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Artigo

A sustentabilidade da população mundial, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Pegada Ecológica para diferentes níveis de renda per capita da população mundial e qual seria a população que a Terra seria capaz de manter de maneira sustentável
Tabela 1: Sustentabilidade da população mundial em diferentes níveis de consumo. Fonte: WWI, 2010, p. 6

[EcoDebate] É muito comum ouvir as pessoas perguntarem: 1) O mundo tem gente demais ou gente de menos? 2) Qual é o nível de sustentabilidade ambiental da população?

Segundo o Relatório Brundtland, também chamado “Nosso Futuro Comum” (de 1987), o Desenvolvimento Sustentável é aquele “que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Na definicão do EcoDebate: “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável”. Portanto, para se atingir o desenvolvimento sustentável é preciso garantir os direitos humanos e a qualidade de vida da população presente e futura, adotando um padrão de consumo que seja ecologicamente viável.

Assim, várias respostas são possíveis para as perguntas acima, pois o planeta Terra tem capacidade de suporte de uma quantidade variável de habitantes, dependendo do grau de direitos humanos atingido e do padrão de consumo adotado. A Pegada Ecológica é uma metodologia útil para medir a quantidade de terra e água (em termos de hectares globais) que seria necessária para sustentar o consumo atual da população. A tabela 1 mostra os números da Pegada Ecológica para diferentes níveis de renda per capita da população mundial e qual seria a população que a Terra seria capaz de manter de maneira sustentável.

Os países de renda baixa (e geralmente com baixo grau de atendimento aos direitos humanos de sua população), possuiam em 2005 uma renda per capita (medida em poder de paridade de compra – ppp – de 2008) de $ 1.230 dólares internacionais e uma pegada ecológica de 1,0 hectare global (gha). Com este padrão de consumo o Planeta teria a capacidade de sustentar 13,6 bilhões de pessoas, quase o dobro da população mundial atual. Isto quer dizer que a população da Terra poderia ser muito maior do que a atual se houver generalização do baixo consumo médio adotado nos países pobres do mundo. Ou seja, se toda a população mundial adotar o padrão de consumo médio de Angola (0,9 gha) ou Butão (1,0 gha) o Planeta poderia sustentar até 13,6 bilhões de habitantes. Neste caso, o mundo seria sustentável em termos geracionais, mas não seria necessariamente “socialmente justo e economicamente inclusivo”.

Os países de renda média, possuiam em 2005 uma renda per capita de $ 5.100 dólares internacionais e uma pegada ecológica de 2,2 hectares globais (gha). Com este padrão de consumo médio o Planeta teria a capacidade de sustentar 6,2 bilhões de habitantes, um pouco menos dos 6,8 bilhões atuais. Isto quer dizer que com o nível de consumo médio do mundo atual a população da Terra já é maior do que aquela que o Planeta tem condições de manter de maneira sustentável. Ou seja, se toda a população mundial adotar o padrão de consumo médio da África do Sul (2,1 gha) ou do Equador (2,2 gha) o Planeta já estaria em uma situação de insustentabilidade.

Os países de renda alta, possuiam em 2005 uma renda per capita de $ 35.690 dólares internacionais e uma pegada ecológica de 6,4 hectares globais (gha). Com este padrão de consumo médio o Planeta teria a capacidade de sustentar apenas 2,1 bilhões de habitantes. Isto quer dizer que se o padrão de consumo de países como Irlanda (6,3 gha) ou Canadá (7,1 gha) fossem generalizados a Terra teria de reduzir a população em mais de 4 bilhões de pessoas. Já no caso dos Estados Unidos (EUA) a pegada ecológica era de 9,4 gha e se o “American way of life” fosse adotado pelo resto do mundo a população teria mundial teria de ser no máximo 1,4 bilhão de habitantes, correspondente apenas à população da China atual.

A tabela 1 também mostra que a renda média da população mundial é de $ 9.460 dólares internacionais e possui uma pegada ecológica de 2,7 gha. Neste nível de renda e consumo a Terra só teria condições de sustentar 5,0 bilhões de habitantes. É claro que o consumo mais elevado encontra-se entre os países ricos e as parcelas ricas da população. Mas mesmo que, numa situação hipotética, haja uma distribuição igualitária da renda e uma maior inclusão social e econômica das parcelas pobres da população, com acesso aos bens e serviços médios atuais, a situação do nível de consumo mundial atual é insustentável.

Desta forma a humanidade está diante dos seguintes desafios: a) reduzir ou modificar o padrão de consumo atual; b) investir em mudanças tecnológicas que permitam utilizar fontes renováveis de energia, maior eficiência na produção, reciclagem, aproveitamento do lixo, redução do desperdício, etc. c) reduzir a população; d) todas as alternativas juntas.

No curto prazo, a única alternativa não viável é a redução da população, pois mesmo com o declínio das taxas de fecundidade o crescimento populacional vai continuar ocorrendo devido à inercia demográfica (crescimento devido a estrutura etária jovem) e deve atingir 9 bilhões no ano de 2050. Mesmo que as taxas de fecundidade caiam de maneira mais rápida, a população mundial deve chegar a no mínimo 8 bilhões na metade do atual século.

Então as alternativas imediatas para evitar o desastre ambiental são aquelas apresentadas nos dois primeiros pontos acima, isto é, a comunidade internacional precisa modificar substancialmente a sua forma e o seu padrão de produção e consumo, quer seja pela via do decrescimento da quantidade de bens e serviços produzidos ou pela via das mudanças tecnológicas que possibilite produzir a mesma quantidade com menos insumos materiais e com mais respeito ao ambiente.

Referência:

WWI. 2010 State of the world Transforming Cultures From Consumerism to Sustainability – A Worldwatch Institute Report on Progress Toward a Sustainable Society. Disponível em: http://www.worldwatch.org/sow10

José Eustáquio Diniz Alves, colaborador e articulista do Ecodebate, é Doutor em demografia e professor titular da ENCE/IBGE. Livro publicado: RIOS-NETO, E. MARTINE, G. ALVES, JED. (orgs) Oportunidades perdidas e desafios críticos: a dinâmica demográfica brasileira e as políticas públicas., ABEP, Campinas, 2009. Disponível em: http://www.abep.org.br/usuario/GerenciaNavegacao.php?caderno_id=786&nivel=1

EcoDebate, 10/03/2010

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