráfico abaixo. O pico de fecundidade dos grupos Umbanda e Candomblé e Sem religião era na faixa dos 20 aos 24 anos. No extremo oposto, as mulheres espíritas tinham seu pico de fecundidade na faixa dos 30 aos 34 anos. Os demais grupos religiosos mostraram peso maior da fecundidade na faixa dos 25 a 29 anos. Essas diferenças podem estar ligadas às estruturas etárias e aos níveis de instrução específicos de cada grupo religioso.

Cabe destacar que todos esses números estão abaixo da chamada taxa de reposição populacional (em torno de 2,1 filhos por mulher), que é o nível necessário para manter o tamanho da população estável ao longo do tempo.
A diferença entre grupos não prova causalidade (ou seja, que a religião por si causa mais ou menos filhos). Para entender qualquer efeito direto da religião sobre a fecundidade seria preciso controlar outras variáveis — como educação, renda, local de residência e idade — porque muitos fatores sociais influenciam a decisão de ter filhos ou não.
A fecundidade tende a ser maior em grupos com menores níveis de escolaridade e renda. A religião pode estar correlacionada com esses fatores, mas não necessariamente explicá-los por completo. Por exemplo, as pessoas que se declaram espíritas possuem em média maior escolaridade e maior renda, o que está associado a menores taxas de fecundidade.
Em síntese, as diferenças de fecundidade entre os grupos religiosos no Brasil refletem, sobretudo, a profunda desigualdade social que marca o país e a interação entre valores culturais, condições socioeconômicas e trajetórias educacionais.
Em um contexto de fecundidade generalizadamente abaixo do nível de reposição, compreender essas nuances é fundamental para evitar interpretações simplistas e para formular políticas públicas que promovam equidade, autonomia reprodutiva e bem-estar, respeitando a diversidade religiosa e social da população brasileira.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
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https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv31839.pdf
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https://www.ecodebate.com.br/2025/06/09/a-transicao-religiosa-no-brasil-1872-2049/
IBGE. Censo 2022 mostra um país com menos filhos e menos mães, Agência de Notícias, 27/06/2025
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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