Cúpula Mundial de Cochabamba: Uma cosmovisão do bem viver, artigo de Luiz Felipe Bergmann

Cúpula Mundial de Cochabamba: Uma cosmovisão do bem viver

[EcoDebate] Nos dias 19 a 22 de abril de 2010, aconteceu na cidade de Cochabamba, Bolívia, a Cúpula Mundial dos Povos Sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Impulsionada pelos debates climáticos e pela percepção de que a natureza também é sujeito de direitos, ganha força a filosofia de vida conhecida como Bem Viver. Ela reflete o estilo de vida que os povos indígenas praticam há milênios. Para eles, a terra, um bem acima de qualquer outro, e os recursos naturais são fonte de manutenção da vida e não de acumulação de riquezas e dominação.

Em entrevista ao periódico La Razon, edição de 31.01.2010, o chanceler boliviano David Choquehuanca, especialista em cosmovisão andina, descreveu qual o significado do Bem Viver. Para os andinos significa valorizar a sua história, suas vestimentas, cultura, idioma, recursos naturais. O mais importante não é o dinheiro, nem o ouro, nem o ser humano, mas “os rios, o ar, as montanhas, as estrelas, as formigas, as borboletas… O ser humano está em último lugar, para nós o mais importante é a vida”, afirma o chanceler. Parece que essas idéias caem como uma luva para nós, ocidentais, capitalistas. Tudo o que precisamos é de uma vida mais simples, menos trabalho, mais convívio com os amigos, aproveitar as coisas boas da vida.

O artigo 8.º da Constituição Política do Estado boliviano estabelece os princípios que orientam essa filosofia: “não sejas preguiçoso, não sejas mentiroso, nem ladrão; viver bem; vida harmoniosa; vida boa; terra sem males; caminho ou vida nobre”.

Os andinos marcam distância com o capitalismo. Nesse sistema, “o mais importante é o dinheiro e a mais valia”. Podemos completar que no capitalismo a ordem é acumular a qualquer custo, mesmo que esse custo seja o de destruir as condições da vida humana no planeta. Os desastres ambientais relacionados ao aquecimento global são uma triste prova disso.

Mas também criticam o socialismo, pois “busca satisfazer as necessidades humanas”. A ideologia do progresso e a propaganda se encarregam de criar constantemente novas necessidades. O sistema precisa disso! Necessário reconhecer que tendo o produtivismo como parâmetro, socialismo e preservação da natureza muitas vezes não foram bons parceiros.

É certo que com sua cosmovisão os povos andinos se colocam contra o capitalismo e, por isso mesmo, são aliados imprescindíveis na luta por uma sociedade igualitária, justa, humanitária, feminista e que coloque a preservação e a recuperação da natureza como condição indispensável para preservação da vida humana. O ecossocialismo se coloca como o único futuro viável para a humanidade.

Luiz Felipe Bergmann é Auditor Fiscal do Trabalho no Paraná e militante ecossocialista.

* Colaboração de Fatima Rivas para o EcoDebate, 28/04/2010

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