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Por que as cidades desperdiçam as soluções baseadas na natureza?

 

Pesquisa com 86 especialistas de 11 países analisa os obstáculos que impedem soluções baseadas na natureza de combaterem ondas de calor, enchentes e poluição, e propõe estratégias práticas.

revolução verde urbana

Enquanto as mudanças climáticas intensificam ondas de calor, inundações e a poluição do ar nos centros urbanos, uma pergunta crucial ecoa entre planejadores e cientistas: por que não estamos explorando todo o potencial das soluções baseadas na natureza?

A resposta, segundo a análise mais abrangente já realizada sobre o tema, é um complexo emaranhado de barreiras interligadas, que vão desde conflitos com metas de energia renovada até a simples rejeição pública ao design de um parque.

Por que a natureza não é nossa aliada nas cidades?

A infraestrutura verde e azul (IVA) – que engloba parques, jardins de chuva, telhados verdes, corredores fluviais e áreas úmidas – é celebrada como uma ferramenta vital para refrescar cidades, absorver enxurradas, filtrar poluentes e melhorar o bem-estar. No entanto, sua implementação em larga escala e eficaz continua sendo um desafio global.

Liderado pelo Centro Global de Pesquisa sobre Ar Limpo (GCARE) da Universidade de Surrey (Reino Unido), um estudo internacional reuniu 86 especialistas de 11 países para examinar não os benefícios, mas os obstáculos à IVA.

Publicado na revista The Innovation e baseado em mais de 500 artigos científicos, a pesquisa preenche uma lacuna crítica: entender por que projetos frequentemente falham em alcançar o impacto desejado.

As barreiras ocultas

O estudo mapeou fatores críticos e negligenciados, organizados em quatro domínios:

  1. Técnico e Sistêmico: Inclui a fragmentação da pesquisa, espécies vegetais não adaptadas e consequências ambientais não intencionais, como a emissão de gases de efeito estufa por áreas úmidas mal projetadas ou o aumento de pólen alergênico.

  2. Social e Comportamental: Abrange o desalinhamento cultural, preocupações com segurança em áreas verdes, baixa adesão pública e divergências sobre estética e design.

  3. Econômico e Financeiro: Destaca a persistente subvalorização dos benefícios da biodiversidade e da equidade social, e a falta de modelos de financiamento inovadores.

  4. Governança e Políticas: Aponta regulamentações fragmentadas, integração fraca entre setores (água, transporte, planejamento) e conflitos com outras metas urbanas, como a expansão de painéis solares ou a densificação.

A implementação fica aquém das prioridades políticas

O Professor Prashant Kumar, autor principal do estudo, ressalta a desconexão entre intenção e ação: “Todos queremos ver mais parques e telhados verdes… No entanto, nossa pesquisa mostra que a implementação muitas vezes fica aquém das prioridades políticas”. A Dra. Maria Athanassiadou, do Met Office UK, coautora, complementa: “Ao reunir uma gama tão ampla de disciplinas, conseguimos mostrar não apenas o que funciona, mas também por que, às vezes, não funciona”.

Recomendações para revolucionar as cidades verdes

O estudo não se limita ao diagnóstico. Ele propõe um plano de ação com recomendações práticas para formuladores de políticas e profissionais:

  • Desenvolver estruturas de design específicas para cada contexto local.

  • Priorizar investimento equitativo em bairros carentes e de baixa renda.

  • Criar mecanismos de financiamento inovador, como títulos verdes (green bonds).

  • Implementar abordagens participativas robustas, dando voz genuína às comunidades.

  • Integrar a infraestrutura verde e azul (IVA) de forma transversal a todas as políticas públicas urbanas.

Ação climática imediata e cidades mais equitativas

Para o Dr. Ajit Ahlawat, coautor da pesquisa, as conclusões são claras: “Isso fornece evidências empíricas de que a infraestrutura verde e azul constitui um caminho prático e viável para ações climáticas imediatas”. A superação das barreiras identificadas é, portanto, mais do que uma necessidade ambiental; é uma estratégia fundamental para reduzir emissões, mitigar riscos, aumentar a resiliência e, finalmente, promover cidades mais saudáveis e equitativas para as gerações presentes e futuras.

A mensagem final do estudo é de urgência e oportunidade: para que a natureza cumpra seu papel vital no combate à crise climática nas cidades, é preciso olhar com coragem para os obstáculos reais e adotar soluções tão interconectadas e multifacetadas quanto os problemas que buscam resolver.

Referência:

Prashant Kumar et al, Overlooked Considerations in Prescribing Green and Blue Infrastructure Solutions for Urban Environments, The Innovation (2025). DOI: 10.1016/j.xinn.2025.101184

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Por que as cidades desperdiçam as soluções baseadas na natureza?. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/02/02/por-que-as-cidades-desperdicam-as-solucoes-baseadas-na-natureza/ (Acessado em fevereiro 2, 2026 at 07:52)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
 

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