EcoDebate

Plataforma de informação, artigos e notícias sobre temas socioambientais

Artigo

Rio Grande do Sul o estado mais envelhecido do Brasil

 

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil está passando por uma rápida e profunda mudança da sua estrutura etária. No século XXI, pela primeira vez na história, haverá mais idosos (60 anos e +) do que crianças e adolescentes (0-14 anos). O envelhecimento populacional será a principal tendência demográfica dos anos 2000. Mas o ritmo de avanço será diferenciado para as diversas Unidades da Federação (UFs).

O gráfico abaixo, com dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil e as UFs. O Brasil apresentou um IE de 80 idosos (de 60+) para cada 100 jovens (de 0-14 anos). Em duas UFs, o Rio Grande do Sul (115) e o Rio de Janeiro (105,9) o IE ficou acima de 100 idosos para cada 100 jovens de 0-14 anos. No estado mais populoso, o IE ficou em 95,9 idosos para cada 100 jovens em 2022 em São Paulo. No outro extremo, Roraima apresentou um IE de 27,1 idosos para cada 100 jovens, apresentando a estrutura etária mais rejuvenescida do país.

índice de envelhecimento

O estado do Rio Grande do Sul (RS) foi um dos líderes da transição da fecundidade no Brasil e apresenta atualmente a estrutura etária mais envelhecida.

O gráfico abaixo, com dados das projeções populacionais do IBGE (revisão 2024), mostra o grupo etário de crianças e adolescentes de 0-14 anos e os grupos etários das gerações prateadas de 50+, 60+, 70+ e 80+ no território gaúcho, do ano 2000 a 2070. Nota-se que, no início do atual século, o grupo jovem de 0-14 anos era maior do que qualquer um dos grupos prateados, porém, será superado por todos até 2070.

Em 2000, havia 2,7 milhões de jovens de 0-14 anos no RS, mas este número tem caído continuamente ao longo do século e deve ficar em 1,1 milhão em 2070. Em contraste, as gerações prateadas vão crescer. A população de 50 anos e +, que era de 2 milhões em 2000, ultrapassou o grupo 0-14 anos em 2007, com 2,5 milhões de pessoas e deve chegar a 4,8 milhões em 2070. Ou seja, entre 2000 e 2070, o grupo de crianças e adolescentes deve cair para menos da metade e o grupo 50+ deve mais que dobrar.

A população de 60 anos e + era de 1,1 milhão de pessoas em 2000, ultrapassou o número de jovens em 2020, com 2,1 milhões de pessoas e deve chegar a 3,6 milhões de pessoas em 2070. A população de 70 anos e + era de 483 mil pessoas em 2000, deve ultrapassar o número de jovens em 2036, com 1,6 milhão de pessoas, devendo atingir 2,3 milhões de pessoas em 2070.

A população de 80 anos e +, que era de 135 mil em 2000, deve ultrapassar os jovens em 2068, com pouco mais de 1,1 milhão de pessoas. Havia 20 vezes mais crianças e jovens do que idosos 80+ em 2000, mas haverá mais idosos da “quarta idade” do que jovens em 2070.

população do rio grande do sul por grupos etários

O crescimento das gerações prateadas traz desafios, mas também oportunidades.

A principal dificuldade será lidar com a redução da população em idade ativa (15-59 anos) e com o aumento da razão de dependência demográfica. O fim do 1º bônus demográfico é um evento inexorável.

Mas como mostrei no artigo “Os quatro bônus demográficos e a nova dinâmica populacional global”, publicado aqui no Portal Ecodebate (Alves 2025) existem quatro janelas de oportunidades para se aproveitar as sinergias entre a dinâmica populacional e o desenvolvimento socioeconômico.

  • Primeiro bônus demográfico – Este bônus ocorre quando há uma redução nas taxas de fecundidade, o que diminui a proporção de crianças na população e aumenta, temporariamente, a proporção de pessoas em idade ativa (15-64 anos). É uma fase em que a “razão de dependência” é baixa, permitindo que os países invistam mais em capital físico e humano para impulsionar o crescimento econômico.

  • Segundo bônus demográfico – Enquanto o primeiro bônus é uma mudança numérica de idade, o segundo foca na qualidade. Decorre do aumento da produtividade através da educação, qualificação da força de trabalho e investimentos tecnológicos. Com famílias menores, há mais recursos por criança, o que eleva o nível educacional e a capacidade produtiva de cada indivíduo, compensando a futura redução do número de trabalhadores, via aumento da produtividade.

  • Terceiro bônus demográfico – Este bônus surge com o envelhecimento populacional saudável e ativo. A longevidade permite que gerações mais velhas continuem a contribuir para a sociedade e a economia, desde que se combatam preconceitos etários e se promovam políticas de integração intergeracional. A economia prateada é uma grande oportunidade para o aumento do bem-estar social.

  • Quarto bônus demográfico – Baseado em estudos recentes, este bônus refere-se às vantagens ambientais e sociais de uma população menor, que significa a) Menor pressão sobre recursos naturais, água, energia e solo, auxiliando na mitigação da crise climática; b) Espaços urbanos tornam-se menos congestionados e áreas anteriormente ocupadas podem ser convertidas em zonas verdes e c) A escassez de mão de obra estimula a inovação em robótica e Inteligência Artificial.

A humanidade já superou a capacidade de carga da Terra. Desta forma, para garantir um futuro sustentável, o decrescimento populacional, no longo prazo, é inevitável e pode levar a uma sociedade mais equilibrada e centrada no bem-estar humano e ambiental, desde que acompanhado por políticas públicas adequadas em educação, tecnologia e equidade social.

Um Envelhecimento Saudável, Ativo e Colaborativo (ESAC) requer ações articuladas em quatro níveis. No plano individual, o cuidado com a saúde e o bem-estar depende do engajamento pessoal, já que a prática regular de atividade física e a adoção de uma alimentação adequada pressupõem iniciativa e responsabilidade de cada indivíduo. No nível local e comunitário, as relações sociais com vizinhos e com a comunidade do entorno são fundamentais para o fortalecimento dos vínculos coletivos, a construção de redes de apoio e o senso de propósito de vida. No âmbito da iniciativa privada, cabe às empresas combater práticas etaristas, valorizar a diversidade etária e promover ambientes de trabalho multigeracionais e inclusivos. Por fim, no nível do Estado, as políticas públicas devem atuar de forma integrada nas esferas federal, estadual e municipal, com ações que apoiem a população com 50 anos ou mais e promovam o aproveitamento do bônus da longevidade, estimulando o pleno uso do potencial econômico, social e produtivo das gerações prateadas.

Viver mais é um privilégio. Em vez de temer o “Apocalipse do envelhecimento populacional”, é hora de abraçar a construção de uma sociedade da longevidade, capaz de transformar anos extras em saúde, aprendizado, produtividade e bem-estar.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Os quatro bônus demográficos e a nova dinâmica populacional global, Ecodebate, 01/10/25

https://www.ecodebate.com.br/2025/10/01/os-quatro-bonus-demograficos-e-a-nova-dinamica-populacional-global/

ALVES, JED. O envelhecimento populacional é uma conquista histórica, Ecodebate, 14/05/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/05/14/o-envelhecimento-populacional-e-uma-conquista-historica/

ALVES, JED. A importância da longevidade saudável e ativa para as pessoas e a economia, Ecodebate, 28/05/2025 https://www.ecodebate.com.br/2025/05/28/a-importancia-da-longevidade-saudavel-e-ativa-para-as-pessoas-e-a-economia/

ALVES, JED. Diversidade etária e Economia Prateada, Ecodebate, 04/06/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/06/04/diversidade-etaria-e-economia-prateada/

ALVES, JED. As Ondas do envelhecimento populacional brasileiro, Ecodebate, 14/07/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/07/14/as-ondas-do-envelhecimento-populacional-brasileiro/

ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022

https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Rio Grande do Sul o estado mais envelhecido do Brasil. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/02/04/rio-grande-do-sul-o-estado-mais-envelhecido-do-brasil/ (Acessado em fevereiro 4, 2026 at 06:59)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

[ Se você gostou desse artigo, deixe um comentário. Além disso, compartilhe esse post em suas redes sociais, assim você ajuda a socializar a informação socioambiental ]

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O conteúdo do EcoDebate está sob licença Creative Commons, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao EcoDebate (link original) e, se for o caso, à fonte primária da informação