Pesquisa encontra traços de herbicidas no Aquífero Guarani

Área do Aquífero Guarani
Área do Aquífero Guarani

“A contaminação do Aqüífero Guarani ainda não afetou a água consumida em Ribeirão Preto, mas temos de pensar no futuro.” A afirmação é da engenheira química Cristina Pasqualato, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), cuja última pesquisa detectou, em amostras de água coletadas em áreas de recarga do Aqüífero Guarani, na região leste da cidade, traços de diurom e hexazinona, componentes de um herbicida usado na cultura canavieira. Matéria de Edson Álvares da Costa, da Gazeta Mercantil, 05/01/2009.

A pesquisa Remoção de microcontaminantes de águas superficiais e subterrâneas — a ser publicada em livro pelo Programa de Pesquisa em Saneamento Básico (Prosab), do governo federal — também encontrou traços do herbicida no rio Pardo, que, num futuro talvez não muito distante, pode ajudar a abastecer Ribeirão Preto, hoje a única cidade com população acima de 500 mil habitantes abastecida em 100% com água do Aqüífero Guarani.

“Investigamos cinco poços de pesquisa em Ribeirão Preto, uma vez a cada 15 dias, de janeiro a dezembro de 2007, e encontramos traços do herbicida em dois deles, além do rio Pardo”, diz Cristina. Por sorte, o fluxo do aqüífero na região está em direção oposta aos 106 poços artesianos do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp), que capta a água destinada ao consumo da população ribeirão-pretana.

De todo modo, a pesquisa de Cristina aponta o método de adsorção em carvão ativado para purificar a água. “Mas custa caro. Só a estação Alto da Boa Vista, na capital paulista, gasta R$ 30 mil por dia em carvão ativado. E nós não precisaríamos disso, se as autoridades tomassem conhecimento de estudos feitos há anos sobre o aqüífero”, diz a pesquisadora. “A comunidade científica já fez vários estudos reconhecidos internacionalmente, mas ninguém, nem mesmo ONGs ou a promotoria, parece tomar conhecimento deles”, afirma.

De fato, não é de hoje que se sabe da contaminação do aqüífero na região e das medidas que deveriam ser tomadas pelo poder público para mitigar os estragos já feitos e evitar novos danos ao reservatório natural.

Estudo feito há dez anos pela Petrobras em convênio com a Unaerp sobre a contaminação das águas do aqüífero pelo chorume de um aterro conhecido como “lixão de Serrana”, em Ribeirão Preto, concluiu que não há riscos de contaminação da água captada pelos poços artesianos existentes na cidade. Base da tese de mestrado de Cristina na época, o estudo apontou que restos de medicamentos, de inseticidas, de adubos e de defensivos agrícolas foram encontrados em parte das mais de 3 mil análises físico-químicas realizadas em amostras de água coletadas nas proximidades do lixão. Segundo o estudo, por sorte, o fluxo da água subterrânea, com velocidade de dez metros por ano, está em direção oposta aos poços artesianos. Além disso, o grande volume de água do aqüífero dilui tanto os poluentes que, após fluírem por 200 metros, ou 20 anos, eles passam a ter concentrações desprezíveis.

“Também recomendamos, há dez anos, que a superfície do lixão de Serrana fosse impermeabilizada, para evitar empoçamento e conseqüente infiltração de água no aterro e aumento da contaminação do aqüífero”, diz a pesquisadora.

Pesquisares que realizaram há dez anos o estudo da Unaerp e Petrobras, denominado “O Aqüífero Gigante do Mercosul”, também propuseram que “toda a área de recarga do aqüífero Guarani deveria ser considerada zona de proteção ambiental máxima”. Além disso, a sugestão era que se fizesse a reposição da vegetação nativa nessas áreas. “As áreas onde aflora o Guarani devem ser preservadas para que as águas da chuva possam abastecer constantemente o aqüífero, sem poluí-lo.”

Em verdade, quase nada foi feito, pelo executivo, pelo legislativo ou pela sociedade civil organizada, para preservar um dos maiores reservatórios subterrâneos de água do planeta.

O aqüífero gigante do Mercosul atinge uma área de 1,130 milhão de quilômetros quadrados, no Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. No Brasil, que responde por quase 75% da área do reservatório, o aqüífero atinge os Estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Sob toda essa área, a partir de profundidades variáveis, o aqüífero tem uma espessura média de 100 a 150 metros. A água está misturada à areia, mas 20% da mistura representa o líquido precioso. Toda a área do aqüífero Guarani já foi, há centenas de milhões de anos, um deserto. A areia que hoje está mistura à água, também na forma de arenito, vem dessa época, formada no período Triácico ao Jurássico, antes mesmo de o continente sul-americano separar-se da África, 55 milhões de anos atrás.

Em sua maior parte, o aqüífero está a grandes profundidades, recoberto por lavas vulcânicas de até um quilômetro de espessura, o que dificulta a abertura de poços. A contaminação nessas áreas também é improvável. São poucos os lugares como Ribeirão Preto, onde ele aflora e facilita o aproveitamento das águas. É são essas áreas, beneficiadas pela natureza, que requerem os maiores cuidados ambientais.

Segundo o livro “O Aqüífero Guarani”, cerca de 70% da superfície da Terra encontra-se coberta pelas águas, num volume de aproximadamente 1,4 bilhão de km. Deste total, 97,5% constitui-se de água salgada e apenas 2,5% em água doce.

Do total do volume de água doce (34,6 milhões de km) do planeta, cerca de 30,2% (10,5 milhões de km) pode ser utilizada para a vida vegetal e animal nas terras emersas, pois 69,8% encontram-se nas calotas polares, geleiras e solos gelados. Ainda segundo a publicação, dos 10,5 milhões de km3 de água doce, cerca de 98,7% (10,34 milhões de km), corresponde à parcela de água subterrânea, e apenas 92,2 mil de km(0,9%) corresponde ao volume de água doce superficial (rios e lagos), diretamente disponível para as demandas humanas, que corresponde a 0, 008% do total de água no mundo.

De acordo com os dados da FAO (2002) o consumo anual de água no mundo em 2000 foi de 3,8 mil km, sendo 69% (2,6 km) destinado ao setor agrícola, 21% (783,1 km) ao industrial e apenas 10% (376,3 km) ao doméstico (consumo humano, uso sanitário, serviços urbanos municipais). Os cinco países que mais consomem água no mundo, segundo o livro, são Índia, China, Estados Unidos, Paquistão e Japão.

[EcoDebate, 06/01/2009]

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