Impacto das mudanças climáticas nos oceanos dobra o custo econômico global do carbono
Estudo da UC San Diego introduz o “custo social azul”, revelando trilhões de dólares em danos invisíveis à economia.
Pesquisadores da Scripps Institution of Oceanography demonstram que a degradação marinha eleva o custo social do carbono em 91%, atingindo quase US$ 2 trilhões em danos anuais não contabilizados anteriormente.
Pela primeira vez, um estudo conduzido por pesquisadores da Scripps Institution of Oceanography, na Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego), integrou os danos causados aos oceanos pelo clima no cálculo do custo social do carbono.
O resultado é alarmante: quando os impactos marinho, apelidados de custo social “azul” do carbono, são incluídos, o custo global das emissões de dióxido de carbono para a sociedade praticamente dobra.
Até então, os oceanos eram amplamente ignorados na contabilidade padrão do custo social do carbono, apesar de danos documentados em recifes de coral, infraestrutura costeira e perdas econômicas na pesca afetarem milhões de pessoas.
O preço da invisibilidade econômica
De acordo com o economista ambiental Bernardo Bastien-Olvera, líder do estudo, a ausência de um “preço” para esses danos tornava o impacto oceânico invisível para os tomadores de decisão. “Até agora, muitas dessas variáveis no oceano não tinham valor de mercado, por isso estavam ausentes dos cálculos”, explicou Bastien-Olvera.
Sem os impactos oceânicos, o custo social do carbono é estimado em US$ 51 por tonelada de CO2 emitida. Com a inclusão dos dados marinhos, o valor sobe para US$ 97,2 por tonelada, um aumento de 91%.
Considerando que as emissões globais em 2024 foram de 41,6 bilhões de toneladas, isso implica em cerca de US$ 2 trilhões em danos relacionados aos oceanos associados a apenas um ano de emissões.
Danos de mercado e valores intangíveis
O estudo, publicado na revista Nature Climate Change, analisou diferentes categorias de impacto:
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Valores de mercado: Perdas diretas em receitas de pesca e comércio, projetadas em US$ 1,66 trilhão anuais até o ano 2100.
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Valores de uso não mercadológico: Impactos na saúde devido à redução nutricional de pescados e perda de oportunidades recreativas, somando US$ 182 bilhões em perdas anuais.
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Valores de existência (não uso): O valor intrínseco que os seres humanos atribuem à biodiversidade e aos ecossistemas, estimado em US$ 224 bilhões.
As emissões de CO2 alteram a química da água, reduzem o oxigênio necessário para as espécies e aumentam a gravidade de tempestades extremas, danificando portos e ecossistemas como manguezais e florestas de algas.
Desigualdade global e riscos à saúde
A pesquisa destaca que a distribuição desses danos é altamente desigual. Ilhas e pequenas economias são desproporcionalmente afetadas devido à sua dependência de frutos do mar para nutrição. O aquecimento dos oceanos reduz nutrientes essenciais como cálcio, ômega-3, proteínas e ferro, o que pode aumentar riscos de doenças e mortes nessas populações.
Uma ferramenta para decisões futuras
O “custo social azul” surge como uma ferramenta essencial para a análise de custo-benefício em políticas públicas e gestão de riscos no setor privado. Kate Ricke, coautora do estudo, ressalta que proteger o ambiente pode ter custos iniciais altos, mas o novo framework permite reconhecer valores que antes não eram monetizados.
Para Bastien-Olvera, esse número ajuda a contextualizar o custo real que a sociedade paga quando uma indústria emite gases de efeito estufa. A esperança dos pesquisadores é que governos e indústrias utilizem esses dados para apoiar decisões mais sustentáveis e conscientes sobre o impacto climático nos mares.
Fonte: As informações contidas nesta matéria foram extraídas do relatório “Study Finds Ocean Impacts Nearly Double Economic Cost of Climate Change” da UC San Diego.
Referência:
Bastien-Olvera, B.A., Aburto-Oropeza, O., Brander, L.M. et al. Accounting for ocean impacts nearly doubles the social cost of carbon. Nat. Clim. Chang. (2026). https://doi.org/10.1038/s41558-025-02533-5
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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