Transição demográfica e desenvolvimento socioeconômico na Jamaica e Costa Rica
A transição demográfica é uma condição necessária para o desenvolvimento e o bem-estar humano, mas não é uma condição suficiente
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
A transição demográfica é uma condição necessária para a redução da pobreza e para a elevação do bem-estar social, mas não é uma condição suficiente. A transição demográfica gera uma mudança na estrutura etária e cria diversos bônus demográficos que são essenciais para a decolagem do desenvolvimento socioeconômico.
Todos os países do mundo com elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passaram pela transição demográfica e aproveitaram os bônus demográficos, gerados pela queda das taxas de mortalidade e natalidade. Mas se estes bônus demográficos não forem bem aproveitados, o país pode cair nas armadilhas da pobreza ou da renda média.
Não existe país rico com elevada mortalidade infantil e baixa expectativa de vida. A alta longevidade é não só um direito humano, mas também uma condição para o avanço da qualificação pessoal e a formação de capital humano, base da produtividade econômica.
A queda das taxas de natalidade é uma condição essencial para reduzir o tempo das mulheres dedicados aos afazeres domésticos, como também para promover o investimento na qualidade de vida dos filhos e das novas gerações. Famílias pequenas possuem maior mobilidade social ascendente.
Todo país rico passou pela transição das taxas de mortalidade e natalidade, mas nem todo país que vivenciou a transição demográfica conseguiu ficar rico. A transição demográfica é uma condição necessária para o desenvolvimento e o bem-estar humano, mas não é uma condição suficiente.
O gráfico abaixo mostra as taxas de fecundidade total (TFT) e a expectativa de vida ao nascer para a Costa Rica e a Jamaica, dois países que tiveram uma rápida transição demográfica. A TFT da Jamaica estava em torno de 4 filhos por mulher em meados do século passado, subiu para cerca de 6 filhos por mulher na década de 1960 e apresentou uma rápida transição a partir da década de 1970, chegou ao nível de reposição (2,1 filhos por mulher) na primeira década do século XXI e caiu para 1,3 filho por mulher em 2023. A TFT da Costa Rica partiu de um nível mais elevado (acima de 6 filhos por mulher) em meados do século passado e teve uma trajetória muito parecida com a da Jamaica a partir da década de 1970.
Jamaica e Costa Rica tinham expectativa de vida ao nascer pouco abaixo de 60 anos em meados do século passado e apresentaram ganhos de forma diferenciada nas décadas seguintes. Em 2023, a expectativa de vida ao nascer da Jamaica estava pouco acima de 70 anos e da Costa Rica pouco acima de 80 anos. A longevidade na Costa Rica superou não só a da Jamaica, mas até a dos EUA.

O gráfico abaixo mostra a renda per capita, em poder de paridade de compra (ppp), dos dois países em questão. Em 1950, a renda per capita da Jamaica era de US$ 2,1 mil e da Costa Rica era de US$ 3,1 mil. A renda cresceu até cerca de US$ 6 mil na década de 1970. Daí para a frente a Costa Rica deu um salto para US$ 16,5 mil em 2023 e a Jamaica aumentou para somente US$ 7,5 mil em 2023.

A Jamaica completou sua transição demográfica relativamente cedo, com queda acentuada da fecundidade desde os anos 1970. Em teoria, isso deveria abrir espaço para um “bônus demográfico” (maior proporção de pessoas em idade ativa, menor dependência infantil e mais possibilidade de poupança e investimento). Contudo, o país não conseguiu aproveitar plenamente esse bônus, e o PIB per capita real praticamente não cresceu nas últimas quatro décadas.
A economia jamaicana é pouco diversificada, fortemente dependente de turismo, remessas e mineração (bauxita e alumínio). Esses setores são altamente vulneráveis a choques externos — como crises globais, flutuações de preços e desastres naturais. A indústria manufatureira perdeu competitividade desde os anos 1980, com a abertura comercial e a concorrência de países de baixo custo, como a China.
A Jamaica enfrentou crises fiscais e de endividamento público crônicas desde os anos 1970. O país passou por sucessivos programas do FMI, que impuseram políticas de austeridade (corte de gastos públicos e salários, aumento de impostos). Isso manteve inflação controlada e estabilidade macroeconômica, mas limitou o investimento público em infraestrutura, educação e inovação. O serviço da dívida consumiu boa parte do orçamento — freando o crescimento e a criação de empregos de qualidade.
Um dos maiores impactos da transformação jamaicana foi o êxodo de jovens qualificados. Médicos, enfermeiros, professores e técnicos emigraram em massa para EUA, Canadá e Reino Unido. As remessas externas representam até 20% do PIB, ajudando o consumo, mas reduzindo o potencial produtivo interno. Como resultado: a população economicamente ativa cresceu, mas a produtividade média permaneceu baixa.
A economia da Jamaica é marcada por alta informalidade, desigualdade de renda e baixo nível de inovação tecnológica. Grande parte da força de trabalho está em serviços de baixa produtividade, especialmente ligados ao turismo. A criminalidade e a violência urbana também dissuadem investimentos privados e reduzem o dinamismo econômico.
A Jamaica é uma pequena economia insular, altamente exposta a furacões, secas e mudanças climáticas. Cada desastre natural causa danos econômicos equivalentes a vários pontos do PIB, interrompendo o crescimento e exigindo reconstrução constante. O furacão Melissa, um dos mais potentes já registrados, atingiu a Jamaica em outubro de 2025, deixando pelo menos 45 mortes, aproximadamente 30 mil famílias foram deslocadas, mais de mil pessoas permanecem em abrigos. A destruição de casas, estradas, redes de energia e água deixou boa parte da população sem acesso a serviços básicos. Estima-se que os danos físicos somem bilhões de dólares e que podem chegar a um terço do PIB anual do país.
Todos esses dados mostram que a transição demográfica não é suficiente para garantir desenvolvimento econômico e bem-estar social. A experiência jamaicana mostra que a transição demográfica cria potencial para o crescimento, mas não o garante. É preciso ter instituições sólidas, investimento produtivo, estabilidade política e políticas industriais e educacionais consistentes. Sem isso, o país pode ficar preso na “armadilha da baixa renda”.
Na Costa Rica a transição demográfica foi semelhante, mas o desenvolvimento socioeconômico foi diferente. A Costa Rica, assim como a Jamaica, viveu o bônus demográfico — maior proporção de pessoas em idade ativa — mas conseguiu aproveitá-lo com políticas sociais e econômicas consistentes. Hoje, a Costa Rica é um dos países mais envelhecidos da América Central, mas também um dos mais desenvolvidos.
Desde meados do século XX, o país aboliu as forças armadas (1948) e redirecionou recursos para educação, saúde e seguridade social. Isso gerou um capital humano de alta qualidade e uma força de trabalho mais produtiva. O Estado costarriquenho consolidou um sistema de bem-estar universal, raro na região, com forte ênfase em educação pública e cobertura de saúde universal.
Diferentemente da Jamaica, a Costa Rica diversificou sua economia e conseguiu atrair investimento estrangeiro direto (IED) em setores de maior valor agregado. Exemplo: instalação da Intel em 1997 impulsionou o desenvolvimento de um polo de tecnologia e manufatura avançada. Hoje, o país exporta equipamentos médicos, eletrônicos, produtos agrícolas de alta qualidade e serviços digitais. O turismo ecológico e científico também é uma fonte importante de divisas, com foco em sustentabilidade ambiental.
A Costa Rica manteve crescimento econômico constante nas últimas décadas, com PIB per capita em torno de US$ 16 mil (PPC, 2023) — mais que o dobro da Jamaica. O crescimento foi acompanhado de melhoria no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), hoje um dos mais altos da América Latina (0,82 em 2023). A pobreza diminuiu significativamente e a classe média se expandiu, embora a desigualdade ainda seja alta (Gini ≈ 0,48).
A Costa Rica se tornou referência mundial em políticas ambientais, com mais de 98% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis. Implementou pagamentos por serviços ambientais e reflorestamento em larga escala, combinando crescimento econômico e conservação. A Costa Rica é um país de renda média e ainda falta um longo caminho para se transformar em um país de renda elevada.
A Costa Rica consegui transformar sua transição demográfica em um ciclo virtuoso de desenvolvimento humano, enquanto a Jamaica permaneceu presa a um modelo econômico frágil e endividado. A comparação dos dois países mostra que o bônus demográfico só gera crescimento sustentável quando combinado com: a) investimento em educação e saúde, b) instituições estáveis e inclusivas, c) diversificação produtiva, e d) políticas de longo prazo orientadas para o capital humano e tecnológico.
Na Costa Rica a transição demográfica foi uma condição necessária e suficiente, mas na Jamaica a transição demográfica foi necessária, mas não suficiente.
Portanto, é fundamental que todos os países passem pela redução das taxas de mortalidade e natalidade. Mas para vencer as armadilhas da pobreza e da renda média é necessário realizar muito mais em termos econômicos para garantir o progresso social.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. Malásia e ASEAN com melhor desempenho socioeconômico do que o Brasil e a ALC, Ecodebate, 03/12/2025 https://www.ecodebate.com.br/2025/12/03/malasia-e-asean-com-melhor-desempenho-socioeconomico-do-que-o-brasil-e-a-alc/
ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022
https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
[ Se você gostou desse artigo, deixe um comentário. Além disso, compartilhe esse post em suas redes sociais, assim você ajuda a socializar a informação socioambiental ]