Conjuntura da Semana: A rebelião de Jirau

Índice:

A rebelião de Jirau
– A questão social
– A luta por respeito e dignidade
– O caos social
– Reação tardia
– Pacto pelo PAC
– Jirau explica o modelo
– A questão ambiental
– Revolta de Jirau não sensibiliza esquerda e ambientalistas

Eis a análise.

A rebelião de Jirau

O maior canteiro de obras do Brasil, localizado no sítio do Jirau, cidade de Porto Velho em Rondônia, ardeu em chamas no dia 15 de março e em poucas horas virou cinzas. Alojamentos e ônibus foram queimados ou destruídos, além do posto de saúde, de escritórios e do almoxarifado. A destruição do canteiro de obras foi resultado de um levante operário. 22 mil trabalhadores estavam envolvidos na construção da usina que forma o complexo hidrelétrico do Madeira junto com a usina de Santo Antônio.

Os acontecimentos em Jirau são significativos porque é a maior obra em andamento do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC e síntese do modelo desenvolvimentista que reedita o projeto de um Brasil grandioso como à epoca de Vargas, JK e o período militar. Um modelo baseado em grandes obras, sobretudo de exploração energética com vistas a suprir o gigantismo consumista de energia de uma nação emergente exportadora de commodities.

Jirau é significativo por outro aspecto, situa-se na Amazônia legal, região em que se desbrava a última fronteira do capitalismo brasileiro. É na Amazônia legal que se trava a luta para amansar os grandes rios – Madeira, Xingu, Tapajós, Teles Pires – e sujeitá-los ao projeto desenvolvimentista. Jirau, nessa perspectiva, também é importante porque é revelador de uma concepção de desenvolvimento que dá as costas para a questão ambiental. Jirau é um filme já visto – Itaipu, Balbina, Tucuruí – e antecipa Belo Monte.

A questão, porém, mais impressionante de Jirau é a questão social. A explosão da revolta operária contesta o modelo do Brasil moderno. Direitos desrespeitados, truculência e autoritarismo das empreiteiras, sofrimento imposto aos trabalhadores é o outro lado da história que ninguém viu e percebeu. Empreiteiras, sindicatos e governo ficaram surpresos com a revolta que truncou o acelerado andamento do projeto.

Jirau se insere na lógica da modernização conservadora e manifesta todas as contradições do país, ou seja, por um lado revela a pujança e o vigor do crescimento econômico, por outro, produz no seu entorno exploração e miséria. Jirau diz respeito ao Brasil potência – 8º PIB da economia mundial e o 73º IDH – incapaz de mitigar os efeitos do seu gigantismo.

Em Jirau a questão social e a questão ambiental estão relegadas em segundo plano. Jirau coloca em xeque o modelo desenvolvimentista e também o governo de esquerda de Dilma. Jirau reproduz os mesmos erros dos militares onde o social não entra e menos ainda o ambiental. A diferença agora é que no lugar das tropas militares, ocupam o canteiro de obras a Força Nacional – agrupamento policial especializado em combater motins.

Jirau interpela também o movimento social, a esquerda militante, as pastorais, os sindicatos, os ambientalistas. A repercussão dos acontecimentos de Jirau foram poucas e esparsas. Os sites de organizações sociais, dos movimentos, das ongs pouco falaram de Jirau. Encontra-se mais e farto material dos acontecimentos do Japão e da Líbia do que aconteceu no norte do Brasil. Como destacou o jornalista Jânio de Freitas, “a violência assumida pela revolta em Jirau (RO) e pela dos árabes tem semelhança, mas as recepções aqui, aos dois casos, foram opostas”.

A revolta operária em Jirau também pouco sensibilizou os ambientalistas e suas organizações. Céleres em denunciar, organizar manifestos e repercutir agressões ao meio ambiente, as organizações ambientalistas pouco falaram da questão social de Jirau. Percebe-se uma grande dificuldade do movimento ambientalista em conectar os temas sociais aos ambientais. A abordagem faz-se geralmente de forma isolada.

Compreender, portanto, o que acontece em Jirau auxilia na compreensão do que vem se transformando o Brasil e contribui para uma análise autocrítica da esquerda.

A questão social. Jirau vivia sob tensão reprimida

A revolta dos milhares de operários no canteiro de obra em Jirau transformando tudo em terra arrasada pegou todos de surpresa, empreiteiras, sindicatos e governo. O consórcio Energia Sustentável do Brasil – ESBR formado pelas empresas Suez Energy, Eletrosul, Chesf e Camargo Corrêa – responsável pela obra se disse supresa com a insurreição que qualificou como ação de vândalos. Segundo o consórcio “tudo estava tranquilo”. “Não havia descontentamento”, disse Victor Paranhos, presidente do Energia Sustentável do Brasil. “É preocupante porque não sabemos qual é a motivação. Não há sequer uma liderança”, afirmou perplexo.

Na realidade não “estava tudo tranquilo” como diz o Consórcio. “Jirau vivia sob tensão reprimida”, afirmou o Ministério Público do Trabalho de Rondônia após os acontecimentos. Segundo o Ministério, a quebradeira nos canteiros de obras foi resultado de uma “tensão longa e reprimida” nos alojamentos isolados na floresta amazônica.

É importante destacar que conflitos anteriores já tinham acontecido. Em julho de 2010, o canteiro de obras da usina de Santo Antônio virou um campo de batalha. As péssimas condições de trabalho e a super-exploração da mão-de-obra levaram a ações similares as que aconteceram nos últimos dias em Jirau com ônibus apedrejados e queimados e parte do alojamento depredado.

A tragédia em Jirau foi anunciada. Dias antes de eclodir o conflito, Maria Ozânia da Silva da Pastoral do Migrante de Rondônia concedeu entrevista à IHU On-Line onde relatava desrespeito aos direitos dos trabalhadores. A entrevista foi publicada um dia antes dos acontecimentos como que prenunciando os fatos. O relato de Maria Ozânia é importante porque revela que muitos trabalhadores já haviam sido enganados por “gatos” antes de chegar ao canteiro de obras.

Milhares de vagas do canteiro de obra da usina hidrelétrica de Jirau foram preenchidas por migrantes que receberam promessas de “gatos” – agentes que intermediam mão-de-obra. As construtoras recorrem às mesmas práticas de recrutamento de trabalhadores dos tempos do “Brasil Grande”, nos anos 70, quando o País viveu um surto de desenvolvimento econômico no período do regime militar.

Porém, os “gatos” dos anos 2000 sofisticaram os mecanismos de exploração envolvendo o Sistema Nacional de Emprego – Sine, cobrando taxa para garantir o emprego – utilizando-se de boleto bancário – e responsabilizando os próprios tralhadores pelo pagamento do seu deslocamento e alojamento até a contratação definitiva. Milhares começaram trabalhando sentindo-se enganados. O ganho médio de um trabalhador de Jirau gira em torno de R$ 1.000,00.

No canteiro de obra surgiram outros problemas: não pagamento de horas extras; falta de pagamento de benefícios e participação dos lucros; diferenciação de salários entre as empreiteiras; truculência dos seguranças; falta de pagamento da “hora itínere” – tempo gasto pelo trabalhador sem alojamento para chegar a um local de trabalho distante; custos alto de medicamentos; desrepeito ao cumprimento da “embaixada” – período em que o trabalhador visita a família, entre outros.

“Fui descobrir aqui que a Camargo Corrêa não paga hora extra. Você acha que eu iria vir para trabalhar só oito horas? Ficar fazendo nada o resto do dia?”, questionou José Benedito Cotrin, de Abaetetuba (PA). Outro trabalhador, disse que a empresa se recusava a pagar a viagem de volta dos que pediam demissão e que o local é um “presídio em que o trabalhador controla o horário do banho de sol”.

A queixa, aliás, da truculência dos seguranças do canteiro é uma das que mais ficou latente: “Os seguranças não sabiam conversar. Nos finais de semana, quando o pessoal passava um pouquinho da conta na bebida, eles tratavam os bêbados na pancada, como vagabundos”, relata Antônio César Souza da Silva de Belém (PA). Muitos trabalhadores de Jirau dizem ter sofrido ”violência física” por parte de funcionários da Camargo Corrêa e que eram obrigados a comprar produtos a preços exorbitantes no canteiro da obra.

Uma disputa entre sindicatos ligados à CUT e à Força Sindical também teria contribuido na deflagração dos conflitos. O Sticcero (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Rondônia) criado em 1986 é filiado à Central Única dos Trabalhadores – CUT e o Sintrapav-RO (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada de Porto Velho) criando em 2008 é ligado à Força Sindical. Ambos disputam a representatividade da categoria. O Sticcero acusa o sindicato adversário de incentivar o quebra-quebra. “O clima entre os sindicatos não está bom. Eles estão brigando na Justiça para saber quem tem representatividade”, afirmou o procurador regional do Trabalho de Rondônia Francisco Cruz. Reduzir, entretanto, como setores da imprensa propagam os conflitos em Jirau à briga de sindicatos é simplificar o problema que como se viu tem razões sociais.

Sobre as condições de alojamento há controvérsias. Não chegou a ser apontado como um dos principais problemas. Muitos deles eram climatizados, algo anunciado por Lula num discurso para os operários de Jirau, em agosto do ano passado: “Isso [ar condicionado nos alojamentos] demonstra que os trabalhadores vão aprendendo a conquistar seus direitos, os empresários vão aprendendo que é importante que, quanto mais conforto, mais os trabalhadores produzem e assim a gente vai mudando a cara do nosso País”, afirmou Lula na época. Destaque-se, porém, que o tratamento não era o mesmo dispensado a todos os trabalhadores. Assim como havia diferenciações salariais dentro do mesmo canteiro em função de várias empresas terceirizadas, as condições de alojamento não eram necessariamente a mesma para todas.

A tentativa de desqualificação – “coisa de vândalos” – do levante operário por parte das empreiteiras e o discurso similar do governo não se sustentam. A revolta operária em Jirau é uma questão social. “Uma coisa dessa magnitude não acontece sem um motivo forte. Ninguém se mobiliza dessa forma apenas em função de uma briga entre dois funcionários”, diz Elias Dobrovolski do Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, em Rondônia.

O jornalista Leonardo Sakamoto, lembra que uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, no ano passado, produziu 330 autos de infração e a interditou equipamentos que estavam colocando em risco os trabalhadores da obra. Destaca ainda que um grupo de 38 pessoas foi libertado de trabalho análogo à escravidão pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Rondônia. As vítimas estavam trabalhando para a Construtora BS, que prestava serviço ao consórcio responsável pela construção de Jirau.

A luta por respeito e dignidade

A revolta de Jirau, entretanto, não se deu apenas por melhores condições de trabalho e salários. Relatos colhidos pelo Ministério Público do Trabalho de Rondônia dão conta de que parte importante das reivindicações dos trabalhadores é por respeito e dignidade. Entre as reclamações ouvidas pelo Ministério do Trabalho encontram-se:

1 – Fim da truculência de seguranças e encarregados – xingamentos, empurrões, cárcere privado temporário e piadas;
2 – Tratamento respeitoso aos trabalhadores que chegarem aos alojamentos alcoolizados. A dependência de álcool é vista como uma doença;
3 – Respeito na relação entre o “sala fria” e o ”peão”, sem assédio moral. Em Jirau, “sala fria” é o funcionário que trabalha em salas com ar-condicionado;
4 – Pagamento por “hora itínere” – o tempo de viagem para canteiros de obras fora do perímetro urbano (só para quem não mora em alojamentos). Flexibilidade no transporte de áreas de trabalho isoladas para centros urbanos nas horas de folga;
5 – Serviços eficientes nos refeitórios, para evitar que o tempo da fila do bandejão não consuma boa parte do período do almoço. Refeições adequadas e alojamentos higiênicos;
6 – Garantia aos que trabalham em locais isolados e distantes de casa do pagamento e do cumprimento da “embaixada” – período em que o trabalhador visita a família;
7 – Cumprimento das promessas feitas pelo agenciador de trabalho;
8 – Pagamento de hora extra;
9 – Pagamento de cesta básica que leve em conta os preços do comércio local;
10 – Indicação de representantes da empresa para ouvir denúncias contra outros funcionários.

Muitas das reclamações relacionam-se às exigências por respeito. As novas gerações de trabalhadores vêm de cidades sem escolas de qualidade e cursos de profissionalização, porém, são do tempo da universalização do ensino e das febres das lan houses e do celular pré-pago. Ligados de alguma forma ao “mundo” de jovens de outras classes sociais e lugares por meio da web e do telefone, esbanjam demonstrações de personalidade e consciência de seus direitos, destaca reportagem do jornalista Leonencio Nossa.

A diferença dos “peões” dos anos 90 em relação aos demais é nítida na postura firme e no orgulho de se vestir bem, diz o jornalista em sua reportagem. “Não gosto de desvalorizar ninguém, mas é bom demais andar assim”, diz Dabson Bernardes Ferreira, 20 anos, de Breu Branco, no Pará, vestido com camiseta vermelha com estrelas, calça jeans justa, tênis, colar de metal com a letra “D”, brinco, pulseira e cabelos bem cortados. “Se eu pudesse, não botava macacão. Iria desse jeito para a obra”.

Outro caso apresentado pelo jornalista é o de Antônio Carlos Pereira, 19 anos, paraense “legítimo”, como se apresenta. Antônio assume a vaidade. “Nunca disse que sou mais do que alguém. Meus colegas me conhecem. Mas nessa parte de roupa, ah, velho, eu não minto. Só saio legal”, diz. Ele lamenta ter perdido mochila com roupas coloridas e o tênis que usava nos finais de semana na Dimpo, boate de música eletrônica – e que consumiam boa parte do salário de R$ 1.100. “Estava de uniforme no dia do incêndio. Estou vestindo agora roupa de um colega”, diz. Conseguiu salvar anéis, pulseira, colar e brinco. “Passei a usar brinco aqui. Se usasse no Pará, o velho cortava a minha orelha.”

O caos social no entorno de Jirau

A questão social de Jirau não se resume aos problemas vivenciados no canteiro de obras, extrapola para os seus arredores. “Pelo amor a Deus, usem seu poder e sua influência para fazer o que for possível para diminuir os efeitos sociais negativos desse empreendimento, pois amanhã, os que lucram hoje sofrerão na pele suas conseqüências”, apela o Pastor Aluizio Vidal, presidente Regional do PSOL – RO, sobre o caos que vive Jaci-Paraná, cidade vizinha à obra. O pastor e político dá o seu testemunho: “Vi naqueles bares à beira do asfalto, entre uma quantidade inumerável de homens, mulheres jovens se oferecendo à prostituição, muita bebida, muita música e imaginei a quantidade de coisas indizíveis que acontecem ali e reconheço que também são parte do que está sendo produzido pelas usinas”.

A região das obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, registra uma explosão de criminalidade e de casos de exploração sexual de crianças e adolescentes. O aumento dos problemas supera o ritmo do crescimento populacional. As usinas começaram a ser construídas no segundo semestre de 2008. A população de Porto Velho, onde estão as duas obras, cresceu 12,5% entre aquele ano e 2010. o número de homicídios dolosos na capital aumentou 44% no mesmo período. Para o promotor Aluildo de Oliveira Leite, que acompanha o impacto das obras, o efeito social das obras foi “subdimensionado”. A ampliação do hospital de base da cidade, que era prevista, não foi concluída.

Segundo Raiclin Silva, do Juizado da Infância, as áreas próximas aos canteiros tinham participação mínima nos resgates de menores e agora são metade do total. O número de estupros em Rondônia cresceu 76,5% de 2008 a 2010. A quantidade de crianças e adolescentes vítimas de abuso ou exploração sexual subiu 18% no período. Mais de 37 mil funcionários, na maioria homens vindos de outros Estados, trabalham nas duas obras. “É como se houvesse um garimpo”, diz Silva.

“Jirau é um sinal de alerta ao governo e seus empresários”, diz nota da Aliança dos Rios da Amazônia, composta pelos Movimento Xingu Vivo para Sempre, Aliança Tapajós Vivo, Movimento Rio Madeira Vivo e Movimento Teles Pires Vivo. Segundo os movimentos, “Jirau concentra todos os problemas possíveis: em ritmo descontrolado, trouxe à região o ‘desenvolvimento’ da prostituição, do uso de drogas entre jovens pescadores e ribeirinhos, da especulação imobiliária, da elevação dos preços dos alimentos, das doenças sem atendimento, e de violências de todos os tipos”.

Empreiteiras, governo e sindicatos. Reação tardia

As empreiteiras, o governo e os sindicatos supreenderam-se com a revolta em Jirau. Não esperavam os acontecimentos e depois de uma tentativa de desqualificar o caráter da rebelião de lutas por direitos, correm agora atrás do prejuízo. A procura por soluções rápidas não é apenas por sensibilidade para com a questão social. O governo teme sobretudo que Jirau repita-se em outros canteiros de obras do PAC.

Destaque-se que 80 mil operários da construção civil estavam parados, nos últimos dias somados os profissionais que atuam nas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Porto Velho (RO), além dos complexos portuários de Suape (PE) e Pecém (CE).

A primeira reação do governo aos conflitos de Jirau foram reativas. Depois de ouvir a Camargo Corrêa e avaliar as informações do Ministério das Minas e Energia e dos relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o Planalto decidiu mobilizar um contingente da Força Nacional e da Policia Federal para assumir o controle dos canteiros da construtora na usina hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Cerca de 600 homens da Força Nacional de Segurança foram enviados para Rondônia e serão mantidos na região por tempo indeterminado.

A Camargo Correa responsável pela obra e assustada com a rebelião, assinou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho para garantir salário, alimentação e hospedagem para os trabalhadores que quisessem permanecer em Rondônia. Ao mesmo tempo passou a organizar a retirada dos trabalhadores. Dois aviões e 200 ônibus foram fretados para encaminhar mais de 7.000 trabalhadores das obras de Jirau a seus Estados de origem. Apesar do acordo, os trabalhadores que permanecem encontram-se em condições precárias.

Passado as primeiras horas e o susto, as empresas assumiram um novo discurso: querem a parceria do Estado na segurança. O presidente do consórcio responsável por Jirau, o Energia Sustentável, Vitor Paranhos, defendeu que obras privadas de grande porte, como a usina, tenham a segurança dos canteiros garantida por forças públicas. “Jirau tem 20 mil pessoas. Isso é uma população maior que a de muitas cidades. E o que será feito quando formos fazer Belo Monte [PA] e for preciso cuidar de 30 mil peões no meio do nada? Não basta chegar para o investidor e dizer: “Problema seu”.”

O Presidente da Construtora Camargo Corrêa, Antonio Miguel Marques foi ainda mais explícito: “A Camargo Correa só vai retomar as obras se julgar que existem plenas condições de segurança para todos os seus empregados. Neste momento a Força Nacional se faz presente no acampamento, o que dá uma certa tranquilidade para a retomada”.

Além do dinheiro público para a construção, as empreiteiras querem agora segurança pública permanente para prosseguir as obras.

Pacto pelo PAC

O governo do seu lado passou a articular uma agenda preventiva. Articulou uma reunião com as centrais sindicais, empresas concessionárias e Ministério Público do Trabalho para tentar chegar a um pacto e impedir um colapso no principal programa de investimentos do governo.

As centrais passaram a assumir uma postura reivindicativa: “Estamos cobrando medidas de garantia do trabalho decente, as contrapartidas sociais, em todas as obras e projetos financiados por dinheiro público, há vários anos. Nós precisamos estabelecer mecanismos eficazes, como fiscalização permanente e punição severa para as empresas que tomam dinheiro público emprestado mas que não respeitam os direitos dos trabalhadores, não respeitam a representação sindical”, disse o presidente da CUT, Artur Henrique, ao cobrar providências do governo federal, durante audiência.

Por outro lado e apesar do discurso de indignação, a CUT enviou representante a Porto Velho para conversar com o sindicato local e segundo a imprensa defendeu a posição do governo federal e das construtoras. O representante da CUT nacional Vagner Freitas defendeu a volta dos operários ao trabalho. “Tem de voltar a trabalhar. Eu sou brasileiro, quero ver essa usina funcionando”, disse. Em seguida, teria usado um discurso característico do governo: “O Brasil precisa de energia limpa. A obra da usina precisa voltar a funcionar, porque a sociedade está sendo prejudicada”.

O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, destacado para a tarefa de costurar um amplo acordo reconhece o problema. “Em obras como Jirau e outras, em que trabalhadores ficam confinados nas matas, se não houver respeito ao pagamento de horas extras, se houver truculência das chefias e dos seguranças, se não houver condições de higiene e alimentação dignas, a eclosão da violência é algo inevitável”.

A grande preocupação do governo é com a proximidade da Copa do Mundo e das Olimpíadas, daí a necessidade de estabelecer regras mínimas para as grandes obras a serem cumpridas pelas empreiteiras.

O presidente da Força Sindical Paulo Pereira da Silva avalia que o problema não é tão simples. Segundo ele, tanto a Força como a CUT não têm experiência para lidar com multidões. “Naquela região de Jirau, construímos no máximo uma ponte ou um prédio, empregando no máximo mil pessoas. Estamos lidando com 20 mil”, comentou.

Para o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Divonzir Gusso, o país começou a pagar a conta pela enxurrada de obras que passou a realizar sem ter se preparado para isso. “Nem governo nem empresas estavam preparados e agora terão de trocar os pneus com o carro em alta velocidade”, diz.

Jirau explica o modelo

A expansão do capitalismo brasileiro avança fortemente para o Norte do país – é na região que se desenvolvem grandes projetos – construção de mega-hidrelétricas, abertura de rodovias, ampliação da exploração de minérios e expansão da pecuária.

A construção das hidrelétricas no Xingu, Madeira e Tapajós vem sendo apresentadas como imprescindíveis. O governo afirma que se trata de obras absolutamente necessárias e indispensáveis para suprir a crescente demanda de energia no país. “Sem as hidrelétricas o Brasil pára”, tem sido o discurso do Estado.

O governo brasileiro está absolutamente convencido de que o seu papel é induzir o crescimento da economia, função que exerce através do binômio “Estado financiador” e o “Estado investidor”. O “Estado financiador”, utilizando o BNDES e os fundos de pensão, exerce o papel de indutor do crescimento econômico fortalecendo grupos privados em setores estratégicos. Por outro, o “Estado investidor” financia mega-obras de infra-estrutura. No caso das usinas hidrelétricas vemos em ação o “Estado investidor” emprestando sua musculatura financeira para viabilizar as obras. No complexo Madeira, as obras contam com um financiamento do BNDES DE R$ 7,2 bilhões para Jirau e de $ 6,1 bilhões para Santo Antônio.

As grandes usinas são, portanto, compreensíveis a partir da concepção neo-desenvolvimentista que se aplica no país. O governo está absolutamente convencido de que esse é o melhor caminho para o país. Aliás, está convencido de que não há outro caminho. Jirau, nesse sentido explica o modelo em curso no país. Ainda mais, no caso específico da Amazônia o país reedita o caminho trilhado pelos militares.

O jornalista Glenn Switkes, coordenador da ONG International Rivers, em entrevista ao IHU em 2009 afirmava: “A visão de conquistar os rios da Amazônia com construção de grandes barragens é antiquada, obsoleta, que vem dos anos 1980, ou seja, é uma visão militar de ocupar a Amazônia e transformá-la numa estratégia econômica e política”.

Belo Monte vai na mesma perspectiva: “O que está em discussão não é só a usina de Belo Monte, mas o modelo de desenvolvimento que está por trás do projeto. O impressionante é que de alguma maneira o plano repete o modelo de ocupação visto no período militar”, afirma Rodrigo Timóteo da Costa e Silva, procurador do Ministério Público Federal em Altamira (PA).

As obras do Complexo Madeira desde o seu início foram polêmicas. Anunciada no governo Lula enfrentaram resistência. Contra ela se colocaram povos indígenas, ribeirinhos, ambientalistas e alguns movimentos sociais. Gilberto Cervisnki do Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB destacava em 2007 que “construir as usinas no Madeira representa a abertura para construção de dezenas de outras hidrelétricas dentro da Amazônia, sem sequer discutir uma questão que entendemos ser fundamental: energia para quê? E para quem?”.

Na opinião de Marco Antonio Trierveile, em entrevista ao IHU também em 2007, e também do MAB, o projeto do complexo Madeira atende a interesse “de grandes grupos econômicos interessados em aumentar sua exploração na Amazônia e em toda América Latina (recursos naturais, energia, minérios, madeira, terra, biodiversidade – principalmente para indústria financeira). Para que essas indústrias possam se instalar no País, elas precisam criar uma rede de infra-estrutura básica (energia, portos, hidrovias, redes de transmissão de energia, estradas, ferrovias), o que possibilitará a elas transportar mercadorias para fora do país”.

Para se opor à obra foi criado o movimento Rio Madeira Vivo que em seu manifesto de fundação alertava: “O rio Madeira e suas margens deixarão de atender ribeirinhos, indígenas e a população de Porto Velho com água, peixes, sedimentos e vida para se tornar um rio-mercadoria. Um rio morto, estéril, com águas podres, contaminado por mercúrio, multiplicador da malária. Um rio a serviço das indústrias eletrointensivas e do agronegócio, imprestável para o povo, para a pesca artesanal, para o lazer e para as culturas de várzea”.

A obra recebeu reiteradas objeções do Ibama que resistia em conceder a licença ambiental. Lula reclamou publicamente: “Tem que ter uma solução”, disse ele à época. A irritação do presidente Lula com o que considerava entraves ambientais forçou mudanças no Ministério do Meio Ambiente e tempos depois resultaria no afastamento da ministra Marina Silva.

“Desrespeito, ilegalidade, destruição, desmatamento, essas são as marcas do compromisso do PAC com a Amazônia”. A afirmação da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – COIAB em nota recente sobre os conflitos em Jirau revelam que a temática ambiental nunca encontrou eco no governo.

A questão ambiental

As hidrelétricas do Rio Madeira não são apenas um desastre social. Anunciam também um desastre ambiental. Essas grandes obras implicam em grandes inundações de terras, em significativos deslocamentos de pessoas e em devastação ambiental gigantesca.

Assim como o país tolerou em décadas passadas agressões ao meio ambiente – Itaipu, Balbina, Tucuruí, Transamazônica –, tudo leva a crer que caminhamos para outros erros. Assim como a nossa geração lamenta os erros cometidos pelas gerações anteriores, tudo indica que as gerações futuras lamentarão a decisão da construção de Jirau, Santo Antônio, Belo Monte…

Nesta perspectiva é que se pode afirmar que a questão ambiental não é estratégica no governo Dilma, como não foi no governo Lula. Apesar da intensa retórica, a temática ambiental ficou subordinada a agenda econômica. Pior ainda, a uma agenda econômica dependente de um padrão de desenvolvimento fordista. O Brasil permanece preso ao século XX, a uma concepção de industrialização tardia e tributária da Revolução Industrial.

O Brasil não apenas está preso ao mantra do crescimento econômico, como vem optando por um crescimento predatório. A cobiça e a avidez dos interesses econômicos estão comprometendo aquilo que é o diferencial para a qualidade da bios planetária: a biodiversidade. O país está perdendo o bonde da história e não percebe, ou não quer perceber, que é um dos poucos países que poderia oferecer uma alternativa à crise civilizacional, ancorada, sobretudo na crise climática. Nesta perspectiva, subordinar a biodiversidade da região amazônica ao produtivismo do sudeste e as plataformas de exportação de commodities é no mínimo uma opção questionável.

Revolta de Jirau não sensibiliza esquerda e ambientalistas

O pouco interesse que a revolta de Jirau provocou no debate da esquerda brasileira também é reveladora que parte dessa esquerda pensa da mesma forma que o governo. Setores majoritários da esquerda acreditam que o crescimento econômico é a varinha de condão para a resolução de todos os problemas. Particularmente da pobreza. A equação é conhecida. O crescimento econômico produziria um círculo virtuoso: produção-emprego-consumo.

Essa esquerda é tributária de uma intepretação marxista que se aproxima do liberalismo. Ambos – marxismo e liberalismo – bebem na fonte da racionalidade produtivista que vêem a natureza como fonte inesgotável de crescimento econômico. Essa concepção não se coaduna mais com a emergência da crise climática. “Não dá mais para fazer essa separação [da economia com o meio ambiente], alerta José Eli da Veiga. “As pessoas que continuam a separar economia e meio ambiente não entenderam nada”, diz ele.

Parte da esquerda não se dá conta de que embora a sociedade industrial ainda seja preponderante, a essência da forma de organizar a sua produção é empurrada cada vez mais para a periferia do núcleo propulsor do novo capitalismo – a economia do imaterial, a new economy, onde a biodiversidade assume uma nova dimensão.

Os ambientalistas, por outro lado, também deram pouca atenção para os acontecimentos de Jirau. Diferentemente de determinada esquerda que olha prioritariamente a questão social, muitos ambientalistas têm olhos apenas para a questão ambiental. Como a revolta de Jirau foi sobretudo uma questão social, não se viu as organizações ambientalistas repercutirem e se posicionarem sobre os fatos. Fosse um desastre ambiental que tivésse ocorrido em Jirau, qual teria sido a postura dos ambientalistas?

Se é um fato que a esquerda tradicional não conecta o social com o ambiental, também é um fato que parcela significativa do movimento ambientalista não articula o ambiental com o social.

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

(Ecodebate, 31/03/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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