‘Belo Monte vai exportar empregos e ficaremos com os impactos’, entrevista com Philip Fearnside

Biólogo diz que, apesar de ser vendida como solução contra o apagão, usina será fonte de energia para indústrias que exportam produtos primários, como alumínio

O biólogo americano Philip Fearnside acompanha os planos do governo para explorar o potencial hidrelétrico da Amazônia desde os anos 70, quando morou em Altamira, no Pará. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), órgão federal, Fearnside afirma que a Usina de Belo Monte, vendida como solução para evitar o apagão no País, terá boa parte de sua energia usada pela indústria de eletrointensivos, em especial a de alumínio. Para ele, o Brasil vai exportar produtos primários, criando empregos no exterior. “E os impactos vão ficar aqui, com os ribeirinhos e os índios.” Entrevista realizada por Karina Ninni, em O Estado de S.Paulo.

O projeto de Belo Monte mudou muito nesses 30 anos?

Mudou e não mudou. Lembro de, em 1976, ter entrado no escritório do Incra e ter conseguido o mapa com as hidrelétricas que iam inundar uma parte da área da colonização idealizada pelo Estado e terras indígenas. Na época ninguém podia fazer nada porque era uma ditadura. Hoje, temos o sistema do EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), mas a tomada de decisões não mudou, continua no mesmo círculo, e todo o resto parece que vira formalidade. Para tomar uma decisão dessas, você tem de olhar todos os impactos, não só os do EIA-Rima.

E o que há de importante que não está no EIA-Rima?

O que chama atenção é que 30% da energia (de Belo Monte) vai para a indústria de eletrointensivos, basicamente alumínio. Será a fonte de energia para novas unidades de grandes produtoras de alumínio no Pará e no Maranhão. Vai haver expansão das usinas de alumina e de alumínio primário. Belo Monte é apresentada como uma iniciativa contra o “apagão”. O brasileiro médio é levado a pensar que vai ficar sem ver TV se não forem feitas as hidrelétricas do Madeira, de Altamira, mas o País tem grande margem de flexibilidade. Tem toda essa energia sendo exportada, boa parte em forma de lingote de alumínio. Algo muito diferente de exportar um avião de alumínio feito pela Embraer, que gera empregos. O importante no valor do lingote não é o minério ou a mão de obra: é a energia. Exportamos energia elétrica e, com ela, empregos.

Os impactos se justificariam, então, se os objetivos da geração fossem “mais nobres”?

O Brasil não enfrentou ainda a questão mais crítica: o que fazer com essa energia. Mas está importando os impactos ambientais para gerá-la. Ninguém quer fazer hidrelétrica nos Estados Unidos, na Europa, para fazer alumínio. A solução é fazer isso na Amazônia e deixar os impactos aqui e os benefícios no Hemisfério Norte. Lá vão gerar empregos para transformar esse lingotes em produtos acabados e os impactos vão ficar com ribeirinhos e índios. No caso de Belo Monte, está se deixando quase seco um trecho de mais de 100 quilômetros do Rio Xingu com duas áreas indígenas e comunidades de ribeirinhos.

O que é “quase seco”?

No EIA-Rima, a “vazão ecológica” é o mínimo necessário para passar para essas comunidades. Uma dos condicionantes foi aumentar esse volume, o que foi feito. Belo Monte tem duas casas de força e duas barragens. Em Volta Grande do Xingu gera-se pouca energia, correspondente à vazão ecológica. O grosso da água vai ser desviado para o Reservatório dos Canais, onde está a casa de força principal, com 11 mil megawatts. Isso deixa na Volta Grande uma quantidade de água mínima. O impacto de uma hidrelétrica em geral é inundação, aqui é a falta de água.

E quanto seria inundado para a construção da usina?

A soma dos reservatórios dos Canais e da Calha (o da Volta Grande) estava calculada em 400 quilômetros quadrados de inundação. Subiu para 516 km² e depois saiu o edital com o número em torno de 615 km². O reservatório de Belo Monte é pequeno se comparado à energia gerada. Agora, cerca de 11 km acima da Volta Grande ficaria, pelos planos do governo, a barragem de Altamira. Ela é um lago de 6.140 km². Mais que duas vezes Balbina (usina inaugurada nos anos 80 que é considerada o maior desastre ambiental do País). Em 2008, o Conselho Nacional de Política Energética disse que só iria fazer Belo Monte, e não as outras hidrelétricas. Mas o conselho muda de um governo para outro.

Existe esse risco?

O projeto de só uma hidrelétrica é inviável. Durante quatro meses, na seca do Rio Xingu, não se conseguirá movimentar uma turbina sequer da grande casa de força. O governo e as empresas planejam com outros cenários. O plano inicial previa seis hidrelétricas no Xingu. Depois, diminuiu para quatro. Quando Marina Silva era ministra, tentou criar uma Reserva Extrativista na área que seria inundada pelas hidrelétricas, e isso foi vetado pela Dilma, na época na Casa Civil. A cúpula não tem intenção de ter só uma hidrelétrica.

Quanto de metano Belo Monte emitiria?

Belo Monte e o reservatório da barragem de Altamira juntos, para os primeiros dez anos, uma média de 11,2 milhões de toneladas de carbono equivalente ao ano. É mais do que a cidade de São Paulo emite em um ano.

Você contesta a geração de energia por hidrelétricas?

Não. Para cada uma você tem de avaliar os impactos e as alternativas a elas. E tem de saber para que vai servir essa energia.

QUEM É

Philip Fearnside
Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Formado em Biologia pelo Colorado College, nos EUA, é mestre em Zoologia e doutor em Ciências
Biológicas pela Universidade de Michigan. Está no Inpa desde 78.

EcoDebate, 28/04/2011

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6 comentários em “‘Belo Monte vai exportar empregos e ficaremos com os impactos’, entrevista com Philip Fearnside

  1. Parabéns Amigo Philip Fearnside. Mais uma vez o alerta dos danos ambientais e sociais provocados pela planejada usina de Belo Monte ( a antiga Kararao ). Jà tinha falado nisso na matéria que publicou a respeito de Tucuruì onde relatou do desmatamento da àrea atingida pela barragem que devia ser feito utilizando o “Agente Laranja” ( 10.000.000 de litros “importados” pela CAPEMI). Ainda bem que nao foi utilizado ( assim afirmou o pessoal da CAPEMI e da ELETRONORTE). Entretanto o produto “sumiu”. Serà que este “Agente Laranja Fantasma” nao é o que reapareceu em 2003 na regiao da Terra do Meio ( Municìpio de Sao Félix do Xingu-PA) como noticiaram o IBAMA e o GREENPEACE? Tratava-se de 3.500 litros de “Agente Laranja”, conforme declarou o foncionàrio do IBAMA Maurìlio Monteiro.
    Naqueles anos apareceu também uma mancha muito estensa de peixes mortos descendo o rio Iriri. També naquela ocasiao IBAMA e Anvisa nao chegaram a efetuar coletas e anàlises adequadas para descobrir a causa. Falou-se de produtos tòxicos utilizados para conservar as toras que seriam encaminhadas às serrarias em jangadas via rios Iriri e Xingu. Nao se falou da possibilidade da utilizaçao do “Agente Laranja” na derrubada efetuada pelas madereiras que atuavam por là. Costumavam injetar nas àrvores a serem derrubadas uma boa quantidade de dessecante antes do corte das àrvores. Padre Angelo Pansa- Delegado ICEF (International Court of the Environment Foundation)

  2. (errata corrige) No comento anterior falando da quantidade de “Agente Laranja” em Tucuruì falei de 10.000.000 de litros. Està errado: tratava-se de 10.000 litros destinados ao desmatamento de cerca de 5.000 Km/q da àrea a ser inundada pela barragem. Interessante lembrar também que o americano Ludwig ( aquele que tinha adquirido boa parte do territòrio de Macapà para o Projeto JarìI apresentou a proposta para o Governo Brasileiro ( naquela época Governo Militar) de autorizà-lo a retirar a madeira do previsto lago de Tucurui antes do enchimento ( o que teria atrasado o começo da produçao de energia elétrica por alguns anos). Para isso ele estava disposto a pagar toda a dìvida externa que o Brasil tinha naquele momento.
    O Governo Brasileiro preferiu recorrer ao “Agente Laranja” pois em pouco tempo o desmatamento teria sido realizado. Padre Angelo Pansa- Delegado ICEF.

  3. Realmente, todos nós deveriamos dificultar a implantação de Belo Monte e outras hidreletricas. Belo Monte pode ter 30% do seu uso para uso de industrias de aluminio. É um absurdo! Para sermos um pais melhor temos que exportar o minério, como fazemos com o minerio de ferro.
    Da mesma forma também temos que tomar partido contra o desenvolvimento de usinas eolicas, que fazem poluição visual.
    Temos muito carvão mineral no Rio Grande do Sul, um combustivel bem barato e, além disso podemos fazer muitas usinas nucleares bem bonitas.
    Abraços, zilton

  4. Quem está interessado no projeto. Grandes mineradoras, como a Vale e Alcoa, cujo projeto é exportar energia barata em forma de alumínio. Mal se menciona que grande parte da energia vai para alumínio e outros produtos eletro intensivos destinados à exportação. Você contribuinte brasileiro, é quem pagaria, através de financiamentos do BNDES e da participação de estatais, por boa parte dos custos desta empreitada de conseqüências devastadoras. O povo brasileiro todo irá financiar o lucro imediato das empreiteiras e o lucro em longo prazo das empresas mineradoras, mas não receberá os benefícios, pois parte dos lucros será remetida ao exterior, e o restante estará concentrado na mão de poucos. De quebra, o povo brasileiro ainda arcará com os custos ambientais. Não!!! a reprodução e acumulação de lucros.Sugiro que façamos os maiores esforços possíveis contra esta catástrofe que se anuncia. BELO MONTE NUNCA !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Comentários encerrados.

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