Por que os orgânicos são tão caros? por Claudia Visoni

 

orgânicos

 

8 fatores explicam o preço mais alto dos alimentos sem agrotóxicos. E nada explica o conformismo diante do alto custo ambiental, social e de saúde pública que vem de brinde com a agricultura baseada em aditivos químicos.

Ninguém, em sã consciência, prefere comida com agrotóxico, mas os orgânicos no Brasil ainda são bem mais caros, o que deixa muita gente inconformada. Outro dia assisti a uma ótima palestra do agrônomo e pesquisador Wilson Tivelli, da Estação Experimental São Roque (ligada à Secretaria Estadual da Agricultura), que explicou brilhantemente essa questão. Aí vai um resumo dos argumentos de Tivelli (veja o artigo original aqui: http://www.aptaregional.sp.gov.br/index.php/component/docman/doc_view/1182-organicos-sao-caros-por-que?Itemid=275) misturados com o que aprendi sobre o assunto nos últimos tempos.

1 – Eles demoram mais para amadurecer
A agricultura orgânica consegue nível semelhante de produção por metro quadrado à da lavoura que usa adubos artificiais e agrotóxicos. No entanto, os alimentos se desenvolvem mais devagar. A cenoura orgânica, por exemplo, é colhida por volta de 116 dias após a semeadura enquanto a versão com aditivos químicos fica pronta em 97 dias. Ou seja, a safra ocupa a terra por mais tempo. E tempo é dinheiro.

Por outro lado, essa desvantagem comercial torna os orgânicos mais nutritivos e saborosos, pois vão extraindo da terra nutrientes mais variados e em maior quantidade. Enquanto os vegetais cultivados à base de compostos químicos sintéticos recebem basicamente apenas três macronutrientes -nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – os adubos orgânicos oferecem toda uma tabela periódica em sua lista de ingredientes.

2 – Certificação
Por incrível que pareça, não há fiscalização obrigatória nas lavouras que usam agrotóxicos. Os abusos, ultrafrequentes, são descobertos pela ANVISA (Agência de Vigilância Sanitária) apenas ao recolher amostras de alimentos em supermercados. Para sentir o drama, é só clicar nesse link: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,pimentao-e-o-campeao-do-agrotoxico-mostra-estudo-da-anvisa,355203,0.htm.

Já o produto orgânico precisa ser certificado. Ou seja, o produtor deve arcar com a auditoria anual de sua propriedade, o que custa em média cerca de R$ 3 mil. Existem outras formas de certificação por meio de cooperativas que, embora sem custo fixo, demandam bastante tempo e dedicação, desviando o agricultor de sua função principal.

3 – Período de conversão
Um agricultor convencional que resolve virar orgânico passará por um tempo de vacas magras, pois sua terra está “viciada” em produtos químicos e não é fácil recompor a fertilidade utilizando recursos naturais. Durante essa fase, não há nenhum tipo de financiamento governamental que permita ao produtor sobreviver até conseguir safras melhores. No campo, essa talvez seja a principal barreira à adoção do sistema orgânico. Ou seja, existe muita gente querendo sair do esquema convencional, mas não consegue por razões financeiras de curto prazo.

4 – Falta de crédito
No Brasil não existem linhas de finaciamento voltadas para a agroecologia. Parece mentira, mas para conseguir liberação de dinheiro no banco, o produtor precisa mostrar a nota fiscal comprovando que adquiriu agrotóxicos. Veja com seus próprios olhos o depoimento deles no documentário “O Veneno está na Mesa”, de Silvio Tendler, e aproveite para ampliar seus conhecimentos sobre o tema. O filme está totalmente livre para cópia e veiculação: http://www.youtube.com/watch?v=8RVAgD44AGg.

5 – Barreira de isolamento
De acordo com a legislação atual, quem usa substâncias potencialmente tóxicas na lavoura não precisa se preocupar com os resíduos que deixa na atmosfera, na água e no solo, além de estar isento de responsabilidade caso seja comprovada a contaminação de um trabalhador. Para completar, nada o impede de borrifar agrotóxicos até o limite de sua propriedade, mesmo sabendo que a pulverização invadirá o território alheio.

Já o produtor orgânico precisa manter uma faixa de vegetação robusta e alta para isolar seu cultivo da química dos vizinhos. Ou seja, uma parte de sua propriedade não pode ser utilizada para plantar alimentos, o que reduz a produtividade.

6 – Menor escala de produção
O agronegócio convencional privilegia a monocultura. Assim, terrenos imensos são ocupados por uma única espécie (algo muito atraente para pragas e doenças, pois, quando o invasor encontra esse farto banquete, se dissemina em altíssima velocidade). No sistema orgânico dá-se preferência ao plantio conjunto de várias espécies vegetais e ao consórcio com a criação animal. Desse modo, é mais rica a produção interna de adubo (feito com esterco e sobras vegetais) e mais eficiente o controle das espécies indesejáveis.

No entanto, uma propriedade com vários cultivos emprega maior número de trabalhadores e há menor possibilidade de mecanização. Outro complicador do ponto de vista comercial é que, ao ter quantidades pequenas de diferentes produtos para oferecer ao mercado, o produtor orgânico perde poder de barganha.

Um detalhe, porém, não deve ser esquecido: do ponto de vista socioambiental, essas aparentes desvantagens são muito positivas.

7 – Ganância dos supermercados
Grandes varejistas investem bastante em pesquisas sobre hábitos de consumo e logo descobriram que as pessoas com maior poder aquisitivo e nível de instrução são as que mais consomem orgânicos. Encontraram aí uma excelente oportunidade de inflar preços e foi o que fizeram. Uma pesquisa do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) realizada em 2010 flagrou uma diferença de preços de até 463% num mesmo produto orgânico (http://www.idec.org.br/em-acao/revista/142/materia/quer-pagar-quanto). Para quem busca alimentos sem veneno por preço em conta, as feiras de orgânicos são a melhor alternativa (procure aqui: http://www.slowfoodbrasil.com/textos/noticias-slow-food/504-voce-conhece-as-feiras-organicas-da-sua-cidade), seguidas pelos esquemas delivery (para saber mais sobre essa opção: http://conectarcomunicacao.com.br/blog/98-diga-adeus-aos-agrotxicos/.).

8 – Falta de assistência técnica e pesquisa
Antigamente existiam no país as redes de assistência rural financiadas pelo governo. Aos poucos, o poder público foi abandonando essa importante função e deixou o espaço livre para os fabricantes e revendedores de adubos sintéticos e agrotóxicos. Assim, quem dá orientações técnicas aos agricultores hoje em dia são os vendedores dessas fórmulas. Claro que eles não têm interesse nenhum em ajudar quem não consome seus produtos. Além disso, nas faculdades de agronomia predomina o ensino da agricultura baseada em insumos químicos, gerando carência de profissionais que sabem cultivar a terra sem apelar para eles. Para complicar de vez a situação da agroecologia, entidades como a FAPESP, o CNPQ e a CAPES não costumam liberar bolsas de estudos para quem se propõe a estudar agricultura orgânica e familiar.

Com tudo isso, dá para ver que os alimentos convencionais, aparentemente mais baratos, na verdade saem muito caro. Em seu preço não estão computados:

  • O custo social representado pelo abandono do campo e inchaço das periferias urbanas;
  • O custo em termos de saúde pública que tem origem no enorme número de pessoas intoxicadas pelos agrotóxicos, seja de forma aguda ou crônica (câncer, doenças neurológicas e endócrinas entre outras);
  • O custo ambiental devido à contaminação química do ar, da água e do solo, à perda da fertilidade do solo e da biodiversidade.

Do dia para a noite não haverá solução mágica para levar orgânicos baratos à mesa de todos os brasileiros. Mas já existem esquemas alternativos e mais acessíveis para adquiri-los (veja acima o exemplo do delivery e das feiras orgânicas) e outros virão por aí.

A gente pode e deve brigar para virar esse jogo. Temos o direito de exigir que o dinheiro público seja investido num modelo agrícola mais justo e sustentável, em vez de virar subsídio para os agrotóxicos, que, aliás, têm isenção de impostos!

Claudia Visoni é jornalista, paulistana e dirige a empresa Conectar Comunicação (www.conectar.com.br). Desde a adolescência, pesquisa assuntos ligados à ecologia e ao consumo, buscando alternativas para viver bem economizando os recursos naturais. Email claudia@conectar.com.br

Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado em seu blogue pessoal.

EcoDebate, 22/11/2012

[ O conteúdo do EcoDebate é “Copyleft”, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta clicar no LINK e preencher o formulário de inscrição. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Remoção da lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para ecodebate@ecodebate.com.br. O seu e-mail será removido e você receberá uma mensagem confirmando a remoção. Observe que a remoção é automática mas não é instantânea.

Alexa

3 comentários em “Por que os orgânicos são tão caros? por Claudia Visoni

  1. Claudia Visoni, Bom Dia!

    Sou Engº Agrônomo, resido e trabalho em Primavera do Leste-MT, ou seja, estou no olho do furacão do agronegócio. Gostaria de chamar a atenção para a pressão comercial exercida pelas multinacionais do agroquímico. Desenvolvo aqui uma tecnologia que me permite reduzir o uso de agroquímicos em grandes extensões (algo tido como impossível), em até 50%. Faço o trabalho, mostro ao produtor, ele concorda que ficou bom, mas na hora de comprar ele compra da BASF, DOW, BAYER e outras. Porque ele faz isso? Exemplo: Eu consigo resolver o problema de nematoides com eficiência, utilizando um produto biológico, porém, a FMC tem um produto duvidoso (não funciona), para “resolver” este problema, chama-se Rugby, bem mais caro. A FMC tem também um produto chamado Marschal (inseticida), que todo produtor usa e sempre compram, então, chega a hora de negociar a FMC condiciona a venda de Marschal à venda de Rugby, se o produtor quer comprar Marschal, ele deve comprar o Rugby, aí eu fico à ver navios.

    Que bom ler este artigo, pela primeira vez vejo alguém levantar a questão do abuso dos supermercados, este ponto é dos principais motivos para o encarecimento dos produtos livres de agrotóxicos.

    Leio várias “pesquisas” que dizem que o convencional tem a mesma composição nutritiva dos natural, sabemos que isso não é verdade, mas assumindo que seja, podemos mudar a pergunta para: O que o convencional tem a mais em relação ao orgânico? a resposta é óbvia, nos convencionais temos mais metamidofós, clorpirifós, endosulfan, imidaclopridi, carbendazin, estrobirulinas, glifosatos e outras substâncias mais, sob esta ótica, o convencional é muito mais “rico”.

    Existe tecnologia para produzir melhor ou no mínimo igual ao convencional, os privilégios obtidos pelas multis não deixam estas aparecer, compram e sufocam empresas menores que trabalham com defensivos naturais. Não vejo problemas de uma cultura levar uma ou duas semanas a mais para ficar pronta, isso é só questão de adaptar-se a um calendário. Outra coisa, imagine se os quatrilhões de dólares investidos na revolução “verde” tivessem sido investidos em tecnologias limpas? Me sinto um palestino no meio deste negócio.

    Abraço.

  2. Parabéns Claudia e Rohger. O verdadeiro problema do custo mais alto dos podutos orgânicos está na escamotagem dos custos socioambientais dos produtos recheados de contaminantes. Acontece porém que a maior parte destes produtos é destinada à exportação e acaba na mesa de consumidores lá fora onde niguém alerta do perigo de contaminação e intoxicação. Nas poucas vezes que a ANVISA efetuou o controle dos resíduos tóxicos nos produtos destinados à exportação, já aconteceu a descoberta de quantidades de pesticidas presentes superiores às permitidas pelos paises importadores. O que aconteceu foi o bloqueio da exportação mas os produtos acabaram nas prateleiras dos supermercados ( e a preço bem maior dos obtidos na exportação). Enquanto houver conivência por parte de quem ( Estados ou sociedade) adquirir estes produtos envenenados, e aprovar a formulação, comercialização e utilização destes agrotóxicos ( autênticos venenos recheados de dioxinas), sempre haverá quem produz comida contaminada sem se importar dos custos socioambientais e dos danos irreversíveis que irão pesar sobre as futuras gerações. Padre Angelo Pansa- Delegado ICEF (International Court of the Environment Foundation).

Comentários encerrados.

Top