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Notícia

Política antivacina nos EUA é retrocesso histórico na saúde pública

 

Epidemiologista alerta que decisões políticas sem base científica colocam em risco sistemas de saúde e capacidade de resposta a emergências sanitárias

Artigo publicado na revista Science analisa como políticas antivacinas nos Estados Unidos, incluindo mudanças no comitê de vacinação do CDC, representam retrocesso histórico na saúde pública e podem impactar preparação global para futuras pandemias

Em um alerta, publicado na edição de janeiro de 2026 da revista Science, o epidemiologista Seth Berkley, ex-CEO da Gavi (Aliança de Vacinas) e atual consultor do Centro de Pandemias da Universidade Brown, adverte que o abandono de políticas de saúde baseadas em evidências científicas está colocando o mundo em uma trajetória perigosa para enfrentar futuras emergências sanitárias.

O artigo, intitulado “Magical thinking will not prevent future pandemics or improve public health” (Pensamento mágico não prevenirá futuras pandemias ou melhorará a saúde pública), expõe como decisões políticas recentes nos Estados Unidos podem comprometer décadas de progresso na imunização e na preparação para pandemias.

O que é “pensamento mágico” na saúde pública

Berkley utiliza o termo “pensamento mágico” para descrever decisões políticas sobre saúde pública que ignoram evidências científicas estabelecidas, substituindo dados comprovados por crenças infundadas, pressões políticas ou ideológicas.

O epidemiologista argumenta que esse tipo de abordagem representa uma ameaça direta aos avanços conquistados ao longo de mais de um século de ciência da saúde pública. Graças aos progressos em epidemiologia, microbiologia e desenvolvimento de vacinas, a expectativa de vida em países de alta renda aumentou cerca de 40 anos no último século, principalmente devido à redução de mortes infantis por doenças infecciosas.

O caso da hepatite b: um retrocesso preocupante

Um dos exemplos mais críticos citados por Berkley é a decisão recente do Comitê Consultivo de Práticas de Imunização (ACIP) dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Em 5 de dezembro de 2025, o comitê votou pela eliminação da recomendação universal de vacinação contra hepatite B ao nascimento, uma prática estabelecida há décadas.

A mudança é particularmente preocupante porque ocorreu sem qualquer nova evidência de danos causados pela vacina e desconsiderando os benefícios claros e documentados da imunização precoce. O comitê atualmente inclui céticos de vacinas e não especialistas selecionados pelo Secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., que tem alegado sem evidências científicas que a vacina de hepatite B causa autismo.

A comparação feita pelo comitê com a Dinamarca, que não exige a dose ao nascimento a menos que a mãe seja positiva para hepatite B, ignora diferenças fundamentais entre os sistemas de saúde. A Dinamarca possui uma população pequena e homogênea, com um sistema de saúde universal que garante que toda a população seja testada para hepatite B e receba cuidados adequados — uma realidade muito diferente dos Estados Unidos.

Em 5 de janeiro de 2026, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) alterou cronograma de imunização infantil, removendo recomendação universal para várias vacinas, tais como de hepatite A e B, gripe, COVID e VSR, que não são mais universalmente recomendadas.

A importância histórica das vacinas

Durante grande parte da história humana, as doenças infecciosas foram as principais causas de morbidade e mortalidade. O desenvolvimento de vacinas transformou radicalmente esse cenário, salvando milhões de vidas e permitindo que sociedades inteiras prosperassem.

Durante seu mandato na Gavi de 2011 a 2023, Berkley liderou esforços que resultaram na vacinação anual de mais da metade das crianças do mundo. Sua experiência também foi crucial na criação do COVAX, iniciativa que distribuiu mais de 2 bilhões de doses de vacinas COVID-19 para 146 países.

A vacina contra hepatite B, especificamente, representa um triunfo da ciência moderna. Como médico voluntário nos testes de eficácia originais da vacina recombinante contra hepatite B em meados dos anos 1980, Berkley tem interesse particular nesta vacina e a acompanhou de perto. Ele afirma categoricamente que a vacina é extremamente segura e altamente eficaz.

Boletim do CDC relativo ao crescimento de mortes pediátricas por gripe, no período 2024-25
Boletim do CDC relativo ao crescimento de mortes pediátricas por gripe, no período 2024-25

Preparação para futuras pandemias

Um dos pontos centrais do artigo de Berkley é a necessidade urgente de preparação científica para emergências sanitárias futuras. A natureza persistente e evolutiva das pandemias, o crescimento populacional, a urbanização densa, as viagens globais, as mudanças climáticas e a pressão sobre sistemas ecológicos estão tornando surtos epidêmicos mais comuns.

O mundo vive em um cenário de risco crescente de “poli-epidemias” — crises de saúde com múltiplas dimensões e fatores agravantes. Quando enfrentamos ameaças altamente letais, como uma epidemia respiratória de rápida disseminação e alta mortalidade, cada minuto de melhoria no cronograma de desenvolvimento de contramedidas médicas é crucial.

Avanços tecnológicos: a promessa do mRNA

Berkley destaca um avanço notável na resposta à pandemia de COVID-19. Tivemos uma vacina COVID-19 autorizada para uso emergencial em apenas 327 dias após o sequenciamento do vírus SARS-CoV-2, principalmente devido a décadas de trabalho no desenvolvimento de mRNA como plataforma para entregar antígenos efetivamente.

Embora a tecnologia mRNA não seja uma solução universal e nem sempre seja a melhor abordagem, ela representa atualmente a forma mais rápida de produzir uma vacina em nosso arsenal médico. Essa capacidade de resposta rápida pode ser a diferença entre milhões de vidas salvas ou perdidas em uma futura pandemia.

Reação da comunidade científica

A rejeição de políticas de saúde pública baseadas em evidências pela atual administração levou 12 ex-comissários da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) dos EUA — nomeados por administrações democratas e republicanas — a expressar preocupação sobre política de vacinas e segurança da saúde pública.

Nove ex-diretores do CDC também argumentaram que Kennedy, especificamente, está colocando em risco a saúde dos americanos, com seis ex-Cirurgiões Gerais se juntando ao apelo.

A mensagem é clara: a rejeição de estratégias de doenças infecciosas informadas por evidências e a sabotagem de intervenções baseadas em vacinas não tornarão a população saudável novamente.

Impacto global da desinformação

Dada a influência que os Estados Unidos têm no mundo, a desinformação e a desinformação médicas também provavelmente aumentarão a hesitação vacinal globalmente. Este é um dos aspectos mais preocupantes do retrocesso atual nas políticas de vacinação americanas.

Refletindo o impacto do movimento antivacina e campanhas generalizadas de desinformação, a hesitação vacinal está em ascensão, e os Estados Unidos provavelmente perderão seu status de país livre de sarampo até o próximo ano.

O papel dos cientistas e profissionais de saúde

Berkley conclui seu artigo com um chamado à ação para a comunidade científica e de saúde. Cada cientista e profissional de saúde tem o dever de se manifestar contra essas políticas e posições equivocadas.

O pensamento mágico não tem lugar na saúde pública. Em um momento em que o mundo enfrenta riscos crescentes de surtos de doenças infecciosas e potenciais pandemias devastadoras, a necessidade de políticas baseadas em ciência nunca foi tão crítica.

Lições para o Brasil e o mundo

As advertências de Berkley têm relevância global. O Brasil, com seu histórico de sucesso em programas de imunização através do Sistema Único de Saúde (SUS), não está imune aos efeitos da desinformação sobre vacinas. Especialistas brasileiros têm alertado sobre a importância de manter programas robustos de vacinação e vigilância epidemiológica.

Durante a pandemia de COVID-19, no governo Bolsonaro, também vimos milhares de vidas irracionalmente perdidas, em razão de uma versão do “pensamento mágico” , com decisões políticas sobre saúde pública que ignoraram evidências científicas.

A traumática experiência da COVID-19 demonstrou que nenhum país está isolado quando se trata de pandemias. Especialistas preveem que futuras pandemias, possivelmente causadas por vírus respiratórios acelerados pelas mudanças climáticas, são uma certeza, e a preparação deve começar agora.

Síntese

O artigo de Seth Berkley na Science serve como um alerta urgente: o abandono de políticas de saúde baseadas em evidências científicas não é apenas um retrocesso — é uma ameaça existencial à capacidade da humanidade de enfrentar futuras crises sanitárias.

Em uma era de crescente conectividade global, urbanização acelerada e mudanças climáticas, a preparação científica para pandemias não é opcional. É uma necessidade fundamental para a sobrevivência e prosperidade das sociedades modernas.

A comunidade científica internacional, profissionais de saúde e formuladores de políticas responsáveis devem se unir para defender a medicina baseada em evidências e garantir que os sistemas de saúde pública mantenham sua capacidade de proteger as populações contra ameaças infecciosas emergentes.

Como Berkley eloquentemente argumenta: o pensamento mágico não salvará vidas. Apenas a ciência rigorosa, políticas baseadas em evidências e preparação adequada podem nos proteger das pandemias que inevitavelmente virão.

Fontes e referências

  • BERKLEY, S. “Magical thinking will not prevent future pandemics or improve public health”. Science, Vol 391, Issue 6780, 1 Jan 2026. DOI: 10.1126/science.aee2611

  • Pandemic Center, Brown University

  • Centers for Disease Control and Prevention (CDC)

  • World Health Organization (WHO)

  • Gavi, The Vaccine Alliance

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Política antivacina nos EUA é retrocesso histórico na saúde pública. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/01/07/politica-antivacina-nos-eua-e-retrocesso-historico-na-saude-publica/ (Acessado em janeiro 8, 2026 at 12:31)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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