Suzano no Maranhão e no Piauí, artigo de Mayron Régis

Monocultura de eucalipto, em foto de arquivo
Monocultura de eucalipto, em foto de arquivo

[EcoDebate] Houve um tempo em que as pessoas conferenciavam com outras pessoas, em salas minúsculas ou espaçosas, sobre assuntos de amor, de doenças e de dinheiro. Os por fora dessas conferências acusavam as primeiras de tolas e as outras de charlatãs. Quem queria pegar pesado via nisso bruxaria. Algumas pessoas creditavam a toda sorte de crendices, mandingas e coisa e tal como forma de antecipar o que vinha pela frente. Quem leu a sorte na mão previu muita saúde, muito amor e muito dinheiro, o que claro contentava o cliente que pagava o valor da consulta com o maior prazer. As pessoas saiam reconfortadas das consultas para quem sabe voltar lá um dia.

Os avanços da tecnologia sobre a rotina das pessoas descredenciaram o tarô, os búzios, o horóscopo e etc. como formas de lerem as suas vidas em relação ao tempo. Muitas das previsões fracassaram no decorrer das vidas, mas poucos fariam questão de voltar ao “bruxo” para cobrar com juros o que foi pago na consulta. Podendo comprar utensílios domésticos de tecnologia de ponta, diferente do que faziam anteriormente, as pessoas fazem suas consultas por meio da internet. Quaisquer que sejam as consultas e sem precisar mostrar as caras ou esclarecer seus dados.

Tentar ler o tempo sempre tentou o homem. Seja o tempo natural ou o tempo mítico. Presumia-se que lendo o tempo através da natureza e, depois, através da arte, a humanidade esbanjaria sabedoria e riqueza pelos séculos que se forjariam. Essa forma de ver o mundo persiste ainda hoje, só que pela ótica da tecnologia e da informação jornalística e a tentação de ler o tempo consiste em tentar lê-lo na produção, na produtividade e no consumo, os quais sustentam a economia de qualquer país, exclamariam os mais afoitos. A “previsão do tempo” como vista na mídia, nos meios empresariais, na sociedade e nos modelos educacionais abre a possibilidade para os charlatães – aqueles que vendem sonhos travestidos de realidade.

Depois de ligeiros informes sobre a “previsão do tempo”, sente-se um pouco de saudades dos charlatães à moda antiga do tipo que mandava flores e bombons para paparicar pobres viúvas, porque no final das contas as suas mentiras eram passageiras. De resto, um pouco de romantismo faz bem. A questão desse charlatanismo de “subúrbio” é que ele impede que se perceba a realidade em volta. Incumbiu-se dessa função e cumpre bem.

Ao endurecer a análise, o charlatanismo campeia por toda a sociedade, principalmente nos ambientes políticos – no nordeste brasileiro, pessoas “charlam” por aí. De certa forma, a Suzano Papel e Celulose “charlou” bastante pelo Baixo Parnaíba maranhense derivada de uma obscura promessa de instalação de uma unidade de processamento de celulose no município de Urbano Santos.

Os anos se passaram abestados, em Urbano Santos,São Benedito do Rio Preto, Belágua, Santa Quitéria, Mata Roma, Brejo, Anapurus, São Bernardo e Santana com relação aos quase cem mil hectares de terra grilados no Baixo Parnaíba maranhense e o projeto da fábrica. O Instituto de Terras do Maranhão consubstanciou várias informações em um relatório sobre as atividades da Suzano que comprovariam a grilagem em mais de 90% de suas ditas terras.

Em recente reunião em Teresina sobre seu projeto de plantio de mais de 160 mil hectares de eucalipto em 38 municípios piauienses, uma funcionária da Suzano frisou a responsabilidade da empresa no ato de adquirir terras, de que ela só compra terra legal, titulada e sem comunidades próximas. As áreas que ela pretende plantar eucalipto no Baixo Parnaíba maranhense são todas terras de posse e com comunidades morando lá dentro. Uma empresa terceirizada pela Suzano, assegurada por uma licença de desmatamento assinada pela secretaria de meio ambiente Telma no apagar das luzes do governo Jackson Lago, começou a desmatar florestas de bacurizeiro e pequizeiro em Santa Quitéria no mês de maio de 2009. As comunidades do pólo Coceira empataram os desmatamentos e depois houve uma reunião com os representantes da empresa em que ficou acertado que haveria todo um levantamento da origem das terras. Os representantes da Suzano aceitaram os termos. E não é que agora a empresa entrou com um pedido de reintegração de posse como se as comunidades fossem invasoras.

Mayron Régis, jornalista Fórum Carajás

Esse texto faz parte do programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, apoiado pela ICCO e realizado de forma conjunta com a SMDH, CCN e Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba

[EcoDebate, 08/06/2009]

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